1 de janeiro de 2009

Começar O Ano De Um Jeito Diferente


Acabo de ler o último livro de Fritjof Capra, “A Ciência de Leonardo da Vinci”, Editora Cultrix/Amana-Key, 2007. Foi um excelente investimento em mim mesmo que fiz nesses dias de festas de fim-de-ano. Depois de uma belíssima e detalhada análise do pensamento inovador e sistêmico de da Vinci há cinco séculos atrás, que agora está sendo finalmente resgatado, Capra conclui:

“Com o desenrolar do novo século, está ficando cada vez mais evidente que os principais problemas de nossa época –sejam econômicos, ambientais, tecnológicos, sociais ou políticos – são problemas sistêmicos que não podem ser resolvidos dentro da atual conjuntura, fragmentada e reducionista, de nossas disciplinas acadêmicas e instituições sociais. Precisamos de uma mudança radical em nosso modo de pensar, em nossas percepções e valores. De fato, estamos agora no início dessa mudança fundamental de visão de mundo na ciência e na sociedade. Durante as últimas décadas, a visão cartesiana e mecanicista de mundo começou a dar espaço a uma visão holística e ecológica semelhante àquela representada na ciência e na arte de Leonardo da Vinci.”
Relaciono essa conclusão de Capra com a contribuição de Edgar Morin em “A Cabeça Bem-Feita”, quando propõe a solidariedade entre os saberes para sermos capazes de assumir nossa responsabilidade com a sobrevivência do planeta.

A Sobrevivência do Planeta Está em Questão

O que está realmente em jogo no mundo de hoje diante de nós é a sobrevivência dos seres vivos em geral e da espécie humana em particular. Temos revelado enormes dificuldades de convivermos uns com os outros, respeitando nossas identidades culturais e nossas diferenças. É aterrorizador, por exemplo, ver o que está acontecendo nesses dias em Gaza, em mais um conflito entre Israel e os Palestinos, que já matou mais de 400 vidas humanas. São centenas de conflitos em várias partes do mundo nesse exato momento.
Temos também revelado enorme incapacidade de reduzir os abismais desequilíbrios de renda e riqueza que deixam à margem dos benefícios civilizatórios bilhões de pessoas, quando uns poucos tem demais. A atual crise econômica, por exemplo, já consumiu 2 trilhões de dólares de recursos públicos para salvar o sistema financeiro mundial. Enquanto isso, dois bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza no mundo e a ONU estima que aproximadamente US$ 150 bilhões anuais seriam necessários para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Estabelecidos em 2000, prevêem para 2015 acabar com a fome e reduzir drasticamente a pobreza, as mazelas sociais e a degradação ambiental. Nem a metade dos recursos necessários foi até agora arrecadada. Conseqüentemente, prevê-se que as metas não serão atingidas.

Mudar o Jeito de Pensar e de Viver

Se continuarmos a viver do jeito que temos vivido, teremos muita destruição, dor e sofrimento pela frente. Continuaremos a pagar um preço muito alto pelas nossas decisões equivocadas. Tanto Capra como Morin nos demonstram que a mãe de todas as mudanças, que se impõe, é a mudança no jeito de pensar, a mudança de nossa visão e percepção do mundo, a mudança dos nossos valores, a mudança do nosso viver.

Eliminar O Preconceito

Aceitar a legitimidade do outro é uma condição essencial da vida democrática, harmônica e pacífica. No entanto, o preconceito com relação ao diferente de nós tem sido uma grande chaga exposta pela humanidade. Em nome dele já se matou um cristo, já se queimou muita gente na fogueira, já se invadiu países, já se criou campos de concentração, já se discriminou, já se fez genocídios, já se promoveu inúmeras guerras, já se cometeu muita injustiça. Será que em nossa vida cotidiana, mesmo condenando o preconceito, nós não continuamos sendo, em muitas situações, preconceituosos? Quem sabe não sejam mudanças de atitude de cada um de nós o caminho da mudança que o mundo de hoje requer? Precisamos evoluir, abrir a porta e deixar a luz iluminar o quarto escuro que está dentro de nós, conhecer melhor a nós mesmos, assumir as nossas dúvidas e medos, refletir, discutir e estudar sobre eles, buscar o caminho da verdade e da aceitação do outro, do conhecimento da realidade tal como ela é, evitar a manipulação, que só serve às disputa de poder, prestígio e riqureza, descomprometidas com o ser humano e a sua sobrevivência. Penso que passa por aí o caminho de mais humanidade, mais fraternidade, mais solidariedade e paz.

Da Cultura do Ter para a Cultura do Ser

A cultura do ter, da riqueza como símbolo do sucesso, do prestígio e do poder, do progresso material ilimitado como medida das nações, chegou também a um ponto insustentável. Não apenas porque começam a revelar-se os limites dos nossos recursos naturais. Senão porque a disputa competitiva por ter mais gerou um padrão de relações irracional e destrutivo entre pessoas, empresas, nações, que está também por trás da maior parte dos conflitos no mundo de hoje. Ao aprisionar também a política no estreito circuito dos fluxos de poder pré-estabelecidos, a cultura do progresso material a qualquer custo deixa cada vez mais à margem do processo decisório e dos benefícios do progresso aqueles que nada tem, ou tem cada vez menos. O resultado desse modo de pensar e de viver tem sido um mundo profundamente desigual, injusto com dois terços da humanidade e socialmente explosivo. Porque ter além do necessário para uma vida digna e confortável? Porque mais de uma casa, um carro, uma renda suficiente para uma vida digna para cada família? Porque não aplicar a riqueza excedente a esse valor em bens públicos que possam trazer benefícios para todos? Porque uns acumularem riqueza desproporcional e outros estarem morrendo de fome, frio e doenças? Eis aí uma nova ética da vida que se impõe, e que começa por uma nova atitude de cada um de nós, pela mudança do nosso jeito de pensar e de viver, como caminho para mudar o mundo para melhor.

3 comentários:

Tarcízio disse...

Busatto,

a tua preocupação é para que cumpramos nossa mais básica e árdua missão: salvar a Terra.
Para se conseguir evoluir na missão e na condição de ser humano é preciso pensar e agir estratégimante; não numa estratégia de guerra, sim numa solução baseada na solidadriedade entre as espécies. Tarcízio Cardoso.

Cezar Busatto disse...

Tarcizo,

praticar o amor, a solidariedade, o diálogo, o respeito ao outro, ao diferente de nós, estimular ambientes de confiança entre as pessoas, buscar a verdade, fazer desses valores a prática da nossa vida, é realmente o caminho para a sobrevivência, para um mundo mais humano e harmônico com a natureza. Acredito que a mudança começa a acontecer pelo nosso exemplo de vida e no compartilhamento com a nossa rede de amigos.

marilu disse...

Busatto,
Quando dizes estás falando de uma prática, de uma experimentação que nos estão provocadas por velhos/jovens filósfos da dúvida. Esse estímulo a uma idéia vivida de solidariedade cada vez mais nos exige "viajar, entrando nas experiências, de cada dia, com pouca ou nenhuma bagagem", o que significa estar aberto ao outro, ao bom combate como diria Nietzsche e Espinosa ou ainda Deleuze: preparados para dar passagem ao bom combate, a se deixar ser afetado e afetar sendo o que se é!
Só que isso, Busatto é como uma onda. Se implanta aqui, ali, e se aguardam as reverberações, que certamente ocorrem, como de teu trabalho.
abraços
Marilú

P.S. Amei teu blog.