30 de março de 2009

Visão Velha Desconhece a Força dos Municípios


A esfera de governo municipal, mesmo tendo sido reconhecida em sua autonomia e especificidade pela constituição cidadã de 1988, parece ainda não ser de fato reconhecida e compreendida pela política e pelos políticos brasileiros. Leio vários artigos que saíram recentemente nos principais jornais do Rio Grande do Sul, de autoria da governadora Yeda Crusius(PSDB), do presidente da Assembléia Legislativa Ivar Pavan(PT) e do deputado estadial Luiz Fernando Zachia(PMDB). Todos eles dedicam-se a discorrer sobre as medidas que estão sendo, ou devem ser tomadas para enfrentar a crise econômica, que dá sinais de agravar-se ainda mais ao longo do ano. No caso da governadora, destaca o que o governo estadual vem fazendo. No caso dos deputados, o papel de grande fórum de debates e interlocução entre governo, empresários, trabalhadores e sociedade que vem cumprindo. Até aí tudo bem, embora as abordagens sempre tem o viés de mostrar o que o poder a que pertencem está fazendo, e não o que podemos fazer juntos para ajudar a minorar o sofrimento humano das pessoas que estão perdendo os seus empregos.



Comunidades Menores Pagam Mais Caro a Conta da Omissão



Mas há outro aspecto igualmente grave dessas abordagens um tanto corporativistas, destituídas de um verdadeiro compromisso de responsabilidade social do poder público como um todo com as pessoas e as suas comunidades. Trata-se da completa omissão do papel que podem e devem desempenhar os municípios no enfrentamento das conseqüências da crise nacional e global. Tanto o Governo do Estado, como a Assembléia Legislativa, fazem coro com o Governo Federal em desconhecer os municípios como parceiros essenciais no que poderia ser uma cooperação federativa contra a crise e pelo desenvolvimento de novas oportunidades em cada comunidade local. Mais grave ainda, as isenções do IPI e do IR realizadas pelo Governo Federal, medidas importantes de estímulo ao consumo e à produção, “esqueceram” de compensar os municípios pela perda de receita no repasse do FPM. Revelando tomadas de decisões apressadas e desarticuladas, vestiu-se um santo, despiu-se outro. Cerca de 250 do 495 municípios gaúchos, para os quais o FPM representa mais de 40% da arrecadação total, segundo dados da CNM, estão tendo que conter custos, muitas vezes essenciais, para sobreviver diante da queda de arrecadação resultante do menor repasse federal.



Falta Uma Visão de Governança do Desenvolvimento



Na velha visão de governo, que ainda predomina largamente no país, cada esfera de governo toma suas próprias decisões e tenta “faturar” ao máximo os benefícios que produz junto aos cidadãos eleitores. É a ótima de reprodução do poder pelos grupos que dominam a chamada “máquina pública”, geralmente utilizada partidariamente, através de cargos de confiança, para beneficiar os projetos eleitorais dos políticos de plantão. Nessa visão, o olhar dos governantes concentra-se na próxima eleição, não nos reais interesses dos cidadãos e, muito menos, das próximas gerações. Para os governantes e políticos que atuam a partir do novo paradigma da governança, as decisões são tomadas tomando por base o interesse das pessoas e suas comunidades, e de partida se impõe a articulação das ações das esferas municipal, estadual e federal de governo. Afinal, todo o dinheiro público tem a mesma origem, nos impostos pagos pelos cidadãos e, portanto, todas as ações governamentais precisam ser necessariamente convergentes para maximizar seus objetivos finalísticos do bem comum. Além disso, o olhar da governança do desenvolvimento jamais perde a oportunidade de comprometer os atores sociais locais, as pessoas, empresas, universidades, organizações sociais e governos com os objetivos comuns de melhoria da qualidade de vida e de convivência. E tudo é feito de baixo para cima, a partir da mobilização e união desses atores em cada comunidade local.

