29 de janeiro de 2009

Em Meio à Competição e à Disputa, A Necessidade da Cooperação


Estamos em plena realização simultânea dos Fóruns Social e Econômico Mundial, o social em Belém do Pará, Brasil, e o econômico em Davos, Suíça. As informações do Fórum Social Mundial dão conta de que há esperança entre os participantes com o governo de Barack Obama, como afirmou um dos fundadores do Fórum e diretor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, e de que pela primeira vez a bandeira dos Estados Unidos não é queimada pelos participantes. Já no Fórum Econômico Mundial, houve elogios generalizados à qualidade da equipe econômica de Obama e às suas medidas para a reativação da economia norte-americana. Sabe-se que a fórmula mais comentada nesse Fórum está sendo a necessidade de cooperação internacional, defendida entre outros pelo Ministro da Economia da África do Sul, Trevor Manuel. Para ele, houve uma “nítida falha do sistema multilateral” no enfrentamento da atual crise global. A defesa de maior coordenação, cooperação e amizade entre as nações e povos do mundo, casualmente, é a principal bandeira da nova política externa do governo norte-americano.

Rejeição Republicana Privilegia Disputa Partidária e de Poder

Mesmo representando uma quase unanimidade mundial, e desfrutando de mais de 80% de confiança das pessoas nos Estados Unidos, Obama acaba de ter um primeiro revés no front político interno. Colocando a disputa partidária acima das medidas necessárias para enfrentar a crise e o desemprego de milhões de trabalhadores norte-americanos, o Partido Republicano na Câmara dos Deputados rejeitou pela totalidade de seus votos o mega-projeto de 819 bilhões de dólares de estímulo à economia norte-americana proposto por Obama. Quando o mundo clama por uma nova atitude política de cooperação, diante da evidência de que a competição econômica do mercado já não consegue mais dar conta da complexidade imposta pelos desafios da sobrevivência global, quando os governos são chamados a minimizar o impacto da crise sobre os trabalhadores e suas famílias, é lamentável observarmos que certos partidos e líderes políticos insistem em pautar-se pelo conflito partidário e a disputa de poder, colocando-se de costas para os sacrifícios e sofrimento das pessoas.

27 de janeiro de 2009

Governo Brasileiro Insiste em Subestimar a Crise Global


As notícias de ontem sobre o impacto da crise global e suas repercussões no Brasil são aterradoras. Nessa segunda-feira, num único dia, 75 mil pessoas perderam o emprego somente levando em conta as grandes empresas multinacionais em todo o mundo. Os jornais dos Estados Unidos classificam esse como “um dia de perdas assombrosas”. Essa segunda-feira foi também palco de graves notícias sobre o impacto da crise no Brasil. A indústria paulista demitiu 130 mil pessoas somente no mês de dezembro. E todas as evidências vão no sentido de que a profundidade e tamanho da crise ainda não foi totalmente revelado. Alguns economistas norte-americanos trabalham com a expectativa de que mais 3 milhões de pessoas perderão o emprego nesse ano somente nos Estados Unidos. Na última sexta-feira, circulou uma análise na imprensa norte-americana de que os bancos do país precisarão de um trilhão de dólares para poder enfrentar a crise e evitar uma quebradeira, muito mais do que o previsto pelo plano de socorro aprovado em outubro do ano passado.

Estatização do Crédito no Brasil

Aqui no Brasil, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de política econômica e professor da Unicamp, acaba de defender a “temporária estatização da concessão de crédito”. Segundo ele, “o governo precisa adotar uma política mais positiva em relação ao crédito, ou seja, emprestar diretamente às empresas, pois as instituições financeiras comerciais ficaram conservadoras demais num período de retração econômica e o risco é levar o país à recessão.” É importante lembrar que essa medida já foi tomada há dois meses atrás pelos governos dos países da Europa e pelos Estados Unidos, conforme registrou à época esse blog. Ao mesmo tempo, sabe-se que o Brasil ainda pratica uma das taxas de juros mais altas do mundo, de 12,75% nominais e cerca de 7% reais, quando os países centrais operam hoje com taxas de juros reais negativas, para estimular o crédito ao consumo e ao investimento. A observação desses fatos deixa claro que a política econômica do governo brasileiro continua de costas para a gravidade da crise global e subestima o seu impacto no país. Temos alertado diversas vezes nesse blog que, a continuar assim, o governo do país causará prejuízos ainda maiores à economia brasileira e um sofrimento ainda maior aos trabalhadores e suas famílias, pela perda irreparável de empregos, muito além do que seria inevitável. Está na hora de cair a ficha!

