30 de agosto de 2009

Mudanças de Paradigmas Diante da Crise Global







Reproduzo abaixo o roteiro da palestra que proferi na reunião da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas da cidade de Santa Maria, RS, no último dia 27 de agosto de 2009.


Introdução: reflexão sobre o momento e o mundo em que vivemos, como entendê-lo e transformá-lo; aprendizado dos últimos anos; aprendizado de minha experiência nos EUA ); oportunidade de diálogo com os dirigentes cristãos (responsabilidade social, balanço social).

1. “O Mundo mudou, e nós temos que mudar com ele”. Barack Obama, discurso de posse. Obama lidera movimento mudancista nos EUA.

2. O que mudou? A revolução das comunicações interligou as pessoas e nos sentimos parte de uma mesma nave, somos um.


3. O que temos que mudar? O modo de pensar. Para entender melhor o mundo de hoje e poder ajudar a melhorá-lo.

4. Se fazemos parte do mesmo planeta, se somos uma só humanidade, o pensamento especializado, segmentado, setorializado não consegue mais explicar adequadamente os novos fenômenos da atualidade. É preciso pensar de modo integrado, sistêmico, conectar a parte com o todo, e o todo com suas partes constitutivas. Ex1.O resgate do pensamento de Leonardo da Vinci por Fritjof Capra. Ex2. Edgar Morin, que propõe a reforma do pensamento como a primeira e mais importante reforma a ser feita. É uma constatação generalizada que nossas escolas e nossos professores não estão preparados para educar nossas crianças e jovens para viverem nesse novo tempo. Nosso modelo de educação precisa mudar. E, como se sabe, a educação de nossas crianças começa no ambiente familiar.


5. Os acontecimentos acabam sendo simultâneos e globais, porque os fluxos de informação e de riqueza são instantâneos, e interconectam o mundo inteiro. Ex1. a atual crise financeira, que eclodiu nos EUA e imediatamente globalizou-se. Em conseqüência, as respostas, para serem efetivas, requerem uma concertação global. Ex1.a reforma do sistema financeiro internacional.Ex2.as respostas à crise e a dificuldade de coordenação entre as nações. O imperativo de reforma e fortalecimento da ONU.

6. A cidade torna-se um novo ator político global. Os desafios globais se localizam, estão presentes na nossa rua, bairro, cidade. Os desafios locais tornam-se globais, porque são comuns a todos os lugares. Os Estados nacionais perdem poder e a soberania nacional se fragiliza, diante dos fluxos financeiros e de poder mundias.


7. Cada um de nós, como pessoa, cidadão, é chamado a ser um ator político, e os novos meios de comunicação e interação social empoderam como nunca antes na história da humanidade as redes de cidadãos conscientes, ativos e interconectados. Desponta a capacidade transformadora das pessoas comuns, quando se unem e trabalham juntas por um propósito. Consolida-se uma esfera pública em rede, local e global ao mesmo tempo. Ex. Movimento http://www.moveon.org/ na campanha de Obama. Ver meus livros: A Era dos Vagalumes e Um Voluntario na Campanha de Obama.

8. Ao lado da democracia institucional, começa a despontar uma nova democracia cooperativa, baseada em valores, em causas, na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Cada dia fica mais claro que é nossa sobrevivência que está em jogo. Somos impulsionados a assumir a responsabilidade social de cada um de nós diante dos problemas a nossa volta. Não tem mais espaço para omitir-se e apenas jogar a culpa nos outros. Co-responsabilidade e cooperação são agora as palavras-chave.


9. A palavra cede lugar ao exemplo como critério de verdade. Por isso a perda de credibilidade de boa parte dos políticos. Ex. Richard Ford sobre Obama: “o que ele diz é o que ele faz”. Obama é produto desse movimento pela verdade na política. Bush foi aniquilado porque manipulou informações para justificar a invasão do Iraque, que depois se revelaram mentirosas. Ex. Obama conversa com as pessoas e responde perguntas semanalmente pela internet.