26 de março de 2009

Um Jeito Novo De Celebrar O Aniversário De Porto Alegre



Porto Alegre comemora hoje 237 anos de fundação. Há muitas festividades na cidade, ao longo do dia e de toda a semana, novos serviços lançados, como a coleta de lixo seletivo em todos os bairros da cidade duas vezes por semana, novas obras, como a reforma da fonte luminosa do Parque da Redenção, entre outras. Mas a novidade mesmo é uma nova atitude de um grupo de porto-alegrenses voluntários e voluntárias reunidos em torno da Associação dos Amigos do Centro Histórico - AMICH. Eles e elas decidiram celebrar o aniversário da cidade fazendo uma ação voluntária de restauração no centro histórico da cidade, que, após a inauguração do Centro Popular de Compras, está em acelerado processo de revitalização. Reproduzo abaixo a convocatória para essa iniciativa, que consistiu na limpeza das paredes sujas de cartazes de propaganda, acumulados ao longo de muitos anos, e que desfigurava um dos prédios históricos mais belos do centro, antigo Hotel Hermann, bem na esquina das ruas Andradas e Uruguai. Também reproduzo algumas fotos de voluntárias trabalhando, e mudando a cara desse patrimônio cultural do centro histórico de Porto Alegre. Para entar em contato com a AMICH, aí vai o endereço:



centrohistoricoportoalegre@gmail.com


AMICH em AÇÃO: Preservando o Patrimonio Histórico!!!


Quando: dia 25 das 11hs até terminar




O quê : retirada dos cartazes colados neste Prédio Histórico




Onde : esquina da Uruguai com a Rua da Praia, em frente às Lojas Americanas




Quem: voluntário(a)s da AMICH



VOCÊ FAZ A DIFERENÇA, a sua participação é IMPORTANTÍSSIMA!!!



Convide um(a) amigo(a) e venha participar desta Ação na Semana dos 237 anos de Porto Alegre.



Por favor, confirme sua presença via e-mail.




A transferência dos camelôs, além de ter dado um espaço digno para trabalharem, devolveu o espaço aos pedestres, estimulando-os à um novo olhar sobre o Centro Histórico.
A AMICH, conectada com as melhorias, resolveu dar um presente na Semana de Porto Alegre, deixando-o mais aprazível.
O prédio abaixo , na esquina da Uruguai com a Rua da Praia, bem no coração do Centro Historico , faz parte do Patrimonio Cultural de todos os portoalegrenses. Por isso, estamos propondo uma limpeza para a retirada dos cartazes, melhorando a visual deste prédio tão importante !

25 de março de 2009

Prefeitos Protestam Pela Perda de Recursos



A Rede de Participação Politica do Empresariado do Paraná informa que cerca de 70% das prefeituras paranaenses estão com as portas fechadas no dia de hoje como forma de protesto contra as reduções, aplicadas desde janeiro deste ano, nos repasses da União ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A manifestação foi decidida durante encontro em Curitiba, na última quarta-feira (18), promovido pela Associação dos Municípios do Paraná (AMP), que aproximadamente 120 prefeitos do estado participaram. O último repasse, feito na sexta-feira (20), foi considerado 19% abaixo das expectativas da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) - R$250 milhões dos R$310 milhões previstos. O FPM é a principal fonte de receita de 70% dos 399 municípios paranaenses. A queda nos repasses, segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), deve-se a perdas de receita do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto de Renda (IR).


Prefeitos Propõem Alternativas Para Enfrentar A Crise


Um grupo de prefeitos também entregará aos ministros, da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do Planejamento, Paulo Bernardo, um documento com reivindicações pelas perdas com o FPM, além de pedidos de aumento de receitas para outros programas e da adoção de mecanismos na reforma tributária que ampliem as receitas das prefeituras. A entrega será feita durante o seminário “Crise: desafios e soluções na América Latina”, que será realizado em Foz do Iguaçu, a partir desta quarta até sexta-feira (27). Em Salvador, prefeitos baianos também descontentes com a situação cobraram do presidente Lula por meio de carta a revisão dos valores. Lula prometeu tomar medidas para evitar que os municípios tenham que sacrificar programas em áreas prioritárias como saúde e educação, causando prejuízos às pessoas, muitas das quais já sacrificadas pelo desemprego e a perda de renda familiar decorrentes do agravamento da crise econômica.


