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30 de novembro de 2008

Gerdau Defende A Regulação Dos Mercados Finaceiros

Leio com satisfação artigo sobre Crise e Regulação,do empresário Jorge Gerdau Johannpeter , no jornal Zero Hora. Como um dos maiores e mais lúcidos empresários do Brasil, uma voz representativa da sociedade civil, é também reconhecido internacionalmente pela qualidade da gestão de suas empresas, e de seus niveis de rentabilidade no setor siderúrgico internacional. Lembro-me, por exemplo, que conversando com um amigo e professor da Universidade de Stanford sobre suas aplicações financeiras, revelou-me que era investidor do grupo Gerdau no Brasil. Gerdau posiciona-se com firmeza pela necessidade de regular os mercados financeiros, depois da crise que derretou Wall Street. "As empresas tem uma série de normas rígidas a serem cumpridas e o mesmo deveria servir para o mercado financeiro, o que ainda não acontece." Gerdau se insere na tendência predominante nos países centrais, de mudança do pensamento econômico convencional, que predominou nas últimas três décadas.

É Necessário Democratizar A Agenda Econômica

Baseada na falsa premissa de que os mercados financeiros se auto-regulam e tendem ao equilíbrio, se deixados livres, propiciando assim uma alocação ótima dos recursos, a política econômica de desregulamentação praticada pelos Estados Unidos contribuiu decisivamente para a criação da enorme bolha especulativa que explodiu em setembro. Suas consequências estão levando a economia norte-americana e mundial a mais grave recessão do último século.É essencial que a sociedade civil e os políticos debatam esse tema no Brasil, porque a informaçao transparente e o pensamento crítico de todos os segmentos da sociedade poderá resultar numa necessária democratização da agenda econômica. No momento em que somas enormes de recursos públicos dos contribuintes são mobilizadas para salvar as instituiçoes financeiras privadas e estimular o crédito e o consumo, reativar a economia e enfrentar os alarmantes índices de desemprego, a questão democrática do envolvimento responsável da sociedade nessas decisões é legítimo e saudável.

28 de novembro de 2008

Governo Intervem no Crédito Ao Consumidor Para Evitar Depressão

O Banco Central dos Estados Unidos está colocando volumes ainda maiores de dinheiro público no mercado para conter a tendência à depressão (recessão com deflação de preços) que ameaça atingir a economia norte-americana. Logo depois da operação de salvamento do Citygroup, o segundo maior banco dos Estados Unidos, em que assumiu parte do controle acionário do banco, em troca de compra de ações e garantia de créditos podres, o Banco Central acaba de lançar novo programa de 800 bilhões de dólares, “praticamente estatizando o crédito no país”, segundo o Wall Street Journal. O Banco Central comprará 600 bilhões de dólares de dívidas podres para tornar mais baratos os financiamentos imobiliários. Além disso, criará um programa de 200 bilhões de dólares para estimular o financiamento de carros, empréstimos para estudantes, débitos de cartões de crédito, e empréstimos para pequenos negócios.

Um Novo Banco Governamental

O programa, que pretende tornar os financiamentos para os consumidores mais baratos e rapidamente disponíveis, “se aproxima de ser um banco governamental”, segundo o New York Times. O programa deverá injetar dinheiro no sistema financeiro e, assim, ajudar a reativar a economia no momento em que as autoridades estão crescentemente preocupadas com uma possível deflação. O novo programa vai comprometer o Banco Central a gastar quase 100 vezes mais para comprar dívidas imobiliárias podres do que o previsto no início de setembro quando estourou a crise financeira em Wall Street.

27 de novembro de 2008

A Mudança Está Chegando

Transcrevo, em tradução livre, carta de David Plouffe, coordenador da campanha de Obama, que é significativa porque confirma a estratégia de manter a mobilização dos seus apoiadores, e ampliá-la procurando envolver inclusive os que não participaram na campanha, ou mesmo os que votaram em McCain, agora para sustentar as mudanças que serão feitas pelo novo governo. Ou seja, o movimento mudancista vai além da vitória eleitoral, transformando-se numa força política pela mudança nas comunidades locais e no país como um todo.

Cezar,

Essa semana, o Presidente Eleito Barack Obama está anunciando os membros chave de sua equipe econômica na Casa Branca, que o ajudará a enfrentara sérios desafios e trazer a mudança que nós precisamos para Washington.


Mas há muito trabalho para ser feito nas comunidades por todo o país – inclusive a sua. Nos dias 13 e 14 de Dezembro, apoiadores estão reunindo-se para refletir sobre o que nós conquistamos e ajudar a planejar o futuro desse movimento.

Muitos de vocês já encaminharam a sua avaliação através da pesquisa on line. Nossa equipe em Chicago está analisa um impressionante número de respostas detalhadas, e suas contribuições ajudarão a conduzir o futuro desse movimento de base.

Inscreva-se para abrigar em sua casa um encontro “Mudança Está Chegando” e convide seus amigos, familiares, e vizinhos para participarem. Você receberá tudo o que precisa para fazer de seu encontro um sucesso, incluindo um DVD especial que nossa equipe preparou especificamente para esses encontros.

Discutam os temas que são os mais impportantes para vocês, o que vocês podem fazer para apoiar a agenda de Obama, e como vocês podem continuar promovendo um impacto em sua comunidade.

Agora é a hora de colocar de lado o partidarismo e a política, encontrar um terreno de preocupações comuns, e trabalhar juntos. Por favor, convide aqueles que podem não ter se envolvido na campanha, e mesmo aqueles que podem ter apoiado nosso adversário.

Os desafios que nós temos que enfrentar exigem que nós sejamos o mais inclusivos possível. Eles precisarão de todo o país trabalhando junto para colocar nosso país novamente nos trilhos.

Promova um encontro para celebrar nossa histórica conquista e dê os próximos passos para trazer as mudanças que nosso país necessita:

http://my.barackobama.com/changeiscoming

Seu envolvimento permanente é crucial para o future desse movimento.

Como BaracK Obama disse na noite da eleição, “Esta vitória não é a mudança que nós buscamos – ela é somente a oportunidade para nós fazermos aquela mudança.”

A organização de base que você construiu para ganhar a eleição continuará para colocar nosso país em novo caminho.

Obrigado por tudo o que você está fazendo,

David

26 de novembro de 2008

Inglaterra Aplica Política Tributária De Obama

A avaliação que estamos fazendo nesse blog, de que a eleição de Obama promoverá importantes mudanças não só nos Estados Unidos, como também em todo o mundo, já começa a confirmar-se. A Inglaterra de Gordon Brown, por exemplo, acaba de lançar um conjunto de medidas para enfrentar a recessão no país, que deverá provocar o desemprego de 2,5 milhões de pessoas até 2010, prevendo a redução de impostos para grande parte da população e o seu aumento para a camada dos mais ricos. O imposto ao consumidor baixará de 17,5% para 15%, e deverá beneficiar 22 milhões de pessoas, incentivando o consumo no Natal e reativando a economia, cujo crescimento será de não mais do que 0,75% nesse ano. Para financiar a perda de receita, os britânicos aumentarão o imposto de renda de 40% para 45% para pessoas que ganham mais de 220 mil dólares por ano. Uma política tributária redistributiva com as mesmas características foi proposta por Obama e aprovada pelos eleitores nos Estados Unidos nas eleições do último dia 4 de novembro.

Redistribuir A Renda Para Salvar O Capitalismo

Uma mudança importante no pensamento econômico está começando a ocorrer nos governos dos países centrais, pressionados pelo aprofundamento da crise e pela necessidade de dar novo impulso à economia, de modo a conter os números alarmantes do desemprego. A velha concepção, que vigorou nos últimos trinta anos, de que os ricos e as grandes empresas deveriam pagar menos impostos para estimular a poupança e o investimento, parece ter caído definitivamente por terra no centro do capitalismo mundial. O fato de que redistribuir parte da renda do topo da pirâmide, para estimular o consumo da esmagadora maioria das pessoas, passou a fazer parte dos planos de reativação da economia, é um sinal de que o aumento exacerbado da concentração da renda, ocorrido nessas últimas décadas da globalização, tornou-se disfuncional para o crescimento da economia capitalista.

25 de novembro de 2008

Colocar O Processo Político Nas Mãos Das Pessoas

Reproduzo, em traducão livre, informações do Washington Post, sobre a dimensão que adquiriu a campanha eletrônica de Obama, utilizando as ferramentas da internet, e o papel que essa tecnologia deverá continuar a ter no governo Obama.

“A utilização de emails, mensagens de texto e de sites de formação de redes sociais, também chamados “socnets”, na campanha de Obama, tem sido observada cuidadosamente por tecnocratas, estrategistas e operadores políticos on line, que procuram beneficiar-se do sucesso eletrônico sem precedentes de Obama. Aqui estão alguns números mais específicos da campanha:

13 Milhões de Endereços

A lista de emails de Obama contem mais de 13 milhões de endereços. Durante o curso da campanha, seus assessores enviaram mais do que sete mil diferentes mensagens, muitas delas dirigidas para doadores com características específicas (pessoas que deram menos de 200 dólares, por exemplo, ou aquelas que deram mais de 1000 dólares). No total, mais do que 1 bilhão de emails encaminhados. (Quatro anos atrás, o Senador John Kerry tinha 3 milhões de endereços na sua lista; o ex-governador de Vermont Howard Dean tinha 600mil).
Um milhão de pessoas inscreveram-se para programa de mensagens de texto de Obama. Na noite que Obama aceitou a indicação democrata no Campo Invesco em Denver, mais de 30 mil telefones entre a multidão de 75 mil pessoas foram usados para enviar textos de adesão ao programa. No dia da eleição, cada eleitor que inscreveu-se para receber mensagens em Estados estratégicos recebeu pelo menos 3 mensagens de texto. Apoiadores receberam em média entre 5 e 20 mensagens por mês, dependendo de onde viviam – o programa foi dividido por Estados, regiões, códigos postais e escolas – e de que tipo de mensagem eles tinham optado por receber.

