12 de março de 2009

Sem Programa Consistente, Crise Provoca Prejuízos Incalculáveis


A redução da taxa de juros pelo Banco Central de 12,75% para 11,25%, mesmo tendo sido uma decisão positiva, escancarou para a sociedade a ausência de uma política articulada e consistente para enfrentar a crise global, de modo a minimizar seus efeitos sobre o país. Tem sido tomadas medidas pontuais, os investimentos do PAC são destacados, anuncia-se um programa de moradia popular, mas isso tudo, somado às declarações do Presidente e de seus Ministros, deixa claro que o governo federal não entendeu até agora a profundidade da crise, subestimou seu impacto no Brasil, e parece surpreso e assustado com a queda de 3,6% no PIB do último trimestre de 2008, e no encolhimento de anunciados 17% no PIB de janeiro de 2009, com relação ao mesmo mês do ano anterior. Ou seja, estamos já em março, e só agora parece que caiu a ficha no alto escalão da república, quando qualquer pessoa bem informada e com alguma capacidade de previsão sabe que isso iria acontecer entre nós. O histórico das declarações do principal mandatário da Nação, que culmina com a afirmação de ontem, diante da queda do PIB no final do ano passado, de que “o sinal está vermelho”, é desesperadamente revelador do equívoco e da arrogância com que o governo federal tem tratado a matéria, causando um prejuízo econômico incalculável, e um prejuízo social medido em centenas de milhares de pessoas que perderam seus empregos, quando um programa consistente contra a crise, desencadeado na hora certa, ou seja, lá em novembro ou no máximo início de dezembro do ano passado, poderia ter evitado.

Desarticulação entre Governos Federal e Estaduais

No momento em que a crise econômica requer uma política anti-crise potente por parte do Governo, tanto para preservar a economia, como para preservar os empregos, é gritante a incapacidade do governo federal de exercer o papel decisivo de articular as três esferas do poder executivo nacional em ações concertadas e consistentes. Governo Federal e estaduais continuam a comportar-se olhando para a campanha eleitoral do ano que vem. É interessante, inclusive, o mimetismo, o PAC de lá equivale aqui ao anúncio dos investimentos previstos no orçamento de déficit zero, as equivocadas declarações de lá equivalem aqui ao equívoco de vender a idéia de um róseo futuro próximo. Mas não é diferente o quadro nos demais estados da federação, que repetem atitudes semelhantes.

A Cegueira de Desconhecer o Poder Local

Nesse contexto do salve-se quem puder, os municípios ficam à margem de qualquer articulação federativa, na qual a articulação dos investimentos municipais, com os estaduais e federais, e a sinergia da solidariedade e do trabalho conjunto das três esferas de governo, poderia aí sim gerar uma resposta de potência minimamente suficiente e capaz de enfrentar a crise. Veja-se, por exemplo, a oportunidade de ouro que o governo federal perdeu ao reunir todos os prefeitos brasileiros no final de fevereiro em Brasília. Essa teria sido a hora de chamar também todos os governadores, líderes empresariais, de trabalhadores, do terceiro setor, da universidade, dos meios de comunicação, e desencadear um amplo e ousado plano anti-crise, capaz de mobilizar, a partir de cada município, toda a sociedade brasileira em favor de atitudes concretas para combater os efeitos da crise.


O Futuro do País na Agenda Nacional


Quem sabe essa não teria sido também a hora de iniciar um amplo debate nacional sobre os rumos do país daqui para a frente, uma vez que está já suficientemente claro também que a crise abalou os alicerces de um determinado modo de crescimento, e que está em curso uma reformulação global da estrutura e da dinâmica do sistema capitalista. As mudanças que ocorrem nos Estados Unidos no governo de Barack Obama são reveladoras desses novos caminhos. Energia limpa, desconcentração da renda, regulação dos mercados, absoluta prioridade à qualidade na educação e no atendimento à saúde, reestruturação do sistema bancário e financeiro, entre outros, são temas obrigatórios a serem encarados com mais profundidade do que nunca antes. Nessa hora, portanto, o Brasil deveria mobilizar toda a sua inteligência estratégica e articular toda a sua força econômica e política interna e internacional para ocupar uma posição de liderança no novo cenário global que se está conformando. E para exercer essa liderança, deverá começar dando o exemplo dentro de casa.

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