Governo Federal Desarticulado Diante Da Crise


Fica claro que o Governo Federal, ao subestimar a crise, reage de forma pontual, desarticulada e tímida diante de suas consequências. Não foi ágil para articular uma mudança de estratégia econômica diante da mais grave crise econômica do último século, como revela a política com relação à taxa de juros, que continua entre as mais altas do mundo. As reduções tributárias no IPI e no IR foram feitas sem considerar as suas implicações sobre a arrecadação dos municípios, que agora reagem diante da perda de receita. Nem os municípios, nem os estados da federação foram chamados para uma ação coordenada anti-crise em conjunto com o governo federal. O pacote habitacional anunciado hoje, uma iniciativa altamente positiva, parece, no entanto, ter saído do bolso do colete nas últimas semanas, motivado mais para alavancar a candidatura oficial à presidência do que para enfrentar de forma consistente o déficit de moradia popular e o desemprego. Levantamentos comparativos divulgados nos últimos dias mostram, ademais, que as políticas anti-crise do Brasil estão entre as mais tímidas dos países da América Latina.

22 de março de 2009

Mensagem de Obama para os Iranianos


Reproduzo abaixo, em tradução livre, a mensagem do Presidente Barack Obama para os líderes e o povo do Iran, pela importancia que essa ousada iniciativa tem na busca de um relacionamento baseado na diplomacia e na paz e não na exacerbação do conflito e na guerra.


"Hoje eu quero estender meus melhores desejos a todos os que celebram Nowruz ao redor do mundo.


Esse feriado é ao mesmo tempo um ritual ancestral e um momento renovador, e eu espero que vocês desfrutem esse momento especial do ano com os amigos e a família.


Em particular, eu gostaria de falar diretamente para as pessoas e lideres da República Islâmica do Iran. Nowruz é apenas uma parte de sua grande e celebrada cultura. Durante muitos séculos sua arte, música, literatura e inovações fizeram do mundo um lugar melhor e mais bonito.


Aqui nos Estados Unidoa nossas próprias comunidades foram fortalecidas pela contribuição de iranianos americanos. Nós sabemos que vocês são uma grande civilização, e suas conquistas ganharam o respeito dos Estados Unidos e do mundo.


Por quase très décadas as relações entre nossas nações ficaram tensas. Mas nesse feriado nós somos lembrados da humanidade comum que nos une. De fato, vocês estarão celebrando seu Ano Novo de uma maneira muito semelhante como nós americanos celebramos nossos feriados – reunindo amigos e família, trocando presentes e estórias, a olhando para o futuro com um sentido renovado de esperança.

Dentro dessas celebrações encontra-se a promessa de novos dias, a promessa de oportunidades para nossas crianças, segurança para nossas familias, progresso para nossas comunidades, e paz entre as nações. Estas são esperanças compartilhadas, estes são sonhos comuns.


Portanto nessa estação de novos começos, gostaria de falar claramente aos líderes iranianos. Nós temos sérias diferenças que cresceram ao longo do tempo. Minha administração está agora comprometida com a diplomacia que comanda toda a gama de questões diante de nós, e com a busca de laços construtivos entre os Estados Unidos, o Iran e a comunidade internacional. Este processo não avançará por ameaças. Nós buscamos alternativamente o comprometimento que seja honesto e construído na base do respeito mútuo.


Vocês também tem uma escolha a fazer. Os Estados Unidos querem que a República Islâmica do Iran tenha seu correto lugar na comunidade das nações. Vocês tem esse direito – mas ele vem junto com reais responsabilidades, e esse lugar não pode ser alcançado através do terror ou das armas, e sim através de ações pacíficas que demonstrem a verdadeira grandeza do povo e da civilização iranianos. E a medida dessa grandeza não é a capacidade de destruir, e sim a sua demonstração de habilidade de constuir e criar.


