Reproduzo abaixo o roteiro da palestra que proferi na reunião da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas da cidade de Santa Maria, RS, no último dia 27 de agosto de 2009.
Introdução: reflexão sobre o momento e o mundo em que vivemos, como entendê-lo e transformá-lo; aprendizado dos últimos anos; aprendizado de minha experiência nos EUA ); oportunidade de diálogo com os dirigentes cristãos (responsabilidade social, balanço social).
1. “O Mundo mudou, e nós temos que mudar com ele”. Barack Obama, discurso de posse. Obama lidera movimento mudancista nos EUA.
2. O que mudou? A revolução das comunicações interligou as pessoas e nos sentimos parte de uma mesma nave, somos um.
3. O que temos que mudar? O modo de pensar. Para entender melhor o mundo de hoje e poder ajudar a melhorá-lo.
4. Se fazemos parte do mesmo planeta, se somos uma só humanidade, o pensamento especializado, segmentado, setorializado não consegue mais explicar adequadamente os novos fenômenos da atualidade. É preciso pensar de modo integrado, sistêmico, conectar a parte com o todo, e o todo com suas partes constitutivas. Ex1.O resgate do pensamento de Leonardo da Vinci por Fritjof Capra. Ex2. Edgar Morin, que propõe a reforma do pensamento como a primeira e mais importante reforma a ser feita. É uma constatação generalizada que nossas escolas e nossos professores não estão preparados para educar nossas crianças e jovens para viverem nesse novo tempo. Nosso modelo de educação precisa mudar. E, como se sabe, a educação de nossas crianças começa no ambiente familiar.
5. Os acontecimentos acabam sendo simultâneos e globais, porque os fluxos de informação e de riqueza são instantâneos, e interconectam o mundo inteiro. Ex1. a atual crise financeira, que eclodiu nos EUA e imediatamente globalizou-se. Em conseqüência, as respostas, para serem efetivas, requerem uma concertação global. Ex1.a reforma do sistema financeiro internacional.Ex2.as respostas à crise e a dificuldade de coordenação entre as nações. O imperativo de reforma e fortalecimento da ONU.
6. A cidade torna-se um novo ator político global. Os desafios globais se localizam, estão presentes na nossa rua, bairro, cidade. Os desafios locais tornam-se globais, porque são comuns a todos os lugares. Os Estados nacionais perdem poder e a soberania nacional se fragiliza, diante dos fluxos financeiros e de poder mundias.
7. Cada um de nós, como pessoa, cidadão, é chamado a ser um ator político, e os novos meios de comunicação e interação social empoderam como nunca antes na história da humanidade as redes de cidadãos conscientes, ativos e interconectados. Desponta a capacidade transformadora das pessoas comuns, quando se unem e trabalham juntas por um propósito. Consolida-se uma esfera pública em rede, local e global ao mesmo tempo. Ex. Movimento http://www.moveon.org/ na campanha de Obama. Ver meus livros: A Era dos Vagalumes e Um Voluntario na Campanha de Obama.
8. Ao lado da democracia institucional, começa a despontar uma nova democracia cooperativa, baseada em valores, em causas, na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Cada dia fica mais claro que é nossa sobrevivência que está em jogo. Somos impulsionados a assumir a responsabilidade social de cada um de nós diante dos problemas a nossa volta. Não tem mais espaço para omitir-se e apenas jogar a culpa nos outros. Co-responsabilidade e cooperação são agora as palavras-chave.
9. A palavra cede lugar ao exemplo como critério de verdade. Por isso a perda de credibilidade de boa parte dos políticos. Ex. Richard Ford sobre Obama: “o que ele diz é o que ele faz”. Obama é produto desse movimento pela verdade na política. Bush foi aniquilado porque manipulou informações para justificar a invasão do Iraque, que depois se revelaram mentirosas. Ex. Obama conversa com as pessoas e responde perguntas semanalmente pela internet.