10. Apesar da gravidade e urgência de soluções que os problemas requerem, não há mais lugar para respostas radicais, excludentes, impositivas. Torna-se ineficaz o recurso à violência, à radicalização das ações políticas até o patamar do conflito. Impõe-se o diálogo, o respeito às diferenças, a busca de convergências. A diplomacia da paz, e não o recurso à guerra. Ex. o exemplo negativo do governo Bush.

11. A prática política baseada na exacerbação do conflito não tem mais eficácia e perde credibilidade, em favor da política da busca do entendimento, que congregue os esforços em favor do bem comum. Ex.o exemplo negativo da política gaúcha.

12. A prática de governo, associada à idéia do Estado provedor de bens e serviços públicos, cede lugar à prática de governança, em que o governo articula os demais agentes da sociedade, a iniciativa privada, as organizações sociais e os cidadãos, para cooperarem em benefício da melhoria das condições de vida, de convivência, e para o desenvolvimento local. Ex. o programa de Governança Solidária Local da PMPOA.


13. O Estado que está aí, hierárquico, vertical, corporativizado por interesses privilegiados do funcionalismo, dos partidos políticos e de grandes grupos econômicos privados, não corresponde mais às exigências da sociedade e dos cidadãos. Estamos em busca de um novo Estado, mais horizontal, mais próximo das pessoas , que funcione melhor em favor das comunidades, que aplique com mais resultados sociais o dinheiro público, que não seja corrupto. Ex1. a necessidade de profissionalizar o serviço público. Ex2.a necessidade de mudar o financiamento das campanhas.

14. Os mais poderosos meios de comunicação, embora concessões públicas, tornaram-se instrumentos de enriquecimento dos seus grupos controladores, com uma orientação puramente comercial, e no mais das vezes com conteúdos deseducativos. É crescente o clamor para que cumpram seu papel educativo, em benefício do desenvolvimento cultural e cívico de toda a sociedade.

15. O crescimento econômico já não dá mais conta das exigências da sociedade. Impõe-se o desenvolvimento sustentável, que harmonize o econômico, o social , o ambiental e o político-institucional.

16. O pensamento econômico tradicional, baseado no fundamentalismo de mercado, revelou-se uma falácia com a crise de Wall Street. Os mercados livres não tendem ao equilíbrio, não conseguem autoregular-se. Todos agora voltam-se para a salvação no Estado, nos recursos dos contribuintes, que vão pagar a conta da crise. Enquanto isso, os contribuintes não estão sendo chamados a decidir o que fazer com seus recursos. Até quando vamos privatizar lucros e socializar prejuízos?

17. A globalização, que trouxe mais progresso econômico, mais desenvolvimento tecnológico, mais prosperidade. trouxe junto mais desigualdade social, mais concentração da riqueza. Ex. 1% da população adulta mundial concentra 40% da renda mundial, enquanto 50% detem apenas 1%. A pobreza e as desigualdades ultrapassaram as fronteiras dos países pobres e emergentes e chegaram aos países ricos. A pobreza globalizou-se ao lado da globalização da riqueza. Ex1.Os sem-teto nos EUA. Ex2.A pobreza nos subúrbios de Paris (“Entre os Muros da Escola”).


18. A excessiva concentração da renda e da riqueza mundial tornou-se disfuncional e entrava o desenvolvimento capitalista. De um lado, o excesso de liquidez nas mãos de poucos estimula a especulação financeira e o lucro improdutivo, e, de outro lado, bilhões de seres humanos estão fora do mercado de consumo, desestimulando o investimento e a expansão da produção, que gera mais trabalho e renda. Estamos num círculo vicioso que tende a produzir bolhas especulativas cada vez mais freqüentes, destruição de riqueza e renda, e cada vez maiores níveis de desemprego, ou seja, crescente sofrimento humano.

19. Qual é, portanto, o maior desafio diante de nós? Como compatibilizar uma economia cada vez mais voltada para financeirização da riqueza e o lucro instantâneo, com uma economia que seja também voltada para a dignidade e bem-viver do ser humano. Essa não é uma questão técnica, é uma questão essencialmente política, em relação a qual todos devemos nos envolver, posicionar-se e participar.

20. A questão da democracia ascende ao primeiro plano da agenda mundial, nacional e local.

Obrigado pela atenção de todos.

