19 de janeiro de 2009

Em Nome Do Diálogo


Divulgo para os meus amigos e amigas a carta que acabo de enviar ao Prefeito Jairo Jorge da cidade de Canoas, liberando-o do honroso convite que me fez para colaborar em seu governo. Tanto o Prefeito, como eu , tentamos construir uma ponte de diálogo e entendimento, num projeto de trabalho conjunto, para promover inovações democráticas na cidade. Infelizmente, a política do ódio e do ressentimento que ainda é praticada dentro do seu partido desqualificou seu gesto de grandeza e coragem, e inviabilizou meu desejo de colaboração. Na entrevista coletiva que demos hoje, entretanto, reafirmamos nosso compromissó de continuar a luta para que a política do diálogo, do entendimento e da radicalidade democrática possa um dia predominar na política em nosso Estado, tão prejudicado nos últimos 15 anos pela prevalência da política do conflito e do ressentimento.


Canoas, 19 de Janeiro de 2009


Caro Prefeito e amigo JAIRO JORGE,


Foi com muita honra que recebi seu convite para integrar o governo municipal da cidade de Canoas, como seu Secretário Especial de Estratégia e Inovação.


Confesso que pensei muito, e o que me levou a aceitar seu convite foi o impositivo de corresponder à grandeza e coragem de seu gesto de pacificação, pouco comum na política gaúcha. Seu gesto está à altura da política feita com espírito público e voltada para o cidadão, que coloca em segundo plano as disputas partidárias e de poder, típicas de épocas eleitorais, mas incompatíveis com os desafios pressupostos pelo bem comum. Foi essa convicção que levou meu partido, o PPS, a estar junto com o PT nessa caminhada desde o primeiro turno em Canoas, e que nos manterá lado a lado na construção desse governo, que tenho certeza será um marco para a história da cidade, e um exemplo para o Rio Grande.


O propósito comum do nosso entendimento foi um só: melhorar a qualidade de vida e de convivência das 350 mil pessoas que vivem em Canoas, reunir as nossas melhores experiências e conhecimentos para fazer uma gestão local inovadora e radicalmente democrática, colocando o cidadão como protagonista do desenvolvimento da sua própria cidade. Nunca esteve presente em nossas conversas o interesse por cargos, posições, barganhas, típicos da velha política que rejeitamos.


É fácil praticar a democracia entre os que pensam igual a nós, difícil é praticá-la com os que pensam diferente. Mas a democracia existe exatamente para que as diferenças possam ser explicitadas e se realize a obra de arte política do diálogo, do entendimento e do compromisso entre os diferentes. É assim que se consolidaram as grandes democracias em todo o mundo. Ao apostar no diálogo, não desconhecemos nossas diferenças, mas sim demonstramos maturidade, humildade e a grandeza para construir a partir delas, de maneira dialética, uma síntese que gere inovação e avanço.


O Rio Grande viveu um período de polarização exacerbada, da qual tanto eu, como as principais lideranças do PT, fizemos parte. Responsáveis somos todos. Mas de minha parte, quero que fique claro: não vejo sentido em não dialogar sobre o futuro em razão de diferenças de quinze anos atrás. Essa lógica da polarização e do conflito sectário tem causado grandes prejuízos ao Rio Grande, e por isso procurei pautar minha vida pública nos últimos anos pela busca da convergência em torno de valores, conceitos, idéias e projetos comuns. Só os ressentidos vivem no passado, e o ressentimento, definitivamente, não constrói o futuro.


Foi com esse espírito que coordenei o Pacto pelo Rio Grande, quando todos os deputados com assento na Assembléia Legislativa construímos juntos uma agenda mínima comum para o ajuste fiscal, a modernização da gestão e o desenvolvimento sustentável do Estado. O deputado Raul Pont, do PT, teve um papel decisivo na construção dessa unidade, que foi subscrita por toda a bancada do seu partido.


Na minha breve passagem pela Casa Civil do Governo do Estado, pautei-me também pela política do diálogo e da convergência com os parlamentares de todos os partidos, o que contribuiu para aprovar todos os projetos do Executivo por unanimidade, e construir a Lei de Diretrizes Orçamentárias para o corrente ano de 2009 por acordo de todos os Poderes de Estado.


Em Porto Alegre, mesmo após um embate eleitoral duro, coordenei pessoalmente uma política que preservou a principal obra dos 16 anos de governos do PT, que é o Orçamento Participativo, compatibilizando-a com a proposta inovadora da Governança Solidária Local. Essa inovação democrática reafirmou a liderança mundial de Porto Alegre como cidade da democracia comunitária e viabilizou a realização da Conferência Mundial Sobre o Desenvolvimento de Cidades, com a presença na capital dos gaúchos de 7 mil pessoas vindas de mais de mil cidades de todo o mundo.


Diante de tudo isso, lamento profundamente que a generosidade, a grandeza e o espírito público do gesto feito pelo bravo Prefeito e amigo, ao convidar-me para integrar o governo municipal de Canoas, tenha sido inviabilizado pela reiteração da velha lógica da exacerbação do conflito e do ressentimento, que aprisiona e apequena a política democrática. A sociedade brasileira, e especialmente os eleitores do Rio Grande, tem dado reiteradas demonstrações de que não aceitam mais essa miopia política. Mas a história tem seu tempo, e os homens públicos de visão, paciência.


Para preservar a governabilidade, para evitar que atitudes de hostilidade possam introduzir um fator desestabilizador na administração que está recém iniciando, para retribuir o seu gesto de generosidade e grandeza política, libero-o, prezado Prefeito e amigo, de nomear-me para Secretário de sua administração.


Não sem antes reafirmar que a cultura política do diálogo, do entendimento e da radicalização da democracia, que nos uniu, continuará sendo a plataforma a pautar a minha luta pela necessária e urgente mudança na política em nosso Rio Grande, para o bem de todos os gaúchos.

Nesse episódio, abrimos um debate fundamental para o futuro do Rio Grande. Um debate de paradigmas sobre a política. Com certeza ele não se encerrará aqui.


Com meu forte e fraterno abraço,


CEZAR BUSATTO

9 comentários:

jP Vergueiro disse...

Fico triste por saber que não assumirá na Prefeitura de Canoas, notícia que tinha nos deixado muito alegres aqui em São Paulo. De qualquer forma, isso não impedirá que continues contribuindo pro Rio Grande e para o desenvolvimento da democracia e gestão pública no país. Abraços, João Paulo

Airton disse...

Caro Busatto, qual a maneira corretíssima de escrever o seu nome? Sou jornalista e tenho essa dúvida até hoje.

meu e-mail airtonlemos@uol.com.br

Airton disse...

qual é grafia correta do seu nome?

Sou jornalista e tenho essa dúvida!

Silvio Belbute disse...

Querido Busatto,

Os fatos apenas demonstram como as pessoas ainda não estão suficientemente maduras para aceitarem a democracia verdadeira. Aceitam apenas "aquilo" que chamam de democracia, travestida com fortes linhas ideológicas de um passado que jamais voltará.
Mas em tudo isto tenha certeza que tanto você quanto o jovem prefeito Jairo Jorge sairam-se engrandecidos e reconhecidos pela popupação por seus gestos.
Os outros é que sairam menores (é uma redundância). E o futuro deles já é certo e sabido, como já demonstrado flagrantemente nas últimas 4 eleiões seguidas.
Siga em frente.
Fraternal abraço.
Silvio Belbute

Rejane disse...

Prezado Busatto,

Acompanhei com pesar este processo através da mídia. Assisti emocionada a sua entrevista, quando lia esta carta.
Tenha a certeza de que o mundo dá muitas voltas e estes que atiram pedra, com certeza serão atingidos em algum momento, pelo próprio "fogo amigo", pois seus telhados são de vidro, como o de todos os seres humanos, falíveis e mortais.
Nunca deixe de lutar, pois você é um guerreiro nato.
Rejane

Cezar Busatto disse...

Querido amigo e companheiro Busatto
Após ler atentamente tua epístola dirigida ao Prefeito de Canoas, quero te dizer que não me surpreendi com absolutamente nada que ali está escrito. Te conhecendo há bastante tempo, reconheci em tuas palavras o mesmo Cézar Busatto dos tempos de nossa militância política na 1ª zonal do MDB de Porto Alegre. Achei brilhante quando afirmas "só os ressentidos vivem no passado, e o ressentimento, definitivamente, não constrói o futuro". O Rio Grande não aceita mais essa ideologia do ranço, arcaica, retrógrada, perseguidora de quem não reza pela sua cartilha, não compactua com seu pensamento que na maioria das vezes é diferente da sua prática. Amigo Busatto, foste agredido pela mesma picareta stalinista que assassinou Leon Trotski. Seque teu caminho, pois o tempo mostrará quem estava certo.
Um grande abraço,
Ricardo Verdi

Rosangela disse...

Sou aquela pessoa que te abraçou e te disse "tenha fé" (no gabinete do inovador Prefeito Jairo Jorge). E que você respondeu: "Não sei o teu nome, mas sei que tu estás comigo". Acho que foi mais ou menos isto que disseste. Meu nome é Rosangela Araujo Pereira e sou Diretora do jornal O Aprendiz.
Tenho uma sensibilidade muito apurada e naquele dia foi a primeira vez que te vi e escutei. Pesquisei sobre você mais tarde. Não me enganei. Você é uma pessoa especial. Por isto tão perseguido.
Se até Jesus teve inimigos. O que dizer de nós. Não sejamos nós os perseguidores.
Mais uma vez: "tenha fé".

Cezar Busatto disse...

Caros amigos, perdoem-me não ter conseguido responder a cada um, mas quero que saibam que com seus comentários sinto-me muito estimulado a continuar a boa luta por uma nova cultura política,mais democrática e plural, capaz de construir convergências e unidade de propósitos a partir de nossas diferenças, em benefício das pessoas e suas comunidades.

Cezar Busatto disse...

Caros amigos, perdoem-me não ter conseguido responder a cada um, mas quero que saibam que com seus comentários sinto-me muito estimulado a continuar a boa luta por uma nova cultura política,mais democrática e plural, capaz de construir convergências e unidade de propósitos a partir de nossas diferenças, em benefício das pessoas e suas comunidades.