Comitê Financeiro de Base

No site http://www.mybarackobama.com/ , ou http://www.mybo.com/ , a própria rede de Obama, 2 milhões de perfis foram criados. Adicionalmente, 200 mil eventos de campanha foram planejados, cerca de 400 mil postagens de blog foram escritas e mais de 35 mil grupos voluntários foram criados – pelo menos um mil deles no dia 10 de fevereiro de 2007, o dia em que Obama anunciou sua candidatura. Aproximadamente 3 milhões de chamadas foram feitas nos últimos quatro dias de campanha, usando a plataforma de banco de telefones do MyBo. Nas suas próprias páginas de levantamento de fundos do MyBO, 70 mil pessoas levantaram 30 milhões de dólares. A própria campanha estabeleceu um comitê financeiro de base que foi inspirado no comitê financeiro nacional das grandes doações. No comitê de base, entretanto, os apoiadores foram treinados a arrecadar pequenas doações de dólares de seus amigos, parentes e colegas de trabalho.

Estudantes por Barack Obama

Obama tem outros 5 milhões de apoiadores em outras redes. Ele manteve um perfil em mais do que 15 comunidades on line, incluindo BlackPlanet, um MySpace para Africanos Americanos, e Eons, um Facebook para “baby boomers” (nascidos depois da II Guerra Mundial). No Facebook onde cerca de 3,2 milhões de pessoas inscreveram-se como seus apoiadores, um grupo chamado Estudantes por Barack Obama foi criado em julho de 2007. Ele foi tão efetivo para mobilizar eleitores jovens que os principais assessores transformaram-no em parte oficial da campanha na primavera. E os usuários do Facebook realmente votaram: na página Eleições 2008 do Facebook, que registrou um número 800 para chamar em caso de problemas no dia da eleição, mais de 5,4 milhões de usuários “clickaram” o botão “Eu votei” para avisar seus amigos do Facebook que eles fizeram-se presentes nas urnas.

Competente Utilização da Tecnologia

Nenhuma outra campanha até hoje colocou a tecnologia e a Internet no coração de sua operação nesta escala. Inevitavelmente, a amplitude da operação tornou-se a inveja, se não a completa obsessão, de outras campanhas. “Não importa se você é Republicano ou Democrata, se você se preocupa sobre como a tecnologia mudou a forma de fazer campanha, você precisa olhar o que eles estão fazendo”, disse Mindy Finn, que trabalhou na equipe da campanha eletrônica de Bush em 2004 e supervisionou a estratégia on line de Mitt Rommey.

Trabalho Voluntário nas Comunidades

A questão agora é, como transferir essa energia on line para a Casa Branca de Obama? http://www.change.gov/, o site da transição, foi ao ar dois dias depois que ele foi eleito, embora com algum problema operacional. Na última sexta-feira, sua equipe anunciou que sua mensagem de rádio será também gravada em vídeo e arquivada no YouTube. Ontem, seu coordenador de campanha, David Plouffe, enviou um email com um título onde se lia: “Para onde nós iremos daqui” – Com o dia da posse daqui a somente 61 dias, a pergunta é como o governo de Obama deveria avançar. Numa questionário, após preencher seus dados pessoais e de contato, aos apoiadores é perguntado se eles desejariam trabalhar como voluntários em suas comunidades ( e quantas horas eles estão dispostos a colocar nessa atividade ) e instruídos a selecionar os temas que eles estão mais interessados.

Colocar o Processo Político nas Mãos das Pessoas

Chris Hughes, 24 anos, um dois mais jovens membros da equipe de arrecadação de Obama, falou ao Washington Post: 'o que nós aprendemos desta campanha é que há um imenso potencial nas pessoas que não tem estado até hoje envolvidas em política para descobrirem que, sim, isso é algo que me impacta. Mesmo antes de integrar-me na campanha, a premissa fundamental era ajudar a colocar o processo político nas mãos das próprias pessoas. Este era o valor desde o início da campanha, este era o valor ao final da campanha, e ele não nos abandonará.' "

24 de novembro de 2008

Obama Opta Por Ação Ousada Contra A Recessão

Diante das inúmeras evidências de agravamento da recessão, tendo como resultado aumento alarmante do número de desempregados, Obama anunciou nesse final de semana a disposição de implantar um ousado plano de investimentos em obras de infra-estrutura, para criar imediatamente pelo menos 2,5 milhões de novos empregos. Segundo os principais jornais do país, os investimentos propostos deverão custar pelo menos 200 bilhões de dólares e já se especula sobre a resistência que esse aumento de gastos públicos deverá receber da bancada republicana no Congresso. O anúncio de Obama tem o propósito de influenciar o atual governo a tomar algumas iniciativas no combate à recessão imediatamente, uma vez que até aqui tem prevalecido uma situação de certa paralisia. Do ponto de vista do debate que se realiza entre os diferentes caminhos que a política econômica do novo governo deverá trilhar, essa iniciativa do presidente eleito indica que ele deverá levar em conta os conselhos de pensadores econômicos de forte conteúdo desenvolvimentista, como o prêmio nobel Paul Krugman. Em seus artigos semanais no New York Times, comentados nesse blog, Krugman tem insistido na tese de que Obama não deve preocupar-se com o déficit fiscal nessa hora, colocando os recursos que forem necessários na economia para reativar a demanda, recolocando a economia em rota de crescimemento, de modo a conter ao máximo o custo econômico e social da crise.

22 de novembro de 2008

A Questão Da Raça

O debate sobre a questão da raça na eleição de Obama começou ainda nas eleiçoes primárias, prolongou-se durante a eleição geral e continua agora, pós eleição. Conversei com o professor Richard Ford, da Universidade de Stanford, a respeito. Ford é autor de um livro importante sobre o tema chamado "The Race Card" (A Carta da Raça). Sua tese é a de que a raça não é mais uma questão central na sociedade e na política dos Estados Unidos, porque as relações raciais tem melhorado. Obama, um negro ilustrado e cosmopolita, é considerado um negro pós-movimento pelos direitos civis, do qual Martin Luther King e depois Jesse Jackson foram grandes líderes. A partir dos anos 60, as pessoas se dividiram entre as a favor e as contra as mudanças culturais. Obama não engajou-se nessa velha disputa. Ele teve o cuidado de falar de raça de uma nova maneira, não colocando-a como questão política central. A maioria dos pobres são negros, não foram beneficiados pelo movimento dos direitos civis, tem menos oportunidades de emprego, salários mais baixos, e constituem-se na maioria da população encarcerada, sendo que o índice de encarceramento nos Estados Unidos é um dos mais altos do mundo. A eleição de Obama, segundo Ford, deverá melhorar ainda mais as relações raciais, aperfeiçoar o ideal de igualitarismo da sociedade, com oportunidades iguais para todos, não só iguais para os brancos, e promover uma nova imagem em favor dos afro-americanos.

21 de novembro de 2008

Recessão ou Depressão Mundial

São cada vez maiores as evidências de que a economia mundial, liderada pelos Estados Unidos, caminha para uma depressão, que equivale a uma recessão suficientemente profunda a ponto de produzir uma deflação de preços, ou seja, uma redução generalizada de preços nos mercados. Todos os indicadores apontam nessa direção, o péssimo e persistente desempenho das bolsas de valores, a explosão do número de desempregados, a drástica queda nas vendas, a vertiginosa baixa no preço do barril de petróleo. Os principais jornais dos Estados Unidos falam no mesmo tom, "a recessão deverá ser mais longa e profunda do que mesmo os mais pessimistas tinham previsto". Desde um ano atrás, no ponto mais alto já atingido, até hoje, a Bolsa de Valores de Nova York caiu 43,5%. Desde o pico de outubro de 2007, foram aniquilados quase 10 trilhões de dólares de riqueza. Isso significa que a queda do mercado eliminou praticamente todos os ganhos da época de crescimento que persistiu nos cinco anos que vão de outubro de 2002 até outubro de 2007. Os analistas que apostavam que o mercado havia chegado ao fundo do poço e não poderia senão subir, após as perdas de outubro, agora admitem que o sofrimento está longe de terminar. Uma situação de pânico ameaça desenhar-se no horizonte de Wall Street.

20 de novembro de 2008

O Paradoxo Do Sonho Americano

Reproduzo, abaixo, o artigo sobre as eleições norte-americanas que escrevi para a revista VOTO, de Porto Alegre, Brasil, do mês de novembro:

"Uma amiga comentou-me que gostaria de compreender melhor o que considera um paradoxo do sonho americano. Os eleitores que sustentam a proposta de mudança de rumos, do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, são principalmente os mais pobres, os discriminados, os imigrantes, os forasteiros. Esses, a exemplo de boa parte dos habitantes do planeta, admiram a democracia norte-americana, mas não concordam com a forma como os Estados Unidos atuam internacionalmente, interferindo seguidamente na vida de outros povos.

Nesse breve período que estou vivendo aqui, consigo já perceber que o paradoxo do sonho americano advém de graves problemas estruturais com que se defronta a sociedade norte-americana.


Nesses mais de dois séculos, foi edificada uma sociedade que se assenta em três pilares: uma democracia estável, que resultou de uma história de lutas e realização de valores inclusivos e libertários; um alto padrão de consumo para as classes médias, que se constituem na maioria da população; e um imenso complexo industrial-militar, voltado para a manutenção de poder, mercados e fontes de matérias primas estratégicas para o país, como é o petróleo. Uma sociedade aberta e uma economia forte foram decisivas para assegurar oportunidades de ascensão social para milhões de nativos e imigrantes ao longo de décadas.


No passado, a ameaça comunista legitimou a edificação dessa grande potência. Hoje, é o terrorismo, que põe em risco as liberdades e a democracia, das quais os Estados Unidos consideram-se guardiões mundiais. Sobre essas bases, o dólar transformou-se em moeda de curso universal.


A globalização das últimas três décadas, se, por um lado, derrubou todas as fronteiras para os fluxos de capital, até mesmo o antigo campo socialista, por outro, abriu caminho para a ascensão de novas potencias regionais, como a Rússia, China e União Européia. A economia norte-americana ingressou numa rota de perda de competitividade, e o dólar começou a desvalorizar-se frente ao euro e outras moedas.