10. Apesar da gravidade e urgência de soluções que os problemas requerem, não há mais lugar para respostas radicais, excludentes, impositivas. Torna-se ineficaz o recurso à violência, à radicalização das ações políticas até o patamar do conflito. Impõe-se o diálogo, o respeito às diferenças, a busca de convergências. A diplomacia da paz, e não o recurso à guerra. Ex. o exemplo negativo do governo Bush.
11. A prática política baseada na exacerbação do conflito não tem mais eficácia e perde credibilidade, em favor da política da busca do entendimento, que congregue os esforços em favor do bem comum. Ex.o exemplo negativo da política gaúcha.
12. A prática de governo, associada à idéia do Estado provedor de bens e serviços públicos, cede lugar à prática de governança, em que o governo articula os demais agentes da sociedade, a iniciativa privada, as organizações sociais e os cidadãos, para cooperarem em benefício da melhoria das condições de vida, de convivência, e para o desenvolvimento local. Ex. o programa de Governança Solidária Local da PMPOA.
13. O Estado que está aí, hierárquico, vertical, corporativizado por interesses privilegiados do funcionalismo, dos partidos políticos e de grandes grupos econômicos privados, não corresponde mais às exigências da sociedade e dos cidadãos. Estamos em busca de um novo Estado, mais horizontal, mais próximo das pessoas , que funcione melhor em favor das comunidades, que aplique com mais resultados sociais o dinheiro público, que não seja corrupto. Ex1. a necessidade de profissionalizar o serviço público. Ex2.a necessidade de mudar o financiamento das campanhas.
14. Os mais poderosos meios de comunicação, embora concessões públicas, tornaram-se instrumentos de enriquecimento dos seus grupos controladores, com uma orientação puramente comercial, e no mais das vezes com conteúdos deseducativos. É crescente o clamor para que cumpram seu papel educativo, em benefício do desenvolvimento cultural e cívico de toda a sociedade.
15. O crescimento econômico já não dá mais conta das exigências da sociedade. Impõe-se o desenvolvimento sustentável, que harmonize o econômico, o social , o ambiental e o político-institucional.
16. O pensamento econômico tradicional, baseado no fundamentalismo de mercado, revelou-se uma falácia com a crise de Wall Street. Os mercados livres não tendem ao equilíbrio, não conseguem autoregular-se. Todos agora voltam-se para a salvação no Estado, nos recursos dos contribuintes, que vão pagar a conta da crise. Enquanto isso, os contribuintes não estão sendo chamados a decidir o que fazer com seus recursos. Até quando vamos privatizar lucros e socializar prejuízos?
17. A globalização, que trouxe mais progresso econômico, mais desenvolvimento tecnológico, mais prosperidade. trouxe junto mais desigualdade social, mais concentração da riqueza. Ex. 1% da população adulta mundial concentra 40% da renda mundial, enquanto 50% detem apenas 1%. A pobreza e as desigualdades ultrapassaram as fronteiras dos países pobres e emergentes e chegaram aos países ricos. A pobreza globalizou-se ao lado da globalização da riqueza. Ex1.Os sem-teto nos EUA. Ex2.A pobreza nos subúrbios de Paris (“Entre os Muros da Escola”).
18. A excessiva concentração da renda e da riqueza mundial tornou-se disfuncional e entrava o desenvolvimento capitalista. De um lado, o excesso de liquidez nas mãos de poucos estimula a especulação financeira e o lucro improdutivo, e, de outro lado, bilhões de seres humanos estão fora do mercado de consumo, desestimulando o investimento e a expansão da produção, que gera mais trabalho e renda. Estamos num círculo vicioso que tende a produzir bolhas especulativas cada vez mais freqüentes, destruição de riqueza e renda, e cada vez maiores níveis de desemprego, ou seja, crescente sofrimento humano.
19. Qual é, portanto, o maior desafio diante de nós? Como compatibilizar uma economia cada vez mais voltada para financeirização da riqueza e o lucro instantâneo, com uma economia que seja também voltada para a dignidade e bem-viver do ser humano. Essa não é uma questão técnica, é uma questão essencialmente política, em relação a qual todos devemos nos envolver, posicionar-se e participar.
