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31 de outubro de 2008

Revolução Tecnológica Na Área De Energia

A presidente do MIT (Massachussets Institute of Technology), Susan Hockfield, considera que os Estados Unidos estão atados num nó triplo: uma economia frágil, afetada por preços de energia voláteis; uma política mundial sobrecarregada pelos temas do consumo de energia e a segurança; e uma crescente evidência de aquecimento global. “Eu acredito que nós podemos atacar todos os três problemas de uma só vez com novos investimentos federais intensivos em pesquisa aplicada e desenvolvimento sobre energia. Se um avanço concreto pode transformar as perspectivas para os Estados Unidos, esse seria o acesso firme, em grande escala, a um conjunto de tecnologias em energia, viável, renovável e com baixo teor de carbono – desde energia eólica e solar em grande escala, até energia nuclear segura.” Susan Hockfiel enfatiza que, enquanto a indústria farmacêutica investe 18% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento, e a indústria de semicondutores 16%, as empresas de energia investem menos do 0,25%. “Com esse padrão de investimento, nós não podemos esperar uma revolução tecnológica na área da energia.” O Conselho de Competitividade e muitos especialistas recomendam que o gasto federal em pesquisa em energia deveria subir até dez vezes os níveis atuais. “Eu acredito que nós estamos à beira de uma revolução tecnológica global na área da energia. Os Estados Unidos liderarão esse processo e receberão as recompensas por isso? Ou nós cedemos essa vantagem a outros países com mais visão?”

Mudança Do Modelo Energético E A Campanha Presidencial

A mudança no modelo energético é um dos temas centrais dos programas de governo dos candidatos à presidência dos Estados Unidos. O tema saiu do centro da campanha eleitoral nas últimas semanas, depois que estourou a crise financeira em Wall Street, mas não deixa de ser decisivo para o futuro. McCain propõe a ampliação da exploração das reservas de petróleo existentes na costa dos Estados Unidos, complementada com novas fontes de energia, com ênfase na energia nuclear. Obama vê na implantação de um novo modelo, baseado em fontes de energia limpa, a possibilidade de os Estados Unidos alcançarem a independência do petróleo importado do Oriente Médio em dez anos, com a geração de 5 milhões de novos empregos no país. Desse modo, os Estados Unidos também dariam uma significativa contribuição para a redução do aquecimento global. O chamado sistema “cap-and-trade” (de limite e comércio de emissões de carbono) poderia ser o estilo de política governamental capaz de promover essa transição. A essa política de incentivos, o candidato democrata propõe um maior volume de investimentos em energias alternativas, tipo solar, eólica e biodiesel, que poderá chegar a 150 bilhões de dólares. Quanto ao etanol, o caminho proposto é transitar do etanol a base de milho – que “contribui para aumentar a crise de alimentos no mundo” – para o etanol a base de celulose.

Novas Fontes de Energia, Nova Economia, Nova Sociedade

Enquanto isso, acordo selado entre republicanos e democratas possibilitou a recente aprovação pelo Congresso norte-americano de lei que autoriza a perfuração de poços de petróleo na costa dos Estados Unidos, numa distancia mínima de 50 milhas da costa, com autorização dos estados federados. A polêmica da perfuração da costa faz parte do debate sobre o aumento do preço da gasolina e a dependência de petróleo importado. Os Estados Unidos produzem 3%, entretanto consomem 25% do petróleo do mundo. A iniciativa privada corre na frente e começa a criar alternativas comerciais ao petróleo. A GM acaba de anunciar a construção do Volt, seu primeiro carro elétrico comercial, previsto para estar disponível no mercado em 2010. Aqui em San Jose, capital do Vale do Silício, a empresa Tesla Motors acaba de anunciar a construção de uma fábrica para a produção de um carro elétrico, cuja comercialização também está prevista para meados de 2011. Sob a liderança dos Estados Unidos, é provável que tenha curso nos próximos anos uma mudança na matriz energética do mundo, na qual o petróleo será progressivamente substituído por fontes renováveis de energia, com menor teor de carbono. Essa mudança poderá mudar significativamente a configuração da sociedade humana e da sua relação com a natureza a escala mundial, que foram edificadas sobre a base da extração e consumo de petróleo no último século.