Sem conseguir ajustar-se às novas realidades, os Estados Unidos começaram a viver acima dos seus meios. Preservaram um alto padrão de consumo para as classes médias, e, inclusive, continuaram a deflagrar guerras caríssimas e desnecessárias, como a do Iraque. Como resultado, os déficits fiscal e comercial explodiram, sendo financiados à base de emissão massiva de dólares. A especulação financeira exacerbada, que acaba de provocar a maior crise desde a Grande Depressão, é, nesse sentido, a manifestação aparente de uma crise estrutural mais profunda, que deverá vir à tona com ainda mais força daqui para a frente.


Percebo que a pressão por avanços democráticos no interior da sociedade norte-americana está sendo impulsionado exatamente por aqueles para quem o sonho americano de ascensão social, ou de construção de um país exemplar e admirado, ou derreteram-se, ou nunca passaram de expectativas, seja pela perda de dinamismo da economia, ou pelo militarismo e unilateralismo que tem caracterizado a política externa dos Estados Unidos.


Esses avanços foram até agora barrados pela força econômica, política e midiática do capital financeiro e do complexo industrial-militar-petrolífero. Nas eleições desse ano, a candidatura democrata de Barack Obama, e a candidatura republicana de John McCain, expressam essas duas alternativas para o futuro da sociedade norte-americana, com mais nitidez como nunca nas últimas décadas."

19 de novembro de 2008

Pobreza E Sem-Teto Nos Estados Unidos

Susie Ementon, gestora de serviços estudantis da Universidade de Stanford, envia email para convidar a participar da Semana Nacional de Conscientização Sobre a Fome a os Sem Teto. Isso parece ser noticia de um país do Terceiro Mundo, mas não é. É uma noticia da Califórnia, uma das regiões mais prósperas dos Estados Unidos. Veja a programação, distribuída ao longo dessa semana:

- PoverTea (semelhança com poverty=pobreza): conversa com professores de Stanford sobre pobreza nos Estados Unidos;
- Nenhum Lugar como o Lar : um olhar sobre a luta por moradia nos Estados Unidos;
-Denúnicias sobre Fome e Desigualdades nos Estados Unidos;
- Serviços e Privilégios: uma discussão sobre a ética dos serviços comunitários e a dinâmica escondida dos privilégios;
- Sentindo-se sem casa: um olhar pessoal sobre a pobreza.

Na verdade, essa agenda reflete uma situação concreta de aumento da pobreza, da falta de moradia e das desigualdades nos Estados Unidos nas últimas décadas de avanço da globalização. Situação que se agrava numa velocidade impressionante nos últimos anos, e que tenderá a aprofundar-se ainda mais com a crise econômica atual. Sem dúvida, um dos motivos centrais da eleição de Barack Obama, que assumiu compromissos fortes em campanha de que vai mudar essa situação. O seu enfrentamento deverá ser um dos maiores desafios do governo governo democrata que assume no próximo dia 20 de janeiro de 2009.

18 de novembro de 2008

Mobilização Da Sociedade Para As Mudanças

Recebo cartas de vários participantes do movimento MoveOn - http://www.moveon.org/ , que estão começando a organizar a mobilização de pessoas em todos os Estados Unidos. O plano é desencadear uma grande campanha para apoiar o presidente eleito Barck Obama nas reformas progressistas que pretende fazer após tomar posse. A mobilização começará localmemente, devendo chegar até Washington, para ter certeza que o Congresso sinta-se pressionado a trabalhar com Obama em suas iniciativas-chave. O movimento confia em que Obama fará mudanças reais na economia do país, enfrentará a crise climática com tecnologias limpas, implantará um sistema universal de atendimento à saúde e terminará a guerra com o Iraque. "Mas não há nunhuma maneira de ele fazer isso sem milhões de nós apoiando-o", afirmam os coordenadores locais do MoveOn. Iniciativas como essa confirmam que o movimento de milhões de pessoas que elegeu Obama deverá continuar durante seu governo, para assegurar que as principais mudanças prometidas em campanha saiam do papel e tornem-se realidade, inaugurando uma nova era da sociedade e da política norte-americanas.

Escolas Cidadãs

Momentos surpreendentes e estimulantes ocorreram comigo com freqüência nessa passagem pelos Estados Unidos. Estava entrando numa sala de cinema e deparo-me com uma mesinha em que está exposto um material de divulgação da ONG “Citizen Schools” (Escolas Cidadãs) – http://www.citizenschools.org/ . Ela é uma iniciativa educacional nacional que mobiliza milhares de adultos voluntários para ajudar a melhorar o desempenho de estudantes através do ensino de habilidades no período complementar ao da escola. Os seus programas combinam projetos de aprendizado do mundo real com atividades acadêmicas e de desenvolvimento de liderança, preparando os estudantes de nível médio a ter sucesso na escola, no trabalho e na vida cívica.

Compartilhe o Que Você Sabe e Ama

Pode candidatar-se qualquer pessoa com habilidades para compartilhar com jovens entre 11 e 14 anos. O que fazer? Conduzir semanalmente durante 11 semanas projetos de aprendizado de 90 minutos numa escola local, para mostrar para os jovens “como você faz o que você faz”. As habilidades solicitadas são: cozinhar; mecânica de carros; desenho de páginas na internet; lei; dança; escrita criativa; fotografia; começar seu próprio negócio; primeiros socorros. O período de trabalho voluntário é o do outono, começando em outubro até dezembro. Lançada em Boston em 1995, a Citizen Schools atualmente atende a 3 mil estudantes e envolve 2.400 voluntários em 16 cidades em todo o país.

17 de novembro de 2008

Universidade Da Terceira Idade

A Universidade da Terceira Idade - http://www.u3alondon.org.uk/ – é um grupo de homens e mulheres aposentados que se reúnem para estudar um conjunto amplo de assuntos durante a semana na cidade de Londres. Eles oferecem atualmente cerca de 140 grupos de estudo, ninguém é pago para ensinar e tampouco existem funcionários administrativos pagos. Eles não se consideram uma universidade no sentido convencional, mas no sentido original de uma comunidade de pessoas engajadas em aprender e, sobretudo, aprender umas com as outras. Eles não tem exames, certificados ou diplomas: elas estudam pelo prazer de aprender, e os líderes dos grupos de estudo são chamados coordenadores e não professores ou conferencistas, porque aprender é entendido como um processo cooperativo.














Rede de Universidades

Existem mais de 700 universidades da terceira idade no Reino Unido e todas elas são autônomas e totalmente auto-sustentáveis, ou seja, não recebem ajuda dos governos central ou local. Fazem suas próprias regras e regulamentos e não prestam contas a nenhuma autoridade superior. Existe também uma organização não-governamental nacional chamada Fundação da Terceira Idade que representa o movimento das universidades da terceira idade no Reino Unido e oferece apoio, assessoramento e um amplo conjunto de serviços para as atuais e as novas universidades da terceira idade que se formam.

Como Participar

Para a pessoa freqüentá-la, deve pagar uma modesta contribuição anual, sem nenhuma cobrança adicional, a não ser em eventos especiais. A pessoa pode participar de qualquer grupo de estudo que desejar e das palestras das segundas-feiras sem qualquer pagamento adicional. A única limitação é que alguns grupos podem ficar completos, e nesse caso a pessoa deve colocar seu nome numa lista de espera.

Boa Idéia para Replicar

Eis aí uma boa idéia que pode ser replicada no Brasil, que está vendo sua população de terceira idade crescer rapidamente, seguindo os passos dos países do primeiro mundo. Hoje já temos os encontros da terceira idade, as festas, os bailes, as confraternizações de todo o tipo. Mas porque não avançar para o compartilhamento do saber e da experiência, a aprendizagem pela cooperação, que promove a auto-estima, estimula a alegria de viver, abre horizontes de conhecimento e de consciência, cria ambientes de convivência e novas experiências de vida comunitária? Creio que é um passo que o movimento da terceira idade no Brasil já está maduro para dar.

14 de novembro de 2008

Doações Filantrópicas Às Universidades

Uma prática comum nos Estados Unidos, e que deveria tornar-se exemplo para o Brasil, é a das doações de recursos por parte de ex-alunos que enriquecerem, tendo aprendido sua atividade profissional na universidade. Lorry Lokie, por exemplo, fundador da empresa Business Wire, acaba de doar 75 milhões de dólares para a escola de medicina da Universidade de Stanford, na qual foi ex-aluno. Esses recursos ajudarão a construir o novo laboratório de pesquisa em células tronco, que adotará o nome de seu maior patrocinador. Esse laboratório hospedará 350 cientistas que trabalharão juntos para captar o poder dessas células no tratamento de doenças tão variadas como câncer, diabetes e doenças do coração. “As células tronco passarão a ser tão importantes como os “chips” de silício que criaram o Vale do Silício, disse Lokie, numa referência a essa região onde se localiza a Universidade de Stanford.

Exemplo de Responsabilidade Social Individual

A doação de Lokie é a maior recebida até hoje pela escola de medicina de um cidadão privado, e uma das maiores recebidas pela Universidade de Stanford. Com a doação, Lokie terá comprometido mais de 500 milhões de dólares de sua fortuna pessoal para ações filantrópicas, a maior parte delas nas áreas de ciência e educação. “Olhei para trás em disse a mim mesmo, o que tem criado toda essa riqueza? Eu compreendi que é a educação”, disse Lokie. A perspectiva de atrair pesquisadores de alto nível a Stanford é para ele muito mais significativa do que os bens pessoais que seu dinheiro poderia comprar. “Eu não quero aviões e barcos e participação em clubes luxuosos”, diz. “Eu acredito que se uma pessoa ganha muito dinheiro, como aconteceu comigo, ela deve recolocá-lo no solo – assim o solo é preparado para a colheita do próximo ano”.