22 de janeiro de 2009

Era Obama Começa Com Mudanças


Depois de um dia de posse apoteótico em Washington D.C., é interessante o relato que os principais jornais dos Estados Unidos fazem sobre o primeiro dia do governo Obama.

Confirmando todas as previsões, as primeiras medidas do novo governo demonstram que “a mudança chegou”. Veja abaixo a síntese do que ocorreu no primeiro dia da “Era Obama”.


O New York Times abre com os planos de Obama de assinar uma ordem hoje determinando o fechamento da rede de prisões secretas da CIA no exterior e o fechamento da prisão de Guantánamo dentro de um ano. O Washington Post abre com as esperadas novas regras éticas rigorosas sobre a atividade lobista e revelação de documentos ordenadas por Obama. O Los Angeles Times destaca Obama determinando aos líderes militares um plano para a retirada do Iraque. O Wall Street Journal enfatiza o congelamento de salários dos assessores seniors. O USA Today mostra que a “mudança começou” logo depois que Obama entrou no Salão Oval.

Primeira Carta de Obama como Presidente



Cezar,


Obrigado por fazer parte da posse mais aberta e participativa da história de nosso país.


Na medida em que começamos o trabalho de reconstruir os Estados Unidos, nós precisamos nos concentrar nas esperanças comuns que nos uniram nessa semana.


Estou contando com você para manter vivo o espírito de unidade e serviço voluntário.


Você pode acessar http:www.pic2009.org/whitehouse para saber sobre nossos planos para mudar os Estados Unidos, e como você pode envolver-se no trabalho diante de nós.


Nós enfrentamos muitos desafios. Mas os enfrentaremos como uma nação unida.


Como nós temos visto, muitas e muitas vezes, não há limites para o que nós podemos conquistar quando nos unimos e trabalhamos juntos.


Nossa jornada recém começou.


Obrigado por tudo o que você está fazendo,


Presidente Barack Obama

19 de janeiro de 2009

Em Nome Do Diálogo


Divulgo para os meus amigos e amigas a carta que acabo de enviar ao Prefeito Jairo Jorge da cidade de Canoas, liberando-o do honroso convite que me fez para colaborar em seu governo. Tanto o Prefeito, como eu , tentamos construir uma ponte de diálogo e entendimento, num projeto de trabalho conjunto, para promover inovações democráticas na cidade. Infelizmente, a política do ódio e do ressentimento que ainda é praticada dentro do seu partido desqualificou seu gesto de grandeza e coragem, e inviabilizou meu desejo de colaboração. Na entrevista coletiva que demos hoje, entretanto, reafirmamos nosso compromissó de continuar a luta para que a política do diálogo, do entendimento e da radicalidade democrática possa um dia predominar na política em nosso Estado, tão prejudicado nos últimos 15 anos pela prevalência da política do conflito e do ressentimento.


Canoas, 19 de Janeiro de 2009


Caro Prefeito e amigo JAIRO JORGE,


Foi com muita honra que recebi seu convite para integrar o governo municipal da cidade de Canoas, como seu Secretário Especial de Estratégia e Inovação.


Confesso que pensei muito, e o que me levou a aceitar seu convite foi o impositivo de corresponder à grandeza e coragem de seu gesto de pacificação, pouco comum na política gaúcha. Seu gesto está à altura da política feita com espírito público e voltada para o cidadão, que coloca em segundo plano as disputas partidárias e de poder, típicas de épocas eleitorais, mas incompatíveis com os desafios pressupostos pelo bem comum. Foi essa convicção que levou meu partido, o PPS, a estar junto com o PT nessa caminhada desde o primeiro turno em Canoas, e que nos manterá lado a lado na construção desse governo, que tenho certeza será um marco para a história da cidade, e um exemplo para o Rio Grande.