Peculiaridades Da Democracia Norte-Americana - IV

Há ainda outras peculiaridades que diferenciam o modelo de democracia norte-americana. O dia das eleições para Presidente e para o Congresso é sempre a primeira terça-feira do mês de novembro, e não é um feriado nacional. Ou seja, as pessoas terão que sair de seu trabalho, ou de seus afazeres normais de um dia útil, para dirigir-se ao local de votação e votar. Isso, evidentemente, desestimula o comparecimento. Os Estados Unidos tem um dos mais baixos índices de comparecimento às urnas de todas os países democráticos do mundo.Mesmo em eleições presidenciais, somente cerca de metade dos cidadãos com direito a voto comparecem às urnas. Para amenizar esse problema, é permitido votar por correspondência em vários Estados e, a cada ano, um percentual maior de eleitores utiliza essa prerrogativa. A legislação de alguns Estados permite também o voto antecipado, ou seja, o eleitor pode começar a votar para Presidente e para o Congresso antes do dia nacional das eleições. Como outros Estados não permitem o voto por correspondência ou o voto antecipado, cria-se uma situação injusta, porque se torna mais difícil para alguns eleitores votar do que para outros. A legislação estadual é também diferenciada quanto ao registro de eleitores. Alguns Estados permitem o registro até no próprio dia da eleição, enquanto outros exigem o registro com pelo menos algumas semanas de antecedência. Há também diferentes legislações estaduais quanto ao voto dos apenados e encarcerados. 48 dos 50 Estados não permitem o voto dos presidiários, e a maioria dos Estados proíbem o voto de criminosos que se encontram em liberdade condicional.

30 de outubro de 2008

Todos Os Caminhos Convergem Para Obama

Durante vinte e sete minutos, Barack Obama apresentou-se hoje a noite perante os norte-americanos, atraves dos principais canais de televisao. Um programa carregado de emocao, com hist'orias de familias que lutam para pagar suas casas, vender bens para poder fazer seus tratamentos de saude, lutar para sobreviver tendo pai e mae perdido o emprego. Um pai de familia ter que voltar a trabalhar aos 72 anos, para ter direito a assistencia a saude. Um programa apontando para o futuro, com propostas para a economia voltar a gerar oportunidades de trabalho, redistribuir a carga de impostos para beneficiar as classes medias e os mais pobres, assegurar assistencia a saude e aposentadoria digna para todos, retirar as tropas do Iraque e redirecionar os recursos para investir na area social e na infraestrutura do pais. Um programa voltado para o entendimento e a uniao entre todos os norte-americanos, africano-americanos, latino-americanos, asiatico-americanos, europeu-americanos, homens, mulheres, jovens, velhos, criancas, republicanos, democratas, independentes. Um programa politicamente forte, com um depoimento envolvente do candidato a Vice, Joe Biden, alem de depoimentos de apoio dos governadores de varios Estados criticos para a disputa presidencial, como Virginia, Ohio, Missouri, New Mexico e Kansas. Um programa que mostra o carisma de um homem inspirador, transcendente, e a energia de um transformador, que toca a essencia humana e desperta nossa esperanca de que e possivel, sim, sonhar com um mundo melhor. Um programa, enfim, com forma e conteudo a altura do futuro presidente dos Estados Unidos .


Transcrevo suas palavras finais na integra:

"Lembro-me todos os dias que nao sou um homem perfeito. Que nao serei um presidente perfeito. Mas prometo-lhes que sempre falarei o que penso e sinto, sempre serei honesto sobre os desafios que devemos enfrentar. Sempre ouvirei voces quando estivermos discordando. E, mais importante, abrirei as portas do governo e pedirei a voces para envoverem-se novamente em nossa democracia."

