28 de fevereiro de 2011

Cuidar da cidade como a nossa casa

Estamos inaugurando uma parceria importantíssima entre Parceiros Voluntários e a Prefeitura em prol da qualidade de vida dos porto-alegrenses. Ela parte do princípio básico de que cada um de nós é responsável por cuidar da sua cidade.

A cidade é o espaço de compartilhamento da vida em sociedade, local de convivência plena, onde moramos, trabalhamos, construímos nossos projetos de vida. Por que, então, nem todos nós temos consciência do nosso papel no cuidado desse espaço? Por que vemos, diariamente, cenas repetidas de depredação do patrimônio público, de agressão no transito, ou atitudes tão corriqueiras e simplórias como jogar lixo no chão ou depositá-lo em locais não apropriados?

Se atitudes como essas causam revolta à maioria de nós, ao mesmo tempo nos perguntamos porque essa indignação não atinge a todos? O que falta para que cada um dos 1,4 milhão de pessoas da nossa capital compartilhe da mesma preocupação?

Esse questionamento é um dos motes do V Congresso da Cidade, que começa em março e se estende até dezembro. Discutir maneiras de despertar a responsabilidade social em cada um de nós, ou seja, fazer brilhar em cada indivíduo o seu papel de cuidador da cidade é um dos maiores desafios desse evento.

O V Congresso da Cidade propõe-se a ser acima de tudo um palco de encontro de cidades, organizações, empresas que já realizam atividades cuidadoras, como o cuidado com crianças e pessoas carentes, ações de educação no trânsito, seja de forma organizada ou informal. Significa que cuidar da cidade é muito mais do que preservar o patrimônio público: é acima de tudo ter uma atitude fraterna e de respeito com os demais cidadãos, inclusive nas nossas relações familiares, comunitárias e de trabalho.

A Parceiros Voluntários é um exemplo de organização que trabalha de forma exemplar para que sua rede de colaboradores cuide de Porto Alegre, valorizando o conhecimento especializado de cada um de seus membros. O desafio que a Parceiros Voluntários se propõe agora, ao ingressar com elevado compromisso cívico num processo de capacitação de cuidadores da cidade, é levar a outras pessoas essa experiência, mostrar que muito do que já ocorre na cidade são ações de voluntariado espontâneas e que essa rede pode ser articulada em busca de resultados concretos ainda maiores para o futuro. O conhecimento e a experiência das pessoas dessa rede serão compartilhados com outros atores que atuam na esfera municipal, através da rede de participação democrática de Porto Alegre. Em parceria, esses grupos ajudarão a despertar nos territórios de Porto Alegre uma série de ações de mobilização para que cada bairro tenha os seus cuidadores.

Estamos portanto diante de uma grande oportunidade para fortalecer e ampliar a consciência cidadã dos porto-alegrenses, pois da mesma forma que somos detentores de direitos, também temos responsabilidades. Dar exemplo de cidadania é cuidar da nossa cidade como gostamos de cuidar da nossa própria casa.

12 de fevereiro de 2011

Breve Avaliação do Forum Social Mundial de Dacar

Realizou-se aqui em Dacar, Senegal, África, entre os dias 6 e 11 de fevereiro, mais uma edição do FSM. Participei como representante da Prefeitura de Porto Alegre. Vim a Dacar manifestar nosso apoio aos movimentos sociais para que a edição centralizada de 2013 volte a sua origem. Este é um desejo de toda a cidade, não só da Prefeitura. Há uma caso de amor entre Porto Alegre e o FSM desde 2001, quando ele se realizou pela primeira vez. De lá até hoje cinco edições já ocorreram em Porto Alegre, a última em 2005.

Edição de Dacar Marcada pela Desorganização

Tive a oportunidade de participar hoje da Assembléia do Conselho Internancional do FSM, na Maison de la Culture. Cerca de duzentas pessoas passaram mais de cinco horas avaliando essa edição do FSM e a opinião generalizada é Negritoela foi desorganizada e apresentou sérios problemas de logística, essenciais para a boa realização das atividades do grande evento:falta de espaços adequados para as reuniões, pouca informação acessível sobre a programação, deficiencias de tradução, falta de logística básica de comunicação, como acesso a internet, equipamentos som e imagem, etc.

Vitória da Luta do Povo Egipcio

Estes problemas de logística, por um lado, causaram uma certa frustração entre os participantes, mas, por outro lado, foram em parte ofuscados pelo fato da realização do FSM haver coincidido com a vitória do povo egipcio em sua luta pela liberdade e a democracia com a renúncia de Mubarack. A notícia da queda do ditador ontem, sexta-feira, causou grande alegria e entusiasmo nos milhares de altermundistas (assim se chamam os ativistas do FSM) que se concentraram para a Assembléia Final de Convergência para a Ação, no campus da Universidade Cheikh Anta Diop.

Sintonia com as Redes e Mídias Sociais

Se a vitória democrática no Egito realçou a cultura política libertária dos participantes do FSM e consolidou sua presença no continente africano, ela também exerceu o papel de colocar em questão a forma como o espaço político que a realização do FSM representa está sendo organizado. Há uma forte opinião entre os membros do Conselho Internacional de que chegou a hora deste espaço ser requalificado, de modo a harmonizar-se com a emergente cultura política das redes e mídias sociais, colocadas a serviço de uma cidadania ativa e transformadora, especialmente presente na juventude.

Esgotamento de um Modelo

Está perpassando no Conselho Internacional um sentimento de que é preciso atualizar-se, colocar-se em sintonia com os novos tempos, compreender o fenômeno emergente das novas midias sociais, entender essa nova cultura política cidadã, aparentemente desorganizada e caótica, mas instituída de uma potencia mudancista jamais conhecida antes. O momento de avaliação crítica que vive o FSM reflete, pois, o esgotamento de um modelo político baseado em práticas de organizações mais ou menos centralizadas, diante das novas práticas de redes sociais distribuídas, horizontais, sustentadas por pessoas autônomas, ativas, que utilizam as novas mídias sociais para articular-se, mobilizar-se e potencializar suas causas cívicas e transformadoras. Os acontecimentos destas últimas semanas na Tunísia e no Egito revelam essa nova realidade política com toda a evidencia. É hora, realmente, de o FSM parar para um profundo balanço, se quiser seguir desempenhando um papel inovador e de vanguarda como teve nas suas primeiras edições.