22 de agosto de 2009

Obama e o Imperativo do Respeito à Diferença



Um amigo, Darcy Francisco Carvalho dos Santos, enviou-me em video um belíssimo discurso de Obama sobre as mudanças culturais nos Estados Unidos e, diante delas, o imperativo do respeito à diferença, da pluralidade democrática, da busca de caminhos que nos levem à convergência, e não ao fundamentalismo e à guerra. Reproduzo abaixo:


video

2 de agosto de 2009

"É Difícil Ganhar uma Eleição Twittando"



Reproduzo abaixo entrevista com Ben Self, que me foi gentilmente enviada pelo amigo Marcio Poy. A entrevista deixa claro que as ferramentas da internet são facilitadoras e potencializadoras, mas o essencial das redes sociais é o que elas realmentre são, redes de pessoas conectadas e estimuladas por um propósito comum. Sem isso, a internet não tem eficácia.




Ben Self é estrategista de campanha na internet, ex-diretor de tecnologia do Partido Democrata nos Estados Unidos, sócio-diretor da agência Blue State Digital e coordenador da campanha on line de Barack Obama.



Eis a entrevista.


Como a Blue State Digital começou a trabalhar para Obama?


A BSD foi fundada em 2004, durante a campanha de Howard Dean (democrata que disputou as primárias daquele ano) para a Presidência. Desde 2004, trabalhamos para vários candidatos, partidos políticos e organizações sem fins lucrativos. Ficamos conhecidos pelo trabalho que fizemos para vários candidatos nos Estados Unidos e também pelo nosso trabalho para o Partido Democrata. Eles continuam sendo nossos clientes.
Então, quando a campanha de Obama começou, em 2007, nós éramos os mais qualificados, sob certo aspecto, para dar a eles a tecnologia de que precisavam. Eles nos ligaram, dez dias, eu acho, antes de anunciarem que iriam concorrer e disseram: "Ei, nós queremos fazer uma campanha de um jeito diferente e queremos usar as suas ferramentas e a sua tecnologia".


O que vocês fizeram para o Partido Democrata?Negrito


Nós tivemos um grande papel no trabalho para Howard Dean. Ao gerenciarmos a estratégia de internet e de tecnologia, demos as nossas ferramentas e a nossa tecnologia ao partido. Eu estava intimamente envolvido porque era diretor de tecnologia lá. Então temos trabalhado muito próximos aos democratas desde 2005.


A internet foi determinante para a vitória de Barack Obama?


Não diria que a internet pode fazer ou derrubar o candidato. Obviamente, é muito importante e traz muitas vantagens, mas não foi só a internet que fez o senador Obama presidente, foi uma série de fatores conjuntos.
Mas a internet foi a grande novidade da campanha, com a arrecadação online recorde.
É difícil apontar para qualquer fator e dizer: isso fez a diferença. Havia tantas coisas maravilhosas sobre o nosso candidato, que qualquer uma poderia ser apontada como a que fez a diferença. No entanto, acho que a grande diferença na forma como a campanha de Obama usou a internet, em relação ao que os outros fizeram no passado, é que ela entendeu como usar a rede para ajudar a conectar voluntários dando a eles ações, que realmente fizeram a diferença na campanha. Então essa foi a grande mudança.


Essa percepção de que a internet faria a diferença já estava presente desde o começo da campanha?


Estava bem clara para todo mundo, no começo da campanha, a importância da internet. Todo mundo já sabia que seria uma peça-chave na campanha.


O político que não apostar na internet já está em desvantagem?


Sempre haverá candidatos que se recusarão a abraçar a novas tecnologias. Essa é uma ferramenta importante para falar com eleitores e também para motivá-los. A campanha do Obama nos ensinou que existe uma grande vantagem em ter um relacionamento dinâmico e uma estratégia online. Então, acho que qualquer candidato que vire as costas para isso está perdendo uma oportunidade-chave e uma grande vantagem.


Mesmo em países, como o Brasil, em que a internet é menos acessível que nos Estados Unidos?


É claro que a penetração em algum nível é necessária. É um investimento de tempo.


Qual ferramenta indispensável que uma campanha online deve ter?