Portanto, por ocasião do seu Ano Novo, quero que o povo e os líderes do Iran compreendam o futuro que nós buscamos. É um futuro com renovadas trocas entre nossos povos, e grandes oportunidades para parcerias e comércio. É um futuro onde as velhas divisões são superadas, onde vocês e todos os seus vizinhos e o todo o mundo possamos viver em maior segurança e maior paz.


Eu sei que isso não será alcançado facilmente. Há aqueles que insistem que nós sejamos definidos pelas nossas diferenças. Mas permitamo-nos recordar as palavras que foram escritas pelo poeta Saadi tantos anos atrás: “As crianças de Adão são braços uns dos outros, tendo sido criados de uma só essência”.


Na vinda de uma nova estação, somos lembrados dessa preciosa humanidade que nós todos compartilhamos. E nós podemos uma vez mais conclamar esse espírito na medida em que buscamos a promessa de um novo começo.


Obrigado, e Eid-eh Shoma Mobarak. (não soube traduzir)

19 de março de 2009

Consórcios Públicos Para Atender À Saúde


O debate sobre o atendimento à saúde que se realiza no Rio Grande do Sul, desencadeado pelos freqüentes acidentes com veículos que transportam pacientes do interior para Porto Alegre, trouxe à tona a um só tempo informações relevantes sobre algumas distorções do sistema e alternativas inovadoras para sua solução. A mídia, especialmente o jornal Zero Hora, que tem estado na iniciativa desse debate, revela, por exemplo, que 6 mil pacientes do interior buscam atendimento médico todos os dias na capital e que 62,8% dos médicos concentram-se nas dez maiores cidades do Estado, onde vivem 37% da população gaúcha. Ao mesmo tempo, a coluna de Paulo Santana divulga uma iniciativa inovadora que enfrenta na raiz ambos os problemas, através da constituição de consórcios públicos regionais de saúde, como ocorre como o CISA (Consórcio Intermunicipal de Saúde) de Ijuí.

Uma Iniciativa Inovadora e Eficaz


O CISA atende hoje cerca de 36 municípios da região – mais de um milhão de pessoas - com consultas de especialistas e exames mais complexos, além de comprar medicamentos em grande escala por pregão eletrônico, barateando em mais de 60% os preços dos medicamentos para os municípios. O Hospital de Caridade de Ijuí é o hospital de referência do CISA, que consegue atrair médicos especialistas através de remuneração adequada e excelentes condições de trabalho. Desse modo, o CISA contribui para enfrentar o duplo problema da ambulancioterapia e da centralização da atividade médica de maior complexidade em poucas grandes cidades. Fica claro que, se tivéssemos mais alguns consórcios regionais de saúde espalhados pelo Estado, à semelhança do CISA de Ijuí, além de dar mais conforto e segurança para o atendimento dos pacientes, desafogaríamos o congestionado sistema de atendimento dos hospitais de Porto Alegre, com ganhos de qualidade no atendimento para toda a população do Estado. Trata-se de uma solução possível, já testada e bem sucedida, que deveria transformar-se em prioridade absoluta da política de cooperação entre o Governo do Estado e os Municípios.


Consórcios Como Alternativa de Política Pública


A constituição de consórcios é prevista pela Lei Federal 11.207/2005 e regulamentada pelo Decreto 6.017/2007, ou seja, uma legislação muito recente e por isso, talvez, ainda tão pouco utilizada. Mas seu potencial de resposta para problemas importantes com que se defrontam os gestores públicos e a sociedade é enorme. Podem organizar-se em consórcios Municípios, Estado e Municípios e, inclusive, Estados, voltados para as mais diversas finalidades, como saúde, saneamento, proteção social, meio ambiente, tratamento de resíduos sólidos, desenvolvimento regional, turismo, entre outros. Os municípios do litoral do Estado, por exemplo, poderiam organizar um consórcio, entre eles ou junto com o Estado, para viabilizar um projeto de saneamento básico para toda a região, eliminando a destinação de esgoto in natura no mar.