13 de novembro de 2008

Uma Economia Com Face Humana

Em NovaTork, aproveitei para visitar a sede das Nações Unidas e um amigo, Bernardo Kliksberg, que dirige o Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento – PNUD, nas regiões da América Latina e Espanha. Kliksberg é uma personalidade carismática e convincente. Seus argumentos por uma economia com face humana, suas análises sobre as desigualdades na América Latina, sua crítica do pensamento conservador, sua crença na força da sociedade civil, são tão apaixonados quanto consistentes. Tenho grande identificação com suas idéias, e devo muito a ele o desenvolvimento do conceito de governança solidária local, que acabou tornando-se, não só um programa de governo da Prefeitura de Porto Alegre, como também, em meu entender, a alma da gestão do Prefeito José Fogaça, que agora deverá ter continuidade. A propósito, leio na imprensa a excelente acolhida que o Prefeito Fogaça e sua equipe estão tendo em Shangai, na China, onde se realizará a Expo 2010, na qual Porto Alegre foi premiada com uma participação especial, graças à governança solidária local e ao orçamento participativo.


O Fortalecimento Do Sistema Das Nações Unidas

A conversa com Kliksberg é inteligente. Compartilhamos a alegria da eleição de Obama, que abre novas perspectivas para as relações internacionais e o combate às desigualdades no mundo. A eleição de Obama deverá contribuir para o fortalecimento das Nações Unidas, como espaço multilateral de negociação e entendimento entre as nações. A ênfase de Obama na diplomacia e no diálogo com todos os países, inclusive com aqueles com quem os Estados Unidos tem conflitos sérios, como Iran, Afeganistão e Rússia, e sua visão de estreitamento das relações com os países aliados, permite antever respeito e relevancia ao papel da ONU nas situações de conflito. A política unilateral e atropeladora das instituições de mediação internacional de conflitos, que predominou no governo Bush, será descartada. O fim do bloqueio a Cuba deverá fazer parte dessa nova estratégia.

Primeiro As Pessoas

O último livro de Kliksberg, “Primero La Gente”, é uma co-autoria com o Prêmio Nobel Amartia Sen, editado primeiramente na Espanha. Os autores identificam-se na análise da economia mundial, que na época da globalização acentuou as desigualdades e o desrespeito à dignidade da pessoa humana. No seu estágio atual, a globalização impulsionou a modernização tecnológica e a eficiência produtiva, ao mesmo tempo em que universalizou o modelo capitalista da economia de mercado, derrubando todos os muros ideológicos que se lhe antepunham. Entretanto, esse mesmo processo aguçou a face especulativa e concentradora de riqueza da economia capitalista, mantendo uma terça parte da humanidade em situação de pobreza absoluta. A força da sociedade civil e dos novos personagens da cena política, o voluntariado, as mulheres, a juventude, as empresas socialmemnte responsáveis, a política e os governos pautados pela ética, são vistos como os fatores propulsores das mudanças que a sustentabilidade do planeta exige. Em breve, deveremos ter tradução para o português desse novo livro de Kliksberg e Sen, que tive o privilégio de receber com autógrafo do autor.

12 de novembro de 2008

O Alcance Das Medidas Para Enfrentar A Recessão

A discussão mais intensa que ocorre nos círculos mais próximos do presidente eleito Barack Obama refere-se ao grau de amplitude e profundidade das medidas que deveão ser adotadas para enfrentar a recessão e relançar a economia numa rota de crescimento. O crescimento exponencial do número de trabalhadores desempregados, que até o dia 20 de janeiro, quando Obama assumir a presidênicia, já deverá ter sido acrescido em mais 500 mil, além dos 1,2 milhão dos últimos doze meses, é um fator de pressão adicional a ser considerado na avaliação da nova equipe econômica. Obama foi eleito com o apoio massivo dos sindicatos e centrais sindicais do país. A indústria automobilística está encolhendo em alta velocidade, devido à redução nas vendas de automóveis nos Estados Unidos e em todo o mundo, e pressiona o governo norte-americano por medidas de socorro, tais como as adotadas para socorrer as instituições financeiras.

Cumprimento Das Promessas De Campanha

Obama assumiu compromisso em campanha com investimentos de 15 bilhões anuais, nos próximos dez anos, em fontes de energia renováveis, que deverão gerar 5 milhões de novos empregos. Soma-se a isso, os recursos necessários para assegurar assistência à saúde para 45 milhões de norte-americanos hoje sem seguro-saúde , criando um sistema universal de atendimemento, mais os recursos necessários para qualificar a educação básica, incluindo recrutamento de novos professores, melhoria de salário por desempenho e outras iniciativas para atualizar o programa “No Child Left Behind” (Nenhuma Criança Deixada Para Trás). Como se isso não bastasse, Obama prometeu reduzir os impostos das famílias trabalhadoras que ganham menos de 200 mil dólares anuais, além de reduzir os impostos dos pequenos negócios como forma de manutenção dos seus niveis de emprego.

A Posição De Paul Krugman

Se depender de Paul Krugman, Obama deveria adotar um plano ousado de combate à recessão e de estímulo à atividade econômica do país, combinando medidas tanto na área econômica e tributária, como também institucionalizando um sistema universal de atendimento à saúde. Numa avaliação histórica das medidas anti-recessivas, Krugman demonstra, em seu último artigo para o New York Times, que elas só não funcionaram quando foram tímidas. Com relação ao governo Roosevelt, por exemplo, afirma que suas iniciativas dos primeiros anos caracterizaram-se pela cautela, tentando evitar maior pressão sobre o déficit público, e os resultados foram frustrantes. O que salvou a economia e o New Deal, “foi o enorme programa de ação pública conhecido como Segunda Guerra Mundial, que finalmente proporcionou os estímulos fiscais adequados para as necessidades da economia”. Dessa reflexão, Krugman retira uma importante lição política: medidas econômicas erradas podem rapidamente minar um governo. Se o novo governo não proporcionar uma recuperação da economia nos primeiros anos, a euforia democrata de agora terá vida curta. “Meu conselho para a equipe de Obama é calcular quanto eles acham que a economia necessita de ajuda, e sobre esse montante acrescentar mais 50%. É muito melhor, numa economia deprimida, errar pelo lado do estímulo excessivo do que pelo lado do estímulo insuficiente”.

A Democracia Norte-Americana em Questão VII - A Inabilidade de Solucionar Problemas Estruturais

A assistência à saúde apresenta altos custos e resultados pobres. Predomina a irresponsabilidade fiscal, com uma dívida nacional crescente, e com obrigações também crescentes. Na área da energia, faltam políticas claras para desenvolver fontes alternativas. Na governança, não se resolve o problema da divisão distrital, cresce o poder da mídia, falta coerência entre o discurso político e a realidade. As relações internacionais continuam pautadas pela guerra e o complexo industrial-militar. De acordo com um recente estudo, cinco estados gastam mais em prisões do que em educação superior. Um em cada cem norte-americanos está preso, o mais alto índice de encarceramento no mundo. Entre 1987 e 2008, os gastos públicos em prisões cresceram 127%, enquanto os gastos em educação superior cresceram 21%.

A Democracia Norte-Americana em Questão VIII – A Crescente Diversidade Cultural e Social

Robert Putnam realizou um novo estudo sobre os Estados Unidos: “E Pluribus Unum: Diversity and Community in the Twenty-First Century”, 2007. Nesse estudo, procura demonstrar que o crescimento da diversidade reduz a confiança, as amizades, o altruísmo e a esperança das pessoas. Em Los Angeles e San Francisco, 30% das pessoas dizem que confiam muito nos seus vizinhos. Em comunidades rurais de Dakota, 70% a 80% das pessoas confiam muito nos seus vizinhos. A diversidade, segundo Putnam, cria isolamento e retraimento, reduz a participação e o engajamento.

A Democracia Norte-Americana em Questão IX – Falta de Civismo

A cultura cívica apresenta uma decaída generalizada no país. Falta conhecimento cívico: em 1998, 23% dos estudantes de quarta série, 23% dos estudantes de oitava série e 26% dos estudantes da décima-segunda série pontuaram acima da proficiência mínima. Em 2006, somente os estudantes de quarta-série mostraram alguma melhoria (e pequena). Falta de entendimento cívico: de uma pesquisa entre 112.003 estudantes de ensino médio, 36% acreditam que os jornais deveriam ter “aprovação governamental” das matérias antes de publicá-las. Fonte: John S. and James Knight Foundation, 2006. Falta de habilidades cívicas: uma pesquisa da National Geographic de 2006, entre jovens de 18 e 24 anos, constatou que 60% não conseguem localizar o Iraque no mapa; 88% não conseguem localizar o Afeganistão; 70% não conseguem localizar a Coréia do Norte; e 33% não conseguem localizar o Estado norte-americano de Louisiana.

11 de novembro de 2008

Um Balanço Da Viagem Aos Estados Unidos







Estou voando de volta ao Brasil, depois de dois meses e dezessete dias nos Estados Unidos. Quando saí do Brasil, no dia 22 de agosto, Obama ainda nem havia sido indicado candidato oficial a presidencia pelo Partido Democrata, e nenhuma palavra era ouvida sobre a iminência de uma profunda crise econômica, que logo viria e eclodir. Nesse curtíssimo período, não só tive o privilégio de ver o mundo mudar, como também, de alguma forma, fazer parte dessa mudança. Obama é o primeiro presidente afro-americano eleito, e a economia mundial afunda numa recessão talvez mais severa do que a de 1929. As experiências que vivi foram relatadas diariamente nesse blog. Elas me conduziram a uma vivência real no cotidiano das pessoas comuns da sociedade norte-americana. Conheci um pouco melhor o significado do sonho americano e o espírito desse país tão decisivo para o curso dos acontecimentos em todo o mundo.