Um website dinâmico e interessante que traga pessoas para a campanha e permita que elas façam parte dela. E tem de ter um mailing poderoso, que contenha milhares, milhões de pessoas nele. É provavelmente a peça mais importante de qualquer campanha online. É mais importante, de certa forma, que um bom website.


E os sites de relacionamento?


Depende de como se usa e de qual sua estratégia geral. Há um papel para eles, mas não são mais importantes que o website, nem que o e-mail, de jeito nenhum. É uma ferramenta, mas é muito difícil ganhar a eleição "twittando". Você precisa motivar as pessoas, isso ajuda a ganhar eleição. Isso significa falar com os eleitores, amigos, doar dinheiro. Se você tem um website que fala de você e no qual os seus apoiadores opinam, mas que não motiva seus eleitores para nenhuma ação, você não vai a lugar nenhum.


Qual o custo de uma estrutura dessas para uma campanha eleitoral?


A gente não anuncia quanto cada um dos nossos clientes paga. Mas, claro, a gente trabalha para clientes grandes e pequenos. Alguns grandes, como a campanha do Obama, e os menores, que são as organizações sem fins lucrativos. Temos uma série de ferramentas que nós autorizamos os clientes a usar. Clientes que não podem bancar os custos se beneficiam do longo caminho que a gente já traçou.


Como vocês criaram a ferramenta de arrecadação pela internet?


É só um exemplo de como a gente pegou uma ideia tradicional de arrecadação de fundos e a usou. Há uma técnica de arrecadação de fundos muito comum nos Estados Unidos. Aqui, nós a chamamos de match e geralmente é usada como mala direta. Esses pedidos funcionam assim: "Se você der um dólar, há um outro doador que nos dará três dólares. Então, doe agora". A gente olhou para isso e pensou: as pessoas não acreditam nisso. Então vamos mudar essa ideia e vamos fazer ela incrivelmente transparente. O grassroots match faz isso.


Como funciona?


Você manda um e-mail para sua base de arrecadação, pessoas que te doaram antes, e diz: "Ei, vamos falar com todas as pessoas que são nossos apoiadores, mas que nunca doaram antes. Vamos dizer: ?Nós temos 10 mil pessoas que darão 10 dólares, se você der 10 dólares hoje. E assim que você der os seus 10 dólares, a gente vai te conectar a uma dessas pessoas e você vai trocar impressões sobre a doação?." Nós descobrimos que as pessoas adoram fazer esse tipo de conexão, mesmo que elas não se conheçam. E elas voltam para doar 3, 4, 5 dólares. A campanha arrecadou muito dinheiro com pequenas doações. Então, focar nisso, foi uma parte importante da campanha.


O eleitor da internet tem um perfil específico?


Não, na verdade, a gente descobriu que os perfis mais ativos usando os sites eram de pessoas que a gente não esperaria. Um dos enganos mais comuns que você costuma ouvir é que a internet é usada para convencer, persuadir as pessoas. Realmente tem, sim, alguma porcentagem de pessoas que vai ao site para aprender mais sobre o candidato. Mas ela serve, principalmente, para aumentar o entusiasmo e a paixão dos apoiadores e pedir a eles para fazer coisas, usá-los para falar com as famílias e os amigos para, aí sim, convencê-los e fazê-los mudar de ideia.


O senhor acha que a internet, ao dar transparência às doações, pode coibir casos de corrupção?


Eu acho que ser capaz de financiar uma campanha política ou partido político (pela internet) é genial. É muito mais importante ter várias pessoas por aí espalhadas, apoiando um determinado candidato e se engajando na democracia. Isso deve ser encorajado. As doações pela internet são um jeito de fazer isso. Permitem que mais gente, e de forma mais fácil, se envolva com as doações. Toda vez que puder diminuir barreiras e aumentar participação em democracia é uma boa coisa.


Aqui no Brasil estamos discutindo regulação de campanhas na rede. O sr. é a favor de regular a internet?


É muito difícil falar sobre isso, sem saber detalhes da situação.


Os partidos brasileiros estão cortejando o sr. Já fechou com alguém?


Não comentamos nada sobre isso. Me desculpe.