Consórcio Para A Região Metropolitana de Porto Alegre


A região metropolitana de Porto Alegre poderia organizar um consórcio intermunicipal para o seu desenvolvimento harmônico e sustentável, de modo a enfrentar em conjunto problemas comuns a todos os municípios como transportes, saúde, saneamento, proteção social de crianças e adolescentes em situação de risco, meio ambiente, tratamento de resíduos sólidos, entre outros. Um dos fatores críticos de sucesso do consórcio é uma boa equação para sua governança. Seu conselho gestor deverá envolver não só os executivos municipais, como também as câmaras de vereadores, a sociedade civil e as universidades da região, e uma equipe técnica executiva permanente, de preferência com servidores de carreira, deverá formar a inteligência do consórcio, para assegurar sua competência e efetividade.


16 de março de 2009

Bicicletas Como Alternativa de Transporte Público

Quanto maior o caos na mobilidade urbana das grandes cidades brasileiras, mais cresce a pressão pela busca de alternativas inovadoras. O exemplo, como quase sempre, vem de fora. Inspirado no serviço municipal de bicicletas de Paris, que tive oportunidade de conhecer e que me impressionou pela sua efetividade e baixo custo para o usuário, está começando a colher bons resultados o serviço de aluguel de bicicletas em estações do metrô de Sao Paulo. Já são mais de 5 mil pessoas que utilizam o serviço regularmente. O empréstimo é gratuito na primeira hora e, a partir da segunda, custa 2 reais por hora, funcionando de domingo a domingo, das 6 às 22 horas. O sistema é interligado, de modo que é possível alugar a bicicleta numa estação do metrô e devolver em outra. No caso de Paris, há bicicletas para aluguel em locais específicos espalhados por toda a cidade, todos interligados. A situação do trânsito em Porto Alegre está a requerer inovações desse tipo por parte do poder público municipal. Quem sabe, juntamente com a ciclovia que está sendo anunciada pela Secretaria de Mobilidade Urbana e a EPTC, um serviço de aluguel de bicicletas seja também implantado na capital dos gaúchos ?

12 de março de 2009

Sem Programa Consistente, Crise Provoca Prejuízos Incalculáveis


A redução da taxa de juros pelo Banco Central de 12,75% para 11,25%, mesmo tendo sido uma decisão positiva, escancarou para a sociedade a ausência de uma política articulada e consistente para enfrentar a crise global, de modo a minimizar seus efeitos sobre o país. Tem sido tomadas medidas pontuais, os investimentos do PAC são destacados, anuncia-se um programa de moradia popular, mas isso tudo, somado às declarações do Presidente e de seus Ministros, deixa claro que o governo federal não entendeu até agora a profundidade da crise, subestimou seu impacto no Brasil, e parece surpreso e assustado com a queda de 3,6% no PIB do último trimestre de 2008, e no encolhimento de anunciados 17% no PIB de janeiro de 2009, com relação ao mesmo mês do ano anterior. Ou seja, estamos já em março, e só agora parece que caiu a ficha no alto escalão da república, quando qualquer pessoa bem informada e com alguma capacidade de previsão sabe que isso iria acontecer entre nós. O histórico das declarações do principal mandatário da Nação, que culmina com a afirmação de ontem, diante da queda do PIB no final do ano passado, de que “o sinal está vermelho”, é desesperadamente revelador do equívoco e da arrogância com que o governo federal tem tratado a matéria, causando um prejuízo econômico incalculável, e um prejuízo social medido em centenas de milhares de pessoas que perderam seus empregos, quando um programa consistente contra a crise, desencadeado na hora certa, ou seja, lá em novembro ou no máximo início de dezembro do ano passado, poderia ter evitado.

Desarticulação entre Governos Federal e Estaduais

No momento em que a crise econômica requer uma política anti-crise potente por parte do Governo, tanto para preservar a economia, como para preservar os empregos, é gritante a incapacidade do governo federal de exercer o papel decisivo de articular as três esferas do poder executivo nacional em ações concertadas e consistentes. Governo Federal e estaduais continuam a comportar-se olhando para a campanha eleitoral do ano que vem. É interessante, inclusive, o mimetismo, o PAC de lá equivale aqui ao anúncio dos investimentos previstos no orçamento de déficit zero, as equivocadas declarações de lá equivalem aqui ao equívoco de vender a idéia de um róseo futuro próximo. Mas não é diferente o quadro nos demais estados da federação, que repetem atitudes semelhantes.