Voluntário Na Campanha De Obama

Através de amigos da universidade, tornei-me um voluntário da campanha. Participei de atividades em comitês eleitorais, reuniões de trabalho em casas de família, conferencias e debates sobre temas da atualidade, viagens de apoio para Estados de acirrada disputa entre republicanos e democratas, como aconteceu em Nevada. Consegui realizar também o desejo de visitar o comitê central da campanha em Chicago, e, sem querer, acabei participando de uma disputa espontânea entre apoiadores de Obama e McCain, em plena Times Square, em Nova York. Não estava em meus planos, tampouco, analisar mais detidamente, testemunhar, e inclusive sentir os efeitos da mais grave crise econômica dos últimos cem anos, tema inicialmente ausente e que, com o passar dos dias, acabou dominando boa parte dos comentarios do meu blog, pela própria força dos fatos que vieram a acontecer. Os desdobramentos globais da crise, o crescimento do desemprego, as alternativas para reativar a economia, tornaram-se a principal agenda dos Estados Unidos e do mundo, e serão o maior desafio do novo presidente eleito.

Uma Escola De Vida

Esse periodo foi para mim uma verdadeira escola de vida. Vi milhões de pessoas voluntarias se juntarem a uma causa, por acreditar nela, e transformarem o país. Vi que só assim a política pode avançar, na medida em que viabiliza uma forma mais democrática e ética de realizar e financiar campanhas, sem cabos eleitorais pagos, sem necessidade de caixa dois e outros subterfúgios.Vi que é preciso valores e causas para que a política se torne um instrumento de transformação da sociedade, e não apenas uma disputa de poder entre partidos. Vi que as pessoas ainda tem idealismo e esperança em seus corações, e que eles podem ser despertados por uma liderança política que se credencie pelo exemplo, pela confiança e pela verdade. Vi também que a economia nãopode ser deixada à sua própria sorte, e que há um imperativo ético de submetê-la ao controle democrático da sociedade, para que os seus resultados sejam melhor compartilhados por todos, não só na crise, como também na prosperidade. Vi, enfim, das pessoas no país mais importante do planeta, de onde muitos talvez jamais esperassem, partir uma clara e inequívoca manifestação de que a mudança é possível e que o sonho de um mundo mais humano e pacífico não acabou.

O Privilégio De Ser Personagem Da Mudança

Decidi sair do Brasil para o que poderia chamar-se de um exílio voluntario, onde teria tempo para dedicar-me ao estudo e à reflexão. Fui honrado com um convite da Universidade de Stanford, na California, para pesquisar no Centro pela Democracia Deliberativa, e acompanhar as eleições norte-americanas. Entretanto, tornou-se impossível não viver situações inusitadas que surgiram, na medida em que o desenrolar da campanha de Obama para presidente foi fundindo-se com a efervescência e o aprofundamento da crise econômica. Parece que cumpriu-se uma sina, vim fazer pequisa e observações e acabei envolvendo-me na política. Tive o privilégio de virar personagem de um dos mais belos acontecimentos democráticos da história recente da humanidade, cujas implicações políticas, econômicas, sociais e culturais haverão de influenciar a agenda mundial nos próximos anos.

Cidades Do Vale Do Silício Adotam Metas Para O Desaquecimento

Vinte e três das 35 cidades do Vale do Silício adotaram os objetivos de redução de gases poluidores do Acordo de Proteção do Clima dos Prefeitos dos Estados Unidos, sob o clamor de ativistas locais com a campanha do Clube Sierra para “Cool Cities” (Cidades Desaquecidas). O acordo conclama as cidades a reduzirem suas emissões de gás carbônico em 7% abaixo dos níveis de 1990 até 2012, tanto na cidade como um todo quanto nos bairros, alinhado com o protocolo de Kyoto. A maior parte dessas cidades terá inventários completos de suas próprias situações até 2008 e o próximo passo será construir um plano de ações para reduzir emissões, de acordo com o Sierra Clube. Essas ações envolverão desde incentivos para que as pessoas limitem seus deslocamentos, até a possibilidade de tornar viável a colocação de painéis solares em suas casas. “Temos visto uma combinação de ativismo público e conscientização geral que tem levado a níveis maiores de engajamento cívico, mas muitas cidades estão tendo problemas de execução de suas ações por uma série de razões”, diz Julio Magalhães, coordenador do Programa Aquecimento Global da seção local do Sierra Clube.

Geração de Empregos Com Tecnologias Limpas

Por outro lado, os prefeitos das três principais cidades da Área da Baía, na Califórnia, San Francisco, San Jose e Oakland, acordaram participar de um pacto regional pela mudança climática, liderado pela iniciativa privada, que incluirá o uso de mais energia renovável, geração de mais empregos com tecnologias limpas, redução do uso de água e crescente destino do lixo urbano para produzir energia. De acordo com o termo de referência do pacto proposto, cerca de 8 mil projetos de energia solar estão em andamento ou foram concluídos na Califórnia, com uma capacidade de geração total de 112 milhões de quilovates. Uma pesquisa entre as 250 empresas líderes da iniciativa mostra que um terço delas estão envolvidas na execução de pelo menos um projeto verde. Esse esforço conjunto das cidades e do setor privado norte-americano insere-se no projeto nacional de conquistar a independência de petróleo importado nos próximos anos, ao mesmo tempo em que poderão ser gerados milhões de novos postos de trabalho no país.

A Democracia Norte-Americana Em Questão IV - A Atomização de Interesses E A Concentração em Entretenimento

O número de lobistas registrados em Washington mais do que cobrou desde o ano 2000, passando de 16.342 para 34.750. Novas fontes de entretenimento e informação. Há uma média de 100 canais de televisão em cada casa norte-americana. Há mais estações de rádio, 60 milhões de blogs, a internet. Enquanto isso, os leitores de jornais caíram de 58% de 1994 para 42% hoje. Dos telespectadores de noticiários noturnos, apenas 18% tem 18 anos ou mais, enquanto 56% tem 65 anos ou mais. O lazer ocupa cada vez mais a atenção das pessoas: 40 milhões de pessoas assistiram o final do programa “Ídolo Americano” e somente 37 milhões assistiram o debate final da campanha presidencial entre George W. Bush e Al Gore.

A Democracia Norte-Americana em Questão V – O Papel do Dinheiro na Política

O gasto total das eleições presidenciais tem crescido exponencialmente. No ano 2000, foram gastos 327 milhões de dólares; em 2004, foram gastos 545 milhões de dólares; um aumento de 60% em quatro anos. Estima-se que a campanha desse ano deverá custar cerca de 1 bilhão de dólares. Por outro lado, uma quarta parte dos parlamentares federais faz parte do 1% dos norte-americanos milionários. “O que entristece é que nos Estados Unidos de hoje é necessário 2 milhões de dólares para vencer e as pessoas normais não podem mais concorrer. Ou você é muito, mas muito rico, ou muito, mas muito bem financiado”, afirma Janice Bowling, candidata Republicana pelo Estado do Tennessee.

A Democracia Norte-Americana em Questão VI – O Crescente Partidarismo

Está em curso um processo de partidarização crescente da sociedade e de suas instituições. A mídia reflete essa tendência e está também crescentemente partidarizada. Uma pesquisa sobre o quanto as pessoas acreditam no que os órgãos de comunicação noticiam, feita pelo “Research Center for the People and the Press”, em 2004, mostra bem isso. Alguns exemplos. 45% dos Democratas e somente 26% dos Republicanos acreditam no Canal CNN. Já no Canal Fox News acreditam 29% de Republicanos e menos de 10% de Democratas. No canal 60 Minutes acreditam 42% de Democratas e 25% de Republicanos. O jornal New York Times é preferido por 31% de Democratas e somente por 14% de Republicanos.

10 de novembro de 2008

De Nova York Para Porto Alegre

Estou no aeroporto JFK de Nova York, aguardando o voo da American Airlines para o Brasil. Concluo uma viagem que me trouxe muito aprendizado. Volto com o sentimento de missao cumprida. Obama e o presidente eleito dos Estados Unidos e sinto-me parte dessa grande mudanca historica. Escrevo essa nota do computador de  uma pessoa que acabo de encontrar, tambem esperando pelo seu aviao para Estocolmo, e por isso esta sem os acentos da lingua portuguesa. Meu computador nao acessou a internet, mesmo tendo pago o valor de uma hora no meu cartao de credito.Nova York, Chicago, San Francisco, Mountain View, Palo Alto, Carson, Las Vegas, San Jose, Baltimore, todas cidades que me proporcionaram experiencias marcantes de vida. Meu blog e o registro fidedigno de toda essa maravilhosa experiencia internacional. Amanha, com calma, farei um balanco melhor dessa passagem pelos Estados Unidos, que esta agora sendo concluida.

Madison Square Garden: New York Knicks contra Utah Jazz

Neste domingo, 9 de novembro, tive o privilégio de assistir a uma partida de basket-ball no Madison Square Garden, entre o New York Knicks e o Utah Jazz. Um verdadeiro espetáculo, além de uma grande partida. A arena é a quadra de basquete, os gladiadores são os jogadores, o leão é a bola, o coliseu é o estádio. Nova York é a nova versão de Roma. Uma versão exuberante, tecnicolor. Nós, a plebe, assistimos boquiabertos a partida, os tambores são reproduzidos por um som digital, não gritamos mais morra, e sim "offense", "diffense". O espetáculo é o "game", o "dancing" cívico dos adolescentes do "Knicks kids", o desfile militar em suas fardas impecáveis. Nos telões do teto desfilam rostos de marinheiros, já que é dia de homenagear a marinha norte-americana. As celebridades do cinema e da música são anunciadas com orgulho e seus rostos aparecem nas telas, todos irmanados pela vibração da disputa entre dois grandes times de um dos esportes preferidos por aqui. Diante dos meus olhos, uma sínterse da cultura e da sociedade norte-americana, sua pujança, sua organização, seu profissionalismo, sua energia cívica, sua paixão pelo esporte, ao lado de um forte espírito militarista e imperial, que nos deixa com as barbas de molho. Um cartaz de Obama exposto por um torcedor é ovacionado. Tempos novos parecem que se avizinham. Há uma grande expectativa e uma interrogação no ar. Mas, enfim, isso é Nova York, e Nova York é "express", o sonho norte-americano de consumo feito realidade.