20. A questão da democracia ascende ao primeiro plano da agenda mundial, nacional e local.
Obrigado pela atenção de todos.
Introdução: reflexão sobre o momento e o mundo em que vivemos, como entendê-lo e transformá-lo; aprendizado dos últimos anos; aprendizado de minha experiência nos EUA ); oportunidade de diálogo com os dirigentes cristãos (responsabilidade social, balanço social).
1. “O Mundo mudou, e nós temos que mudar com ele”. Barack Obama, discurso de posse. Obama lidera movimento mudancista nos EUA.
2. O que mudou? A revolução das comunicações interligou as pessoas e nos sentimos parte de uma mesma nave, somos um.
3. O que temos que mudar? O modo de pensar. Para entender melhor o mundo de hoje e poder ajudar a melhorá-lo.
4. Se fazemos parte do mesmo planeta, se somos uma só humanidade, o pensamento especializado, segmentado, setorializado não consegue mais explicar adequadamente os novos fenômenos da atualidade. É preciso pensar de modo integrado, sistêmico, conectar a parte com o todo, e o todo com suas partes constitutivas. Ex1.O resgate do pensamento de Leonardo da Vinci por Fritjof Capra. Ex2. Edgar Morin, que propõe a reforma do pensamento como a primeira e mais importante reforma a ser feita. É uma constatação generalizada que nossas escolas e nossos professores não estão preparados para educar nossas crianças e jovens para viverem nesse novo tempo. Nosso modelo de educação precisa mudar. E, como se sabe, a educação de nossas crianças começa no ambiente familiar.
5. Os acontecimentos acabam sendo simultâneos e globais, porque os fluxos de informação e de riqueza são instantâneos, e interconectam o mundo inteiro. Ex1. a atual crise financeira, que eclodiu nos EUA e imediatamente globalizou-se. Em conseqüência, as respostas, para serem efetivas, requerem uma concertação global. Ex1.a reforma do sistema financeiro internacional.Ex2.as respostas à crise e a dificuldade de coordenação entre as nações. O imperativo de reforma e fortalecimento da ONU.
6. A cidade torna-se um novo ator político global. Os desafios globais se localizam, estão presentes na nossa rua, bairro, cidade. Os desafios locais tornam-se globais, porque são comuns a todos os lugares. Os Estados nacionais perdem poder e a soberania nacional se fragiliza, diante dos fluxos financeiros e de poder mundias.
7. Cada um de nós, como pessoa, cidadão, é chamado a ser um ator político, e os novos meios de comunicação e interação social empoderam como nunca antes na história da humanidade as redes de cidadãos conscientes, ativos e interconectados. Desponta a capacidade transformadora das pessoas comuns, quando se unem e trabalham juntas por um propósito. Consolida-se uma esfera pública em rede, local e global ao mesmo tempo. Ex. Movimento http://www.moveon.org/ na campanha de Obama. Ver meus livros: A Era dos Vagalumes e Um Voluntario na Campanha de Obama.
8. Ao lado da democracia institucional, começa a despontar uma nova democracia cooperativa, baseada em valores, em causas, na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Cada dia fica mais claro que é nossa sobrevivência que está em jogo. Somos impulsionados a assumir a responsabilidade social de cada um de nós diante dos problemas a nossa volta. Não tem mais espaço para omitir-se e apenas jogar a culpa nos outros. Co-responsabilidade e cooperação são agora as palavras-chave.
9. A palavra cede lugar ao exemplo como critério de verdade. Por isso a perda de credibilidade de boa parte dos políticos. Ex. Richard Ford sobre Obama: “o que ele diz é o que ele faz”. Obama é produto desse movimento pela verdade na política. Bush foi aniquilado porque manipulou informações para justificar a invasão do Iraque, que depois se revelaram mentirosas. Ex. Obama conversa com as pessoas e responde perguntas semanalmente pela internet.
10. Apesar da gravidade e urgência de soluções que os problemas requerem, não há mais lugar para respostas radicais, excludentes, impositivas. Torna-se ineficaz o recurso à violência, à radicalização das ações políticas até o patamar do conflito. Impõe-se o diálogo, o respeito às diferenças, a busca de convergências. A diplomacia da paz, e não o recurso à guerra. Ex. o exemplo negativo do governo Bush.