A Cegueira de Desconhecer o Poder Local

Nesse contexto do salve-se quem puder, os municípios ficam à margem de qualquer articulação federativa, na qual a articulação dos investimentos municipais, com os estaduais e federais, e a sinergia da solidariedade e do trabalho conjunto das três esferas de governo, poderia aí sim gerar uma resposta de potência minimamente suficiente e capaz de enfrentar a crise. Veja-se, por exemplo, a oportunidade de ouro que o governo federal perdeu ao reunir todos os prefeitos brasileiros no final de fevereiro em Brasília. Essa teria sido a hora de chamar também todos os governadores, líderes empresariais, de trabalhadores, do terceiro setor, da universidade, dos meios de comunicação, e desencadear um amplo e ousado plano anti-crise, capaz de mobilizar, a partir de cada município, toda a sociedade brasileira em favor de atitudes concretas para combater os efeitos da crise.


O Futuro do País na Agenda Nacional


Quem sabe essa não teria sido também a hora de iniciar um amplo debate nacional sobre os rumos do país daqui para a frente, uma vez que está já suficientemente claro também que a crise abalou os alicerces de um determinado modo de crescimento, e que está em curso uma reformulação global da estrutura e da dinâmica do sistema capitalista. As mudanças que ocorrem nos Estados Unidos no governo de Barack Obama são reveladoras desses novos caminhos. Energia limpa, desconcentração da renda, regulação dos mercados, absoluta prioridade à qualidade na educação e no atendimento à saúde, reestruturação do sistema bancário e financeiro, entre outros, são temas obrigatórios a serem encarados com mais profundidade do que nunca antes. Nessa hora, portanto, o Brasil deveria mobilizar toda a sua inteligência estratégica e articular toda a sua força econômica e política interna e internacional para ocupar uma posição de liderança no novo cenário global que se está conformando. E para exercer essa liderança, deverá começar dando o exemplo dentro de casa.

10 de março de 2009

A Boa Prática dos Jornais de Bairro de Porto Alegre


Desde que começou a ser editada, sempre nutri muito simpatia pela edição mensal dos jornais regionais da Zero Hora em Porto Alegre. Acompanho especialmente o jornal do Menino Deus e o jornal da Zona Sul, e vejo agora que este último está lançando o seu blog e um Conselho de Blogueiros, com a participação voluntária de moradores da região. “O objetivo é fortalecer a relação dos moradores com seus bairros e do ZH Zona Sul com seus leitores”. O Zona Sul é o segundo blog de bairros, pois o primeiro nasceu no Moinhos de Vento em julho de 2008. No futuro próximo, provavelmente todos os demais jornais de bairros em Porto Alegre terão seu blog e seus blogueiros voluntários. Considero essa iniciativa de interação social e comunicação virtual entre vizinhos de bairro ou de região da cidade muito importante e oportuna, porque ela se insere em duas tendências mundiais: o fortalecimento das comunidades e identidades locais em meio ao avanço da globalização, e a valorização de conteúdos produzidos pelos próprios usuários dos meios de comunicação.

Embrião de Comunidades de Projeto

O Conselho de Blogueiros, por sua vez, pode constituir-se no embrião de uma verdadeira comunidade de projeto, que ao conhecer-se melhor aprende a cooperar em torno de propósitos comuns de melhoria da vida de suas comunidades, tendo os meios de comunicação como parceiros. Envolver cada vez mais vizinhos, resgatar a história e promover o conhecimento do lugar, fortalecer a identidade e a auto-estima dos moradores, formar redes de vizinhos comprometidos com objetivos comunitários, estimular a construção de um sonho de futuro compartilhado por todos, eis alguns dos desafios que os blogueiros comunitários e os jornais de bairros tem pela frente. Trata-se, como tenho designado, de constituir redes de governança solidária voltadas para o desenvolvimento local, que tem potencial de mudar a cidade, tornando-a mais pacífica e mais próspera. Trata-se, ao mesmo tempo, de ensaiar novas arquiteturas democráticas, que resultam da articulação entre as pessoas na sua vida cotidiana, que apontam para uma nova cultura política baseada na confiança, no diálogo, no respeito à legitimidade do outro e na cooperação pelo bem comum.