O propósito comum do nosso entendimento foi um só: melhorar a qualidade de vida e de convivência das 350 mil pessoas que vivem em Canoas, reunir as nossas melhores experiências e conhecimentos para fazer uma gestão local inovadora e radicalmente democrática, colocando o cidadão como protagonista do desenvolvimento da sua própria cidade. Nunca esteve presente em nossas conversas o interesse por cargos, posições, barganhas, típicos da velha política que rejeitamos.


É fácil praticar a democracia entre os que pensam igual a nós, difícil é praticá-la com os que pensam diferente. Mas a democracia existe exatamente para que as diferenças possam ser explicitadas e se realize a obra de arte política do diálogo, do entendimento e do compromisso entre os diferentes. É assim que se consolidaram as grandes democracias em todo o mundo. Ao apostar no diálogo, não desconhecemos nossas diferenças, mas sim demonstramos maturidade, humildade e a grandeza para construir a partir delas, de maneira dialética, uma síntese que gere inovação e avanço.


O Rio Grande viveu um período de polarização exacerbada, da qual tanto eu, como as principais lideranças do PT, fizemos parte. Responsáveis somos todos. Mas de minha parte, quero que fique claro: não vejo sentido em não dialogar sobre o futuro em razão de diferenças de quinze anos atrás. Essa lógica da polarização e do conflito sectário tem causado grandes prejuízos ao Rio Grande, e por isso procurei pautar minha vida pública nos últimos anos pela busca da convergência em torno de valores, conceitos, idéias e projetos comuns. Só os ressentidos vivem no passado, e o ressentimento, definitivamente, não constrói o futuro.


Foi com esse espírito que coordenei o Pacto pelo Rio Grande, quando todos os deputados com assento na Assembléia Legislativa construímos juntos uma agenda mínima comum para o ajuste fiscal, a modernização da gestão e o desenvolvimento sustentável do Estado. O deputado Raul Pont, do PT, teve um papel decisivo na construção dessa unidade, que foi subscrita por toda a bancada do seu partido.


Na minha breve passagem pela Casa Civil do Governo do Estado, pautei-me também pela política do diálogo e da convergência com os parlamentares de todos os partidos, o que contribuiu para aprovar todos os projetos do Executivo por unanimidade, e construir a Lei de Diretrizes Orçamentárias para o corrente ano de 2009 por acordo de todos os Poderes de Estado.


Em Porto Alegre, mesmo após um embate eleitoral duro, coordenei pessoalmente uma política que preservou a principal obra dos 16 anos de governos do PT, que é o Orçamento Participativo, compatibilizando-a com a proposta inovadora da Governança Solidária Local. Essa inovação democrática reafirmou a liderança mundial de Porto Alegre como cidade da democracia comunitária e viabilizou a realização da Conferência Mundial Sobre o Desenvolvimento de Cidades, com a presença na capital dos gaúchos de 7 mil pessoas vindas de mais de mil cidades de todo o mundo.


Diante de tudo isso, lamento profundamente que a generosidade, a grandeza e o espírito público do gesto feito pelo bravo Prefeito e amigo, ao convidar-me para integrar o governo municipal de Canoas, tenha sido inviabilizado pela reiteração da velha lógica da exacerbação do conflito e do ressentimento, que aprisiona e apequena a política democrática. A sociedade brasileira, e especialmente os eleitores do Rio Grande, tem dado reiteradas demonstrações de que não aceitam mais essa miopia política. Mas a história tem seu tempo, e os homens públicos de visão, paciência.


Para preservar a governabilidade, para evitar que atitudes de hostilidade possam introduzir um fator desestabilizador na administração que está recém iniciando, para retribuir o seu gesto de generosidade e grandeza política, libero-o, prezado Prefeito e amigo, de nomear-me para Secretário de sua administração.


Não sem antes reafirmar que a cultura política do diálogo, do entendimento e da radicalização da democracia, que nos uniu, continuará sendo a plataforma a pautar a minha luta pela necessária e urgente mudança na política em nosso Rio Grande, para o bem de todos os gaúchos.

Nesse episódio, abrimos um debate fundamental para o futuro do Rio Grande. Um debate de paradigmas sobre a política. Com certeza ele não se encerrará aqui.


Com meu forte e fraterno abraço,


CEZAR BUSATTO

15 de janeiro de 2009

Porque Vou Colaborar Com O Governo E A Cidade De Canoas


Quero informar em primeira mão aos meus amigos e amigas e a todos aqueles que acompanham esse blog que acabo de receber honroso convite para colaborar com o novo governo municipal da cidade de Canoas, liderado pelo Prefeito Jairo Jorge. Jairo é um líder político jovem e emergente, com uma mentalidade aberta e plural, comprometido com a ética, a responsabilidade social e a radicalização da democracia. Foram esses os valores que nos identificaram e que me levaram a aceitar o convite para assumir a Secretaria Especial de Estratégia e Inovação, dedicada a articular a governança do desenvolvimento local e da inovação na cidade. Pretendo dar a minha contribuição para fazer de todos os cidadãos canoenses “não apenas usuários de serviços, senão também gestores e construtores da cidade”, como disse o Prefeito na primeira reunião da equipe de governo, no último dia 12 de janeiro.

Somar Nossos Melhores Conhecimentos e Experiências


O convite e a sua aceitação estão pautados pelo propósito comum de fazer de Canoas uma cidade mais democrática e inovadora, contribuindo para o avanço da democracia e do desenvolvimento em nosso Estado e nosso país. Essa parceria, portanto, não envolve quaisquer outros compromissos políticos ou partidários, mas significa sim um gesto compartilhado de grandeza na política, unindo nossas melhores capacidades e energias, somando nossos conhecimentos e experiências, acima das disputas partidárias. Estamos determinados a construir a nossa unidade e de toda equipe de governo a partir de nossas diferenças, em favor da melhoria de vida e de convivência das 350 mil pessoas que vivem em Canoas. Somar e multiplicar, colocando nosso olhar no cidadão e na sua comunidade, são os verbos que praticamos, que aliás tem feito tanta falta à política em nosso Estado.


Estimular as Pessoas a Trabalhar Juntas Por Uma Causa


Embora volte a participar de uma instância governamental, reafirmo minha mais profunda convicção de que é o cidadão e a cidadã, as pessoas comuns em suas relações sociais e comunitárias, a sua responsabilidade social, a grande força da mudança das nossas cidades e do país, no rumo de mais democracia e menos desigualdades. Ao participar da campanha de Obama nos Estados Unidos, reforcei a convicção de que as pessoas, quando se unem e trabalham juntas por uma causa, tornam-se a mais poderosa força de mudança da sociedade. Minha atuação em Canoas será norteada por esse princípio, compartilhado pelo Prefeito Jairo Jorge. Vamos estimular um abiente de diálogo e confiança entre todos os canoenses, promover o espírito e a prática da cooperação, em redes sociais de pessoas em favor das causas comuns de desenvolvimento de suas comunidades e da cidade como um todo. Vamos procurar fazer de Canoas o melhor lugar do mundo para se viver.

13 de janeiro de 2009

Magnífica Iniciativa de Michelle e Barack



Voltando de um breve perído de férias, acabo de receber uma carta de Michelle , que revela uma magnífica iniciativa do casal Obama.


Depois de um longo período de debilitamento do capital social e da vida democrática nos Estados Unidos, que chegou ao ápice no governo Bush, tão bem documentado por Robert Putnan, essa iniciativa é extremamente simbólica do significado da vitória e do futuro governo de Barack Obama. Acredito que se está inaugurando um novo período de investimento em capital social e fortalecimento de uma democracia de base comunitária, que está na origem da força da sociedade civil ao longo da história norte-americana, tão bem documentada por Alexis D’Toqueville.