A Google é Aqui

No ano de seu décimo aniversário, tive a oportunidade de visitar a sede mundial da Google, que fica aqui em Montain View, no Vale do Silício, Califórnia, onde estou morando. Sempre chamou-me a atenção o caráter despojado da empresa, e as condições de trabalho diferenciadas de seus mais de 20 mil funcionários. A hierarquia na empresa é mínima e a liberdade de trabalho estimula cada funcionário a ter grande impacto no desenvolvimento da empresa. Conversei longamente com um “googler” (trabalhador da Google), Bob Mohan, gestor sênior da área de finanças. Bob não tem horário fixo, trabalha por projetos e prazos, e com isso consegue organizar com mais liberdade sua agenda de vida. No dia de nossa conversa, por exemplo, Bob aproveitou o calor e foi cedo surfar em Santa Cruz, uma cidade costeira a 45 minutos daqui. Com isso, começou sua jornada de trabalho mais tarde, pelas 10:30 da manhã. Bob confirmou-me que esse novo modo de trabalhar aumenta muito sua satisfação e permite maior realização pessoal.









































Liberdade, Diversidade, Inovação e Integração Com A Natureza

Vi outros “googlers” jogando vôlei, brincando com seus cachorros, conversando animadamente em pleno horário de trabalho. A quase totalidade deles são muito jovens, manifestando grande diversidade étnica e cultural. Os “googlers” podem dedicar 20% de seu tempo de trabalho em projetos próprios. Foi nesse tempo “livre” que nasceu a rede social “Orkut”. A palavra de ordem é valorizar o ser humano, criar um ambiente de liberdade, que estimula a criatividade, a inovação e o desenvolvimento pessoal e da própria empresa. Chamou-me também a atenção a integração com a natureza. Alguns dos jardins da empresa são hortas com plantação de verduras e flores, numa parceria com a Universidade da Califórnia. Num dos jardins, há uma placa onde lê-se: “A crescente conexão: cultivando alimentos, conectando mentes, colhendo esperanças”. Apesar das críticas que tem recebido sobre demasiada concentração de poder, há unanimidade sobre a contribuição da Google para democratizar o acesso à informação.

Peculiaridades Da Democracia Norte-Americana - III

Mas as diferenças vão mais longe. É normal que cada órgão de imprensa assuma publicamente suas preferências eleitorais e faça campanha aberta para seus candidatos. O jornal Washington Post, por exemplo, faz campanha aberta para Barack Obama, e há pouco fez um longo editorial explicitando as razões pelas quais acha que Obama, e não McCain, deve ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. O mesmo acaba de fazer o jornal New York Times. A rede de televisão Fox News faz campanha aberta para John McCain. Aqui na região do Vale do Silício, um editorial do jornal San Jose Mercury News dessa semana explicita porque os eleitores devem votar na candidata democrata Rose Herrera, e não na candidata republicana Patrick Waite, para preencher uma vaga na Câmara de Vereadores da cidade de San Jose, que estará em disputa nas eleições de novembro. E uma outra diferença importante chama a atenção. O Presidente dos Estados Unidos tem a prerrogativa de nomear juízes nas cortes de justiça federal em todos os graus, desde as regionais até a Suprema Corte, influenciando, dessa maneira, de modo decisivo, a orientação ideológica dos colegiados de juízes federais do país. A influência do próximo Presidente eleito será tão grande que, segundo os analistas, deverá alterar a orientação global do Poder Judiciário Federal. Um colegiado de juízes de orientação republicana toma decisões de conteúdo geralmente diferente, em questões críticas, de um colegiado de juízes de orientação democrata. Um exemplo hoje muito polêmico: autorização ou não de casamento de pessoas do mesmo sexo.

29 de outubro de 2008

Em Uma Semana

Obama acaba de proferir um discurso forte, uma síntese de sua visão e de suas propostas, a uma semana do dia das eleições. Foi na cidade de Canton, Ohio, um dos estados críticos da disputa presidencial. Transcrevo abaixo seu conteúdo, em tradução livre:

“Não acreditem por um segundo que esta eleição está terminada. Não acreditem por um minuto que o poder vai nos ser concedido. Temos muito trabalho a fazer.
Temos que trabalhar como se o futuro dependesse dessa última semana. Porque o futuro depende dessa última semana.
Em uma semana, nós podemos escolher uma economia que valoriza o trabalho, cria novos empregos e gera prosperidade de baixo para cima.
Em uma semana, nós podemos escolher investir em assistência à saúde para nossas famílias, em educação para nossos filhos, em energia renovável para nosso futuro.
Em uma semana, nós podemos escolher a esperança em vez do medo, a unidade em vez da divisão, e o poder da mudança em vez do poder do status quo.
Em uma semana, nós podemos nos unir como uma Nação, e como um povo, e fazer uma escolha inteligente para nossa história.
É isso que está em jogo. É isso pelo qual lutamos.
Nessa última semana, vocês vão bater de porta em porta por mim, fazer chamadas telefônicas por mim, falar com seus vizinhos, e convencer seus amigos.
E se vocês me apoiarem, lutarem por mim, e me derem seu voto, prometo-lhes que nós não só ganharemos uma disputa, nós venceremos as eleições gerais e, juntos, mudaremos esse país e mudaremos o mundo.
Deus os abençoe.
Deus abençoe dos Estados Unidos da América.
Vamos ao trabalho.”

Washington E Brasília

Tanto Obama como McCain dizem que é preciso mudar o jeito de trabalhar de Washington, a capital política dos Estados Unidos. Que o jeito atual está falido. Referem-se ao domínio exercido pelos chamados interesses privilegiados, a indústria do lobby, que impede a tomada de decisões políticas relevantes para o país, os casos freqüentes de corrupção, a falta de compromisso público de muitos executivos públicos, a falta de transparência e de prestação de contas à sociedade, a falta de um espírito de dedicação e de voluntariado pelas causas nobres da nação. A manutenção durante tanto tempo da liberalização dos mercados financeiros, que possibilitou os abusos especulativos no financiamento habitacional, origem da maior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 30 do século passado, é o melhor exemplo do papel perverso da indústria do lobby que domina a política na capital norte-americana. Qualquer semelhança com aquilo que vemos com tanta freqüência ocorrer em Brasília não é mera coincidência. Resulta de um mesmo jeito de fazer política, que precisa mudar em todo o mundo.

Mudança de Baixo para Cima


McCain propõe mudar a partir de sua luta histórica contra a corrupção e os lobbies viciados. Obama diz que a mudança só será efetiva se vier de baixo para cima, a partir da pressão que vem das ruas, dos bairros, das cidades, dos Estados federados. Obama incorporou a necessidade de uma nova cultura política, apoiado na evidência de que as pessoas querem recuperar a capacidade que perderam nos últimos anos de reunir-se, decidir e construir juntas o futuro de suas comunidades. O engajamento cívico das pessoas é considerado por Obama um componente essencial do aperfeiçoamento da democracia norte-americana. Ele está presente em sua campanha, em seu programa de governo e em todos os seus discursos. Será essencial que o engajamento cívico venha a ser uma dimensão fundamental do seu futuro governo, caso vença as eleições.

Peculiaridades Da Democracia Norte-Americana - II

A coleta e contagem de votos não tem uma única legislação nacional e uma instituição nacional responsável, como é o Tribunal Superior Eleitoral e os Tribunais Regionais no Brasil, mas é definida autonomamente em cada Estado e, no interior dos estados, em cada distrito. A existência de diferentes procedimentos de coleta e contagem de votos abre maior possibilidade de ações fraudulentas, como já ocorreu em várias eleições no passado. E há outras diferenças relevantes. Não há propaganda gratuita no rádio e na televisão, como no Brasil. Cada candidato e seu partido tem que levantar recursos para comprar espaços para sua propaganda eleitoral na mídia. Quanto maior a capacidade de buscar recursos, maior será o espaço que poderá comprar para divulgar seu nome, suas propostas e criticar seus adversários. Essa característica contribui decisivamente para aumentar o poder do dinheiro nas eleições americanas. Daí que passa a ser ainda mais crucial, para a qualidade da democracia norte-americana, a forma como o dinheiro é arrecadado pelos candidatos.

28 de outubro de 2008

Saúde: Milhões De Vidas Sendo Perdidas

Participei de um Fórum organizado pela campanha de Obama sobre alguns temas críticos de interesse para as mulheres. Em pauta dois temas principais: educação e assistência à saúde. Sobre as propostas de Obama para essas áreas, pode-se ver detalhadamente em www.BarackObama.com/issues . Impressionou-me a exposição do professor Jacob Hacker, na Universidade de Berkeley, que mostra que quase 45 milhões de norte-americanos não tem seguro-saúde e que, por não terem recursos para enfrentar a ocorrência de doenças, milhares de famílias são levadas todos os dias à insolvência nos Estados Unidos. Por isso, seis em cada dez famílias sem seguro-saúde acabam adiando seus necessários tratamentos médicos. E a situação vem se agravando: em 1979, 69% dos empregadores ofereciam seguro-saúde para seus funcionários; em 2003, esse percentual baixou para 55%. O percentual da população que tem seguro-saúde apenas parcial, por não poder pagar um de cobertura integral, aumentou de 32% em 2003 para 42% em 2007. É por isso que hoje 71% da população apóia a proposta de que o governo federal implemente um sistema de assistência à saúde universal, para salvar milhões de vidas.



Um Depoimento Emocionante


Um dos momentos mais belos do Fórum sobre temas críticos para as mulheres foi o emocionante depoimento de uma senhora afro-americana da terceira idade, Gertrude Wilques. Ela começa dizendo que jamais imaginou que estaria viva para ver que um afro-americano candidato a presidente de seu país. “Todos os dias rezo por ele, e peço a todos na minha família que rezem por ele também”. Considera que o mais importante da mensagem de Barack Obama é sua proposta de que todos os norte-americanos se unam para recuperar o país, resgatar os seus valores, voltar a fazer dele um lugar de oportunidades para todos, como foi no passado. No final de seu depoimento, circulou os olhos entre os presentes no auditório e concluiu: “é um bom tempo o que estamos vivendo, há um bom espírito nessa sala, em todo o país, para, todos juntos, fazermos o que precisa ser feito”.

Peculiaridades Da Democracia Norte-Americana - I

Fazemos parte do modelo ocidental de democracia, que apresenta várias características comuns. Amplas liberdades individuais e coletivas, independência e harmonia entre os Poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -, mesmo que em graus diferenciados, eleições periódicas, voto universal e secreto, diferentes esferas de governo, seja em federações ou estados unitários, são apenas algumas de nossas semelhanças. Temos, entretanto, importantes diferenças. Uma delas, crucial, é que nos Estados Unidos o voto é facultativo, e não obrigatório como no Brasil. Os candidatos e partidos tem que realizar um duplo esforço: além de convencer os eleitores para votar em seus nomes e propostas, tem que convencer os eleitores a dirigir-se às urnas no dia das eleições. Por outro lado, aqui o voto para presidente da nação não é direto, como no Brasil. O resultado das eleições diretas para presidente em cada Estado federado compõe o colégio de delegados do Estado, e os delegados dos 50 estados federados formam o Colégio Eleitoral, que elege o Presidente dos Estados Unidos. Se nenhum dos candidatos obtiver pelo menos 270 votos no Colégio Eleitoral, o Presidente será o candidato que obtiver o maior número de votos na Câmara dos Deputados e o Vice-presidente aquele que obtiver o maior número de votos no Senado.

27 de outubro de 2008

Uma Vida Em Harmonia E Generosidade

Estive em visita a Ernesto Munhoz, um argentino-norte-americano que conheci na campanha por Obama na cidade de Carson, Estado de Nevada. Ernesto chegou aos Estados Unidos em 1971 e naturalizou-se cidadão norte-americano, morando hoje na cidade portuária de Santa Cruz, Califórnia. Ernesto é um exímio carpinteiro, mas acima de tudo uma pessoa excepcional. Recebeu-me em sua casa para o almoço, servindo um filé grelhado de salmão do Alaska, verduras recém colhidas na própria horta, um purê de batatas cozidas e amassadas com casca, para preservar todo o seu valor nutritivo, e um gostoso vinho de Mendoza, é claro. Sua casa e pequeno terreno são um espaço de sustentabilidade. A energia que utiliza é quase totalmente produzida por placas de aquecimento solar, as verduras para o alimento diário são cultivadas organicamente numa pequena horta, todo o lixo orgânico é processado numa pequena máquina e utilizado como adubo, o lixo seco é separado e vendido para contribuir com o apertado orçamento mensal.



Greenspan, O “Consenso De Washington”, E A Argentina

Ernesto tem se dedicado a espiritualidade. Conversamos longamente sobre a vida e a busca de harmonia entre as pessoas e com a natureza. E, como ambos somos economistas, a crise econômica e as eleições para a presidência dos