11. A prática política baseada na exacerbação do conflito não tem mais eficácia e perde credibilidade, em favor da política da busca do entendimento, que congregue os esforços em favor do bem comum. Ex.o exemplo negativo da política gaúcha.
12. A prática de governo, associada à idéia do Estado provedor de bens e serviços públicos, cede lugar à prática de governança, em que o governo articula os demais agentes da sociedade, a iniciativa privada, as organizações sociais e os cidadãos, para cooperarem em benefício da melhoria das condições de vida, de convivência, e para o desenvolvimento local. Ex. o programa de Governança Solidária Local da PMPOA.
13. O Estado que está aí, hierárquico, vertical, corporativizado por interesses privilegiados do funcionalismo, dos partidos políticos e de grandes grupos econômicos privados, não corresponde mais às exigências da sociedade e dos cidadãos. Estamos em busca de um novo Estado, mais horizontal, mais próximo das pessoas , que funcione melhor em favor das comunidades, que aplique com mais resultados sociais o dinheiro público, que não seja corrupto. Ex1. a necessidade de profissionalizar o serviço público. Ex2.a necessidade de mudar o financiamento das campanhas.
14. Os mais poderosos meios de comunicação, embora concessões públicas, tornaram-se instrumentos de enriquecimento dos seus grupos controladores, com uma orientação puramente comercial, e no mais das vezes com conteúdos deseducativos. É crescente o clamor para que cumpram seu papel educativo, em benefício do desenvolvimento cultural e cívico de toda a sociedade.
15. O crescimento econômico já não dá mais conta das exigências da sociedade. Impõe-se o desenvolvimento sustentável, que harmonize o econômico, o social , o ambiental e o político-institucional.
16. O pensamento econômico tradicional, baseado no fundamentalismo de mercado, revelou-se uma falácia com a crise de Wall Street. Os mercados livres não tendem ao equilíbrio, não conseguem autoregular-se. Todos agora voltam-se para a salvação no Estado, nos recursos dos contribuintes, que vão pagar a conta da crise. Enquanto isso, os contribuintes não estão sendo chamados a decidir o que fazer com seus recursos. Até quando vamos privatizar lucros e socializar prejuízos?
17. A globalização, que trouxe mais progresso econômico, mais desenvolvimento tecnológico, mais prosperidade. trouxe junto mais desigualdade social, mais concentração da riqueza. Ex. 1% da população adulta mundial concentra 40% da renda mundial, enquanto 50% detem apenas 1%. A pobreza e as desigualdades ultrapassaram as fronteiras dos países pobres e emergentes e chegaram aos países ricos. A pobreza globalizou-se ao lado da globalização da riqueza. Ex1.Os sem-teto nos EUA. Ex2.A pobreza nos subúrbios de Paris (“Entre os Muros da Escola”).
18. A excessiva concentração da renda e da riqueza mundial tornou-se disfuncional e entrava o desenvolvimento capitalista. De um lado, o excesso de liquidez nas mãos de poucos estimula a especulação financeira e o lucro improdutivo, e, de outro lado, bilhões de seres humanos estão fora do mercado de consumo, desestimulando o investimento e a expansão da produção, que gera mais trabalho e renda. Estamos num círculo vicioso que tende a produzir bolhas especulativas cada vez mais freqüentes, destruição de riqueza e renda, e cada vez maiores níveis de desemprego, ou seja, crescente sofrimento humano.
19. Qual é, portanto, o maior desafio diante de nós? Como compatibilizar uma economia cada vez mais voltada para financeirização da riqueza e o lucro instantâneo, com uma economia que seja também voltada para a dignidade e bem-viver do ser humano. Essa não é uma questão técnica, é uma questão essencialmente política, em relação a qual todos devemos nos envolver, posicionar-se e participar.
20. A questão da democracia ascende ao primeiro plano da agenda mundial, nacional e local.
Obrigado pela atenção de todos.
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