Aí vai a carta, em tradução livre:


Cezar --

Daqui a uma semana, no dia 19 de janeiro, Barack e eu nos uniremos a milhares de pessoas por todo o país para uma extraordinário dia de voluntariado.

Eu gravei um breve video para falar-te sobre este importante esforço. Por favor, tome um minuto de seu tempo pra olhá-lo e inscreva-te para promover ou participar de uma ação voluntária que ocorrerá na sua vizinhança.

Voluntários de todas as idades e origens estão comprometendo-se a renovar os Estados Unidos juntos, comunidade por comunidade.

Qualquer que seja a ação voluntária que organizares ou participares – limpar um parque, doar sangue, ajudar num abrigo de pessoas sem-teto, ou aconselhar jovens em situação de risco – tu podes ajudar a começar essa importante jornada. Mas ela não significa apenas mais um dia de voluntariado, ela é o início de um envolvimento permanente com sua comunidade.

Segunda-feira, 19 de janeiro, é também o dia de Martin Luther King Jr. O Dr. King ensinou-nos a viver uma vida de serviço voluntário, e ele liderou pelo exemplo. Certa vez ele disse:

“Se quiseres ser importante – maravilhoso. Se quiseres ser reconhecido – maravilhoso. Se quiseres ser melhor - maravilhoso. Mas, reconheça que aquele que é o melhor entre vocês deve ser seu servo. Essa é uma nova definição de grandeza.”

Barack e eu estaremos fazendo voluntariado em Washington D.C., nossa nova casa. Espero que tu junte-se a nós participando dessa convocação nacional para servir voluntariamente em tua comunidade.

É necessário que as pessoas comuns trabalhem juntas com um propósito comum para recolocar esse país nos trilhos. Esse dia nacional de voluntariado é um importante primeiro passo de um compromisso que será permanente.

Agora é a hora de lembrar a todos os norte-americanos o que as pessoas comuns podem alcançar quando elas se unem e trabalham juntas.

Obrigado,

Michelle

1 de janeiro de 2009

Começar O Ano De Um Jeito Diferente


Acabo de ler o último livro de Fritjof Capra, “A Ciência de Leonardo da Vinci”, Editora Cultrix/Amana-Key, 2007. Foi um excelente investimento em mim mesmo que fiz nesses dias de festas de fim-de-ano. Depois de uma belíssima e detalhada análise do pensamento inovador e sistêmico de da Vinci há cinco séculos atrás, que agora está sendo finalmente resgatado, Capra conclui:

“Com o desenrolar do novo século, está ficando cada vez mais evidente que os principais problemas de nossa época –sejam econômicos, ambientais, tecnológicos, sociais ou políticos – são problemas sistêmicos que não podem ser resolvidos dentro da atual conjuntura, fragmentada e reducionista, de nossas disciplinas acadêmicas e instituições sociais. Precisamos de uma mudança radical em nosso modo de pensar, em nossas percepções e valores. De fato, estamos agora no início dessa mudança fundamental de visão de mundo na ciência e na sociedade. Durante as últimas décadas, a visão cartesiana e mecanicista de mundo começou a dar espaço a uma visão holística e ecológica semelhante àquela representada na ciência e na arte de Leonardo da Vinci.”
Relaciono essa conclusão de Capra com a contribuição de Edgar Morin em “A Cabeça Bem-Feita”, quando propõe a solidariedade entre os saberes para sermos capazes de assumir nossa responsabilidade com a sobrevivência do planeta.

A Sobrevivência do Planeta Está em Questão

O que está realmente em jogo no mundo de hoje diante de nós é a sobrevivência dos seres vivos em geral e da espécie humana em particular. Temos revelado enormes dificuldades de convivermos uns com os outros, respeitando nossas identidades culturais e nossas diferenças. É aterrorizador, por exemplo, ver o que está acontecendo nesses dias em Gaza, em mais um conflito entre Israel e os Palestinos, que já matou mais de 400 vidas humanas. São centenas de conflitos em várias partes do mundo nesse exato momento.
Temos também revelado enorme incapacidade de reduzir os abismais desequilíbrios de renda e riqueza que deixam à margem dos benefícios civilizatórios bilhões de pessoas, quando uns poucos tem demais. A atual crise econômica, por exemplo, já consumiu 2 trilhões de dólares de recursos públicos para salvar o sistema financeiro mundial. Enquanto isso, dois bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza no mundo e a ONU estima que aproximadamente US$ 150 bilhões anuais seriam necessários para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Estabelecidos em 2000, prevêem para 2015 acabar com a fome e reduzir drasticamente a pobreza, as mazelas sociais e a degradação ambiental. Nem a metade dos recursos necessários foi até agora arrecadada. Conseqüentemente, prevê-se que as metas não serão atingidas.

Mudar o Jeito de Pensar e de Viver

Se continuarmos a viver do jeito que temos vivido, teremos muita destruição, dor e sofrimento pela frente. Continuaremos a pagar um preço muito alto pelas nossas decisões equivocadas. Tanto Capra como Morin nos demonstram que a mãe de todas as mudanças, que se impõe, é a mudança no jeito de pensar, a mudança de nossa visão e percepção do mundo, a mudança dos nossos valores, a mudança do nosso viver.

Eliminar O Preconceito

Aceitar a legitimidade do outro é uma condição essencial da vida democrática, harmônica e pacífica. No entanto, o preconceito com relação ao diferente de nós tem sido uma grande chaga exposta pela humanidade. Em nome dele já se matou um cristo, já se queimou muita gente na fogueira, já se invadiu países, já se criou campos de concentração, já se discriminou, já se fez genocídios, já se promoveu inúmeras guerras, já se cometeu muita injustiça. Será que em nossa vida cotidiana, mesmo condenando o preconceito, nós não continuamos sendo, em muitas situações, preconceituosos? Quem sabe não sejam mudanças de atitude de cada um de nós o caminho da mudança que o mundo de hoje requer? Precisamos evoluir, abrir a porta e deixar a luz iluminar o quarto escuro que está dentro de nós, conhecer melhor a nós mesmos, assumir as nossas dúvidas e medos, refletir, discutir e estudar sobre eles, buscar o caminho da verdade e da aceitação do outro, do conhecimento da realidade tal como ela é, evitar a manipulação, que só serve às disputa de poder, prestígio e riqureza, descomprometidas com o ser humano e a sua sobrevivência. Penso que passa por aí o caminho de mais humanidade, mais fraternidade, mais solidariedade e paz.

Da Cultura do Ter para a Cultura do Ser

A cultura do ter, da riqueza como símbolo do sucesso, do prestígio e do poder, do progresso material ilimitado como medida das nações, chegou também a um ponto insustentável. Não apenas porque começam a revelar-se os limites dos nossos recursos naturais. Senão porque a disputa competitiva por ter mais gerou um padrão de relações irracional e destrutivo entre pessoas, empresas, nações, que está também por trás da maior parte dos conflitos no mundo de hoje. Ao aprisionar também a política no estreito circuito dos fluxos de poder pré-estabelecidos, a cultura do progresso material a qualquer custo deixa cada vez mais à margem do processo decisório e dos benefícios do progresso aqueles que nada tem, ou tem cada vez menos. O resultado desse modo de pensar e de viver tem sido um mundo profundamente desigual, injusto com dois terços da humanidade e socialmente explosivo. Porque ter além do necessário para uma vida digna e confortável? Porque mais de uma casa, um carro, uma renda suficiente para uma vida digna para cada família? Porque não aplicar a riqueza excedente a esse valor em bens públicos que possam trazer benefícios para todos? Porque uns acumularem riqueza desproporcional e outros estarem morrendo de fome, frio e doenças? Eis aí uma nova ética da vida que se impõe, e que começa por uma nova atitude de cada um de nós, pela mudança do nosso jeito de pensar e de viver, como caminho para mudar o mundo para melhor.