2 de março de 2009

Mobilização Popular Por Energia Limpa nos EUA


Reproduzo abaixo uma convocação popular do movimento MoveOn voltada a promover uma economia baseada em fontes limpas e renováveis de energia nos Estados Unidos. Essa iniciativa tem por objetivo apoiar e fortalecer o propósito do governo Obama de modificar a matriz energética do país, fortemente dependente de petróleo importado, promovendo investimentos públicos e privados em energia solar, eólica, de biomassa, nuclear e outras, e assim abrindo milhões de novos postos de trabalho nos próximos anos.

Prezado membro do MoveOn,

Você viu o discurso do Presidente Obama? Êle divulgou uma agenda precisa e ambiciosa para transformar totalmente nossa economia. Como ele disse, “isso começa com energia”.
Pense sobre o que a visão de Obama significaria para nosso país: painéis solares em nossos telhados. Energia eólica em nossos campos. Comunidades vibrantes. Milhões de pessoas colocadas de volta ao trabalho para construir nosso futuro.

Se nós quisermos isso, nós precisamos construir um movimento de base para fazê-lo acontecer. Mesmo com Obama fazendo da energia limpa uma prioridade, será difícil. Grandes companhias de petróleo e carvão já estão preparando-se para bloquear reformas reais e os conservadores querem que Obama falhe.

Nós teremos que mostrar uma determinação popular arrebatadora para essa mudança. Por isso nós lançamos uma nova campanha massiva para fazê-la acontecer. Nós triplicaremos nossa capacidade de organização e enviaremos organizadores altamente capacitados para estados chave e distritos eleitorais, divulgaremos novos anúncios de forte impacto na televisão e no rádio, e mobilizaremos centenas de milhares de novos membros do MoveOn.

Mas nós precisamos arrecadar outros 250 mil dólares nessa semana para dar a largada. Você pode enviar 15 dólares por mês para tornar isso possível. Nosso sistema torna isso fácil e você pode cancelar a qualquer momento:

Nós nunca fizemos nada como isso antes. Será um programa de 3 milhões de dólares durante um ano inteiro. Para alcançarmos uma grande vitória, nós precisamos:

Construir diversas coalizões de proprietários de pequenos negócios, trabalhadores, comunidades religiosas, e muitas mais para mostrar amplo apoio para uma economia de energia limpa.

Organizar-se localmente para ter certeza de que os Congressistas ouvirão nossa mensagem em qualquer lugar que forem.

Combinar esforços de ações populares criativas e anúncios pagos para conquistar a atenção da imprensa local e nacional.

Manter uma onda massiva de eventos locais onde membros do MoveOn buscarão seus vizinhos para envolvê-los na campanha.

Emparceirar-se com grupos inovadores como “Green for All” e “Apollo Alliance” que tem liderado o caminho nessa matéria. Eles tem trabalhado durante anos para levar os norte-americanos a conhecerem que uma boa política econômica está baseada em uma economia impulsionada por energia limpa.

É um comprometimento sem precedentes. Mas é isso o que requer a mudança do status quo e a promoção de mudanças efetivas.

E nós não temos tempo a perder. Como o presidente Obama disse, “agora é a hora de agir efetiva e inteligentemente – não só para recuperar essa economia, mas também para construir novos fundamentos para uma prosperidade duradoura”.

Isso não acontecerá a menos que todos nós assumirmos juntos. Você pode ajudar com uma doação de 15 dólares por mês? Clique aqui:

Obrigado por tudo o que você faz.

–Adam, Daniel, Eli, Joan e o resto da equipe.

Quer apoiar o nosso trabalho? Nós somos totalmente apoiados por nossos 5 milhões de membros – sem contribuições de empresas, sem grandes cheques de altos executivos. E nossa reduzida equipe assegura que pequenas contribuições percorram um longo caminho.