A Democracia Norte-Americana em Questão III – A Desigualdade Crescente

Estudo da Associação Americana de Ciência Política de 2004, “A Democracia Americana numa Era de Crescente Desigualdade”, chegou a conclusão que as desigualdades de renda, riqueza e acesso à oportunidades estão crescendo mais rapidamente nos Estados Unidos do que em muitos outros países. Pessoas ricas “estão falando forte, com tanta clareza e consistência que os funcionários públicos ouvem e seguem prontamente, enquanto cidadãos com rendas menores estão falando com um susurro”, diz o estudo. O progresso em direção aos ideais americanos de democracia pode ter estagnado, e em algumas áreas até regredido. Na mesma direção, Holly Sklar, Laryssa Mykyta e Suzan Wefald, no livro "Raise the Floor", analisam que, no período 1968 a 2000, enquanto a produtividade cresceu 74%, o valor do salário por hora caiu 3% nos Estados Unidos. Se os salários tivessem acompanhado a produtividade, o salário médio por hora seria de 24,5 dólares, ao invés de 13,7 dólares.

Política Pública Fortalece Desigualdades

A insuspeita revista “The Economist”, de dezembro de 2004, compara a média das compensações recebidas pelos 100 executivos de mais altos salários nos Estados Unidos: há trinta anos atrás, era trinta vezes maior do que o salário médio de um trabalhador; hoje, é mil vezes maior que o salário médio de um trabalhador. A revista Chronicle of Higher Education, de 14 de abril de 2008, mostra que 35% dos estudantes em todas as faculdades e universidades norte-americanas recebem auxílio por dificuldade de custear seus estudos. Nas 39 universidades públicas mais ricas, esse percentual é de 18% e nas 75 universidades privadas mais ricas, é de 13%. Constata-se também uma preocupante situação de fortalecimento das desigualdades quando as políticas públicas são examinadas. 52% da ajuda federal, no valor anual de 45 bilhões de dólares, é definida com base em critérios que não levam em conta a necessidade das famílias. Na mesma linha, 34% das deduções nos gastos com educação beneficiam famílias com renda superior a cem mil dólares por ano.

9 de novembro de 2008

A Democracia Norte-Americana Em Questão I

A democracia nos Estados Unidos passa por uma época de fragilização em suas principais bases históricas de sustentação, que no passado impressionaram Alexis d´Tocqueville, em seu famoso texto “A Democracia na América”. O professor George Mehaffy, da Associação Americana das Universidades e Faculdades Públicas, identifica as seguintes razões: o declínio do capital social, a desigualdade crescente, a atomização de interesses e a concentração em entretenimento, o papel do dinheiro na política, o crescente partidarismo, a inabilidade de resolver alguns problemas estruturais do país e a crescente diversidade cultural e social. Pela importância dessa análise, ainda mais nesse momento de mudança política que o país está vivendo, e sua identificação com os princípios desse blog, começarei a comentar brevemente, a partir de hoje, e nos próximos dias, cada um desses fatores.

A Democracia Norte-Americana em Questão II – O Declínio do Capital Social

Existem evidências persistentes de declínio do capital social no país nos últimos 25 anos, constatadas em estudo de Robert Putnam – “Bowling Alone”. Alguns exemplos: o atendimento a encontros de associações e clubes reduziu-se em 58% nesse período; a realização de jantares familiares baixou 33%; as visitas entre amigos cairam 45%. Entre os fatores que estão contribuindo para esse declínio, destaca-se o aumento do tempo dedicado ao deslocamento casa-trabalho, uma vez que cada 10 minutos representam menos 10% de participação cívica, segundo Putnam. Contribui muito também o tempo dedicado a ver televisão e o fato de que hoje pai e mãe na família acabam tendo que trabalhar para assegurar um padrão de vida decente. A análise amplamente reconhecida de Putnam associa o declínio do capital social com o declínio da vitalidade democrática dos Estados Unidos.

8 de novembro de 2008

Onze De Setembro, Wall Street E Barack Obama

Há uma expectativa positiva generalizada com relação ao Presidente Eleito. Ontem estive caminhando por Wall Street, passei pela Bolsa de Valores de Nova York, fui visitar o Site do World Trade Center e o museu que recorda a destruição, as vítimas e os atos heróicos de solidariedade no 11 de setembro de 2001 e nos dias que se seguiram. É impressionante que em menos de uma década, nesse início de século XXI, o mundo experimentou mudanças inimagináveis. Quem haveria de prever o ataque terrorista às torres gêmeas? E, agora, a mais profunda crise econômica desde a grande depressão do século passado? E, simultaneamente, a eleição de um afro-americano para a presidência dos Estados Unidos? São três acontecimentos interelacionados, que estão mudando a face da política e da economia mundiais. Com absoluta certeza, a eleição de Obama só foi possível devido aos equívocos que o governo Bush cometeu após o 11 de setembro de 2001, somados à gravíssima crise financeira que derreteu Wall Street a partir de setembro desse ano. Sobre as costas de Obama, portanto, pesam dois complexos desafios: alterar a equivocada política externa norte-americana e superar uma recessão econômica que está produzindo milhões de desempregados.
















Os Primeiros Dias De Obama Presidente Eleito

Por todos os lados só se fala dos esforços adicionais que precisam ser feitos para combater o agravamento da recessão econômica, que alcança escala mundial. O Federal Reserve reduziu a taxa básica de juros de 1,5% para 1,0%, iniciativa seguida também por diversos países europeus. O governo dos Estados Unidos destina 50 bilhões de dólares dos 700 bilhões do pacote de socorro ao sistema financeiro para dar em garantia de empréstimos habitacionais e, assim, reduzir a velocidade do confisco de casas de familias que não conseguem pagar seus financiamentos. O Partido Democrata anuncia um pacote de medidas, totalizando 100 bilhões em gastos governamentais, que deverá ser aprovado ainda neste mês de novembro, para tentar reativar a economia. Enquanto isso, as informações indicam um aprofundamento da recessão em todos os principais setores da economia. Está ocorrendo um colapso nas vendas. Os números do desemprego, anunciados ontem, são estarrecedores: 240 mil novos desempregados no mês de outubro, o maior número em um único mês nos últimos quatorze anos. 600 mil trabalhadores perderam seus empregos nos últimos quatro meses e 1,2 milhão no último ano. Até assumir o novo governo no dia 20 de janeiro do próximo ano, estima-se que mais 500 mil trabalhadores terão perdido seus empregos.

As Relações Políticas Começam A Mudar

O Presidente Bush convidou o Presidente Eleito para um encontro na próxima segunda-feira, para estabelecer as bases de uma transição tranquila, que se faz ainda mais necessária numa época de crise e de guerras, conforme afirmou o atual Presidente. As relações políticas internacionais também começam a mudar. O Presidente do Iran enviou uma carta ao Presidente eleito Barack Obama, após 30 anos sem relações diplomáticas entre os dois países, manifestando sua expectativa de mudança na política exterior dos Estados Unidos, passando a respeitar a autodeterminação de cada país. Os dirigentes do governo do Iraque manifestaram sua confiança de que agora o calendário de retirada das tropas norte-americanas do país será cumprido.

Primeiras Diretrizes Do Presidente Eleito

Presidente eleito anunciou ontem as prioridades de sua agenda econômica: um plano de socorro para a classe média, incluindo benefícios do seguro-desemprego; medidas de reativação da economia e de apoio a setores em extrema dificuldade, como o automobilístico, para conter a extensão da crise de finaceira; enfrentar a crise financeira global com medidas globais, articuladas entre todos os países, sem deixar de considerar as famílias que estão sendo despejadas de suas casas; começar a implementar as propostas de campanha nas áreas de energia, assitência a saúde, educação e impostos. Obama reiterou que “algumas escolhas serão difíceis, que não será rápido nem fácil enfrentar a crise ecoômica, e que é hora de colocar as diferenças de lado e trabalharmos como uma única Nação para superar nossas dificuldades”.

Mister President Barack Obama

Recebi este insight sobre a eleição de Obama, que merece ser publicado na íntegra.

“Eu vi, eu estava na rua, eu caminhei entre eles, passei por suas cidades, estados, eu os vi trabalhando como voluntários, eu os vi abnegados mas sem alarde, sem crenças profundas de vitória. Era como se admitir ganhar fosse perder. Eu vi cada negro destes restaurantes, escolas, lojas, supermercados, com uma esperança transcendente, quase uma luz num olhar distante. Quase impessoal, cansados, não estavam mais aqui, estavam distantes num trágico passado. No entanto, quando o último voto foi depositado na urna, eles sabiam, pelo comparecimento massivo, que tinha-se enfim um resultado.E a nação poderosa e branca, desmanchou-se em lágrimas, e as bocas caladas gritaram, falaram, e os corações há tanto contidos, explodiram. Do Harlem ao Alabama, de Nevada a Chicago, o país todo reverenciou um negro, agora Mister President Barack Obama.”


Em pleno Rockefeller Center, aqui em Nova York, encontrei duas afro-americanas, Raven Dove e uma amiga, que me confirmaram esse sentimento de temor e contenção que tomou conta dos afro-americanos durante a campanha de Obama, e que explodiu em alegria e emoção quando os resultados indicaram a sua eleição.

7 de novembro de 2008

Inovações Na Campanha De Obama

As eleições deste ano transformaram a disputa em campanhas eleitorais, um legado que será analisado por vários anos , e que será um marco para as eleições no futuro. Segundo o jornal New York Times, “as eleições reescreveram a forma de chegar aos eleitores, levantar recursos, organizar apoiadores, geranciar a midia, acompanhar e moldar a opinião pública, e levantar e sustentar ataques políticos, inclusive muitos feitos através de blogs, que não existiam há quatro anos atrás”. A campanha desse ano utilizou a internet de maneiras nunca antes imaginadas. “Entramos numa velocidade enlouquecida, os paradigmas foram transformados e se tornaram verdadeiramente de baixo para cima e não de cima para baixo”, disse Mark McKinnon, assessor senior das campanhas de Bush em 2000 e 2004. Essas transformações resultaram basicamente da forma como a campanha de Obama conseguiu compreender e utilizar-se da internet para organizar uma imensa rede de apoiadores, e chegar aos eleitores que não dependem principalmente dos meios tradicionais de informação, como jornais e televisão.

O Sucesso Da Arrecadação De Recursos Pela Internet

As novas plataformas de comunicação incluem o Youtube, que não existia na campanha presidencial de 2004, e as mensagens de texto por telefone celular, que os eleitores receberam nessa segunda –feira, véspera do dia da eleição, lembrando-os para votar. Mas a inovação mais crucial desta campanha , e que mudará a política daqui para a frente, é o sucesso de Obama em usar a internet para mobilizar uma imensa rede de doadores de recursos, que lhe permitiu levantar dinheiro suficiente para expandir o mapa eleitoral dos democratas e competir em estados tradicionalmente republicanos. Os resultados alcançados com esse novo método de financiamento ameaçam sepultar uma das principais reformas políticas da era Watergate, que é o financiamento público de campanhas. Obama abriu mão de utilizar dinheiro do sistema de financiamento público, e assim não precisou submeter-se às restrições impostas pela legislação eleitoral, podendo decidir com mais liberdade onde aplicar os recursos arrecadados.

Uma Nova Forma De Financiamento De Campanhas

Enquanto no Brasil estamos discutindo a introdução do financiamento público de campanhas na reforma política, a grande inovação produzida pelas eleições aqui nos Estados Unidos é um novo tipo de financiamento, muito mais democrático, e com maior fundamento ético. Trata-se do financiamento de campanhas pelos próprios eleitores, baseado em pequenas contribuições voluntárias de milhões de doadores, que o fazem como ato de vontade para respaldar e tornar viável a campanha do candidato no qual depositam sua confiança, e querem que vença as eleições, para que possa colocar em prática suas propostas políticas. Segundo analistas, essa inovação da campanha de Obama aniquilou o sistema público de financiamento existente nos Estados Unidos.

Mudança Cultural Nos Eleitores

Na verdade, estamos vivendo um processo de profundas transformações na forma como as campanhas eleitorais são feitas. E essas mudanças, materializadas na campanha de Obama, refletem, por sua vez, uma mudança cultural nos eleitores, produzindo uma audiência que é ao mesmo tempo mais bem informada, mais cética, e, através da leitura de blogs, muitas vezes conferindo rumores e informações suspeitas. “Esses novos eleitores estão policiando as campanhas”, afirma David Plouffe, coordenador da campanha de Obama. Entre as mudanças mais importantes desse ano está o intenso e novo interesse pela política, que se expressou no registro de novos eleitores, aumento do voto antecipado, e presença nos comícios de Obama. Entretanto, “sem um candidato que emociona e mobiliza as pessoas, você pode ter a melhor estratégia e organização, que elas não vão funcionar”, conclui Plouffe.

Universidades E Cidadania

Tive a oportunidade de participar de um seminário sobre a implantação da metodologia da “Deliberative Polling” (Pesquisa Deliberativa) com professores e funcionários administrativos de 17 universidades públicas norte-americanas. O encontro foi coordenado pelo professor George Mahaffy, dirigente da Associação Americana de Universidades e Faculdades Púbicas (AASCU), e ocorreu na Universidade de Stanford, que é privada, mas parceira da iniciativa, através do Centro pela Democracia Deliberativa. O professor George Mahaffy dirige o Projeto Democracia Americana, do qual fazem parte 1,6 milhões de alunos e 230 faculdades e universidades das 400 que compõem a AASCU. Seu objetivo é que o desenvolvimento de cidadãos bem informados e engajados seja o imperativo da educação superior no país.

Aperfeiçoamento da Democracia


Para John Dewey, um filósofo norte-americano que nas décadas de 20 e 30 do século passado escreveu importantes contribuições para o aperfeiçoamento da democracia – ver, por exemplo, Democracia Cooperativa, Escritos Políticos de John Dewey (1927-1939), organizado por Augusto de Franco e Thamy Pogrebinschi, EdiPUCRS, Porto Alegre, 2008 e lançado na Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento de Cidades –, “o problema... é que nós tomamos nossa democracia como definitiva, viemos pensando e agindo como se nossos antepassados a tivessem instituído para sempre. Nós esquecemos que ela tem que ser renovada em cada geração”. Para o Projeto Democracia Americana, o propósito público mais importante das universidades é preparar a próxima geração de cidadãos ativos e engajados, para manter viva a democracia.


Saúde Cívica em Declínio


Segundo o “Civic Health Index” (Índice de Saúde Cívica), a saúde cívica do país apresenta forte declínio nos últimos 30 anos. Há evidências de contínua queda em indicadores tais como confiança em outras pessoas e nível de contribuições humanitárias. Um seminário realizado para avaliar esses indicadores concluiu que “sem os fortes hábitos de participação social e política, os Estados Unidos estão em risco de perder as próprias normas, redes e instituições da vida cívica que nos fizeram a nação mais reconhecida e respeitada da história”. Por outro lado, a Comissão Nacional de Renovação Cívica afirmou gravemente que “os Estados Unidos estão se tornando uma nação de espectadores”. Uma pesquisa do New York Times e CBS News desse ano constatou que 81% dos americanos acreditam que “as coisas estão se encaminhando muito seriamente para rumos equivocados”, contra 60% um ano atrás e 35% em 2002. Hoje, 46% dos pais esperam que seus filhos tenham melhor nível de vida que eles, contra 56% em 2005.


Comprometimento da Universidade e dos Professores


Segundo o professor George Mahaffy, é difícil imaginar uma universidade comprometida com resultados cívicos para seus estudantes, que não seja também comprometida com sua comunidade. O engajamento cívico passa por trabalhar para fazer a diferença na vida cívica das comunidades. Desenvolver a combinação de conhecimento, habilidades, valores e motivação para fazer a diferença. Promover a qualidade de vida na comunidade, através de processos políticos e sociais. O papel dos professores é decisivo, mostrando a dimensão de política pública de suas disciplinas. Tratando a sala de aula como espaço público, praticar a pedagogia do engajamento dos estudantes, considerando comunidade, em primeiro lugar, o campus universitário, e, em segundo lugar, o entorno onde a universidade está inserida. Os professores devem também ser explícitos sobre o foco cívico de suas disciplinas, medir os resultados do engajamento cívico e ajudar a definir a intencionalidade cívica de sua instituição universitária.

6 de novembro de 2008

Conselho De Soluções Cidadãs

A ONG Citizens Solutions – http://www.citizensolutions.tv/ , liderado por Barbara Max Hubbard , cujo lema é “comunicando o que funciona para a América”, está promovendo um movimento nacional pela constituição de um “Citizens Solutions Council” (Conselho de Soluções Cidadãs) vinculado a Presidência dos Estados Unidos.O endereço da campanha de mobilização é http://www.citizenssolutionscouncil.net/ . É uma iniciativa inovadora que contribui para o fortalecimento de uma nova cultura política, praticada na base da sociedade e nas relações entre as pessoas comuns, e que identifique, conecte, comunique e ajude a construir nacionalmente soluções para problemas concretos que cidadãos e sociedade civil já estão conseguindo resolver nas suas comunidades. De acordo com a proposta, por todos os lados observa-se os sistemas fracassarem e ainda assim é também verdade que em todos os campos e funções há soluções bem sucedidas, inovações e projetos que funcionam. Mas essas soluções não são amplamente conhecidas e conectadas.

Espaço de Compartilhamento de Boas Práticas


O Conselho de Soluções Cidadãs será um espaço de compartilhamento de projetos que já estão funcionando bem em áreas como educação, saúde, meio-ambiente, energia e economia. O Conselho proporcionará também um papel participativo para os cidadãos identificarem soluções, aumentar o seu engajamento cívico e cultivar maior conexão entre a criatividade cidadã e o processo governamental. Um benefício chave da proposta é seu amplo reconhecimento e apoio entre Democratas, Independentes e Republicanos, contribuindo para que avancemos do partidarismo para as parcerias. Adicionalmente, o Conselho identificará oportunidades de colaboração entre o poder público, a iniciativa privada e o setor não-governamental. Ele é um caminho para um futuro colaborativo, para uma democracia voltada para os cidadãos e suas comunidades, que supere a política institucional que hoje se pratica, centrada na disputa pelo poder por partidos políticos adversários.

Movimento MoveOn Celebra Vitória De Obama

O Movimwento MoveOn - http://www.moveon.org/ - foi um dos grandes responsáveis pela mobilização de voluntários para trabalhar na campanha de Obama. Dele participam cerca de 4 milhões de pessoas espalhadas por todos os recantos dos Estados Unidos. É um movimento de ação política e cidadã, que se dedica a mobilizar pessoas para causas progressistas. Tive a oportunidade de participar de muitos eventos de mobilização de vizinhos em favor da eleição de Obama, organizados pelo MoveON e postados nesse blog nos últimos meses. A campanha de Obama conseguiu promover um fabuloso movimento de mobilização de pessoas voluntárias , utilizando os recursos hoje proporcionados pela internet, não só para convencer mais e mais pessoas a votar e engajar-se na política, como também a contribuir financeiramente para viabilizar a campanha. Dessa forma, conseguiu levantar recursos superiores a 300 milhões de dólares em pequenas contribuições, inaugurando uma nova forma de financiamento de campanhas, que colocou em cheque tanto o financiamento público hoje vigente aqui, como o financiamento privado que vigora no Brasil.

5 de novembro de 2008

Carta De Barack Obama, Como Presidente Eleito

Cezar --
I'm about to head to Grant Park to talk to everyone gathered there, but I wanted to write to you first.
We just made history.
And I don't want you to forget how we did it.
You made history every single day during this campaign
-- every day you knocked on doors, made a donation, or talked to your family, friends, and neighbors about why you believe it's time for change.
I want to thank all of you who gave your time, talent, and passion to this campaign.
We have a lot of work to do to get our country back on track, and I'll be in touch soon about what comes next.
But I want to be very clear about one thing...
All of this happened because of you.
Thank you,
Barack

Barack Obama, Primeiro Presidente Afro-Americano Da História Dos Estados Unidos

Confirmou-se o prognóstico de todas as pesquisas. Os norte-americanos elegeram ontem o primeiro presidente afro-americano da história dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama Jr. Foi uma vitória que se espalhou por todos os quadrantes do país, inclusive alcançando estados tradicionalmente republicanos, como Virginia, Ohio, Pensylvania, New Mexico e Nevada. No Estado de Nevada, onde trabalhei como voluntário de campanha durante um fim de semana, Obama venceu por 60% a 38%. Um resultado desses, num estado tradicionalmente republicano, só pode ser alcançado devido a um enorme trabalho de visitação porta –a – porta e de telefonemas a cada um de seus eleitores, feito por milhares de voluntarios, que se deslocaram da California durante todos os finais de semana dos últimos meses.

McCain e Obama Falam Para Os Norte-Americanos

As onze horas da noite, no horario de costa leste do país, a rede CNN anunicou que Obama havia atingido o mínimo de 270 votos do colégio eleitoral necessários para ser eleito presidente. Manifestações de alegria e emoção eclodiram por todos os lados do país e, inclusive, em praticamente todo o mundo. Poucos minutos depois, o candidato republicano, JohnMcCain, faz um pronunciamnto muito elegante e respeitoso, reconhecendo a derrota e já chamando Obama de seu Presidente. Passados mais alguns minutos, e Barack Obama aparece perante uma multidão no Grant Park em Chicago, onde faz seu primeiro pronunciamento como presidente eleito dos Estados Unidos. Depois de revelar o telefonema que recebeu de McCain, e de agradecer a seu vice Joe Biden, a seu coordenador de campanha, David Plouffe, a seu chefe de estratégia David Axelrud, “que idealizaram e realizaram a melhor campanha da história”, Obama dirigiu-se a multidão e afirmou que “essa vitoria pertence a vocës, é a sua vitória”.

Obama Conclama A União Para A Democracia E A Paz

Destacou os desafios que terá que enfrentar, as guerras do Iraque e Afeganistão, a maior crise econömica dos últimos cem anos, e um mundo em perigo pelo aquecimento climático, e sentenciou, “eu lhes prometo, nós como povo chegaremos lá”. Com humildade e determinação para curar as feridas abertas do país, lembrou Abrahan Lincoln, um republicano, para dizer que pretende ser também presidente dos republicanos, porque “não somos inimigos, somos amigos, não somos democratas, nem republicanos, nem independentes, somos os Estados Unidos da América”. Resgatou os valores fundantes da nação, a democracia, a liberdade, oporturnidades para todos, e a esperança no futuro, para dizer que essa é a verdadeira alma da Nação, e não o poder militar ou a riqueza. Essa eleição é a prova de que “Yes we can” (Sim nós podemos) resgatar o sonho americano, que essa é uma terra de oportunidades, que a nossa luta histórica não tem sido em vão, que juntos vamos construir a paz, mudar os Estados Unidos e mudar o mundo, afirmou o proimeiro presidente afro-americano da Nação mais poderosa do planeta. No meio da multidão, Jesse Jackson, emocionado e em lágrimas, junto com outras personalidades, testemunou esse monento de fazer história. É uma estrondosa vitória de todos aqueles que lutamos pela democracia e pela paz como caminhos para enfrentar e resolver os graves problemas com que se defronta a humanidade nesse século XXI.

4 de novembro de 2008

4 De Novembro, Dia De Fazer História

Estou em Nova York. Hoje é o dia da decisão: Obama ou McCain será o próximo Presidente dos Estados Unidos, depois da mais longa campanha presidencial na história do país. O cenário não poderia ser mais apropriado. O Times Square, esquina da Sétima Avenida com a rua 42, é pura efervescëncia, e os enormes backlights nos prédios quase arranham o céu. São imagens em tempo real dos candidatos nos seus últimos compromissos de campanha. Todos, entre eles eu, voltamos nossos olhares para o alto e o espetáculo é singular. Todos os jornais, canais de televisão, rádios, milhões de sites e blogs na internet, dedicam-se a especular sobre os resultados de hoje e sobre o futuro. Há muita preocupação entre os norte-americanos, mas também muita expectativa e interesse. Espera-se um comparecimento ‘as urnas sem precedentes. Cerca de uma terça parte dos eleitores já votaram por antecipação, 50% mais do que em eleições anteriores. Todas as pesquisas, inclusive aquelas feitas entre eleitores que já exerceram seu direito de voto, prognosticam a vitória de Obama. Há também a expectativa de vitória democrata também para o Congresso. Mas há denúcias de irregularidades, há preocupação com a contagem dos votos, há ainda o temor de que, na intimidade da urna, muitos eleitores acabarão não votando num afro-americano. E sente-se também no ar a preocupação de que, eleito Obama, corre-se o perigo de seu assassinato, neste caso numa trágica repetição da história.


Disputa Entre Os Apoiadores De Obama E McCain


Caminhava no Times Square quando, sem querer, acabei testemunhando uma briga entre apoiadores de McCain e de Obama. Trës apoiadores de McCain faziam uma ruidosa manifestação no canteiro central do Times Square. Começaram a juntar-se pessoas pró-Obama espontaneamente e contestar com palavras e pequenos cartazes improvisados. A discussão acabou em briga, que exigiu a intervenção da polícia. O que mais chamou-me a atenção foi o fato de que, enquanto do lado de McCain permaneceram apenas as mesmas trës pessoas iniciais, na turma de Obama aglomerou-se uma pequena multidão, entre jovens, mulheres, bancos, afro-americanos, estrangeiros, entre os quais acabei impelido a juntar-me, solidariamente. A cidade de Nova York parece estar claramente inclinada para o voto democrata, como a maior parte dos Estados Unidos, inclusive entre os chamados Estados críticos, nos quais a disputa presidencial tem sido historicamente apertada.


Crise Econömica E Guerra do Iraque Na Agenda Presidencial


Todos os indicadores apontam para um agravamento da recessão econömica. Noticias de fechamento de empresas, de demissão de trabalhadores, de redução dos niveis de consumo das familias, de temor quanto ao futuro, estão por todos os lados. Há uma avaliação crítica sobre a capacidade do futuro presidente, seja ele Obama ou McCain, colocar em prática o programa de governo que defendeu na campanha, devido às enormes dificuldades que o país terá para aumentar seu déficit fiscal. Ainda mais porque os próximos anos deverão apresentar crescimento econömico muito baixo, com a possibilidade de taxas inclusive negativas, o que por si só deverá agravar a situação deficitária do orçamanto público do país. Por outro lado, o próximo presidente herdará um país em guerra, o que torna a transição e a forma de resolução do conflito uma segunda questão crucial da agenda presidencial.

3 de novembro de 2008

Barack Obama E O Sonho Americano

Numa recente entrevista, o ex-presidente Clinton afirmou que a candidatura Obama é hoje a melhor alternativa para restaurar o sonho americano. Quais seriam as possíveis razões dessa expectativa tão ousada? Tento responder. O fato de suas posições estarem à esquerda da média do Partido Democrata, de ser um candidato que começou na militância em comunidades pobres de Chicago, de ser um negro com discurso pós-racista, de aparecer como alternativa à velha política de Washington, pois sua militância na política tradicional é recente, por ser um orador que consegue falar para o coração das pessoas e despertar um novo idealismo nas novas gerações. Obama consegue também expressar os valores mais profundos dos fundadores da nação – justiça, honestidade, sacrifício, responsabilidade, fé, família - e uma visão estratégica, capaz de olhar para os anos futuros como fundamentais para viabilizar direitos iguais para todos e novas oportunidades de ascensão social, e um mundo mais integrado e pacífico. As últimas semanas de aprofundamento da crise econômica parecem vir a reforçar essa expectativa com relação ao candidato democrata. “Não há nenhuma razão para que o século XXI não seja também um século americano”, tem afirmado reiteradamente Barack Obama.

2 de novembro de 2008

Chicago Acolhedora E Deslumbrante

Estou em Chicago, Estado de Illinois,visitando meu irmão norte-americano Barry Johnson e seu filho Ben, pessoas muito queridas e especiais para mim. Morei com a familia de Barry, como estudante de intercambio internacional, na minha adolescência, há exatos trinta e nove anos atrás, na cidade de Sterling, há cerca de 160 quilömetros daqui. Naquela época visitei várias vezes Chicago, em passeio com minha familia norte-americana. Desde então, mantenho uma bonita relação de afeto e amizade com os Johnsons. Acompanhado de Barry e Ben, revi Chicago numa noite deslumbrante a partir do andar 96 da Torre John Hancock, passiei pelas obras de arte do Parque Millenium e visitei o Parque Grant, onde Obama reunirá seus apoiadores nesta terça-feira, dia 4 de Novembro. Ontem era dia de Holloween e vi a cidade enfeitada e muitas pessoas fantasiadas com trajes comemorativos, com máscaras e vestimentas sempre relacionadas com abóboras e caveiras. É outono aqui, e as ruas, parques e terrenos das casas recebem o colorido maravilhoso das árvores e das folhas no chão.














Visita Ao Comitë Central Da Campanha De Obama

Nessa visita a Chicago, realizei um sonho que acalentei desde que saí do Brasil. Chicago é a cidade onde Obama começou sua vida pública, como organizador comunitário, depois Senador Estadual, até chegar ao Senado Federal, quando candidatou-se a presidente dos Estados Unidos. Fui visitar o comitë central da campanha de Obama, onde fui recebido pelo diretor da campanha no Estado, Ken Bennett, e pela coordenadora do trabalho voluntario da campanha, Ann Kalayil. A conversa foi rápida, porque o trabalho no comitë é enlouquecedor nesses dias que antecedem a eleição. Mas valeu pelo significado de compartilhar alguns minutos da emoção que toma conta de todos, com a possibilidade de eleger o primeiro africano-americano presidente, com uma plataforma de mudanças econömicas e sociais e de renovação da política nos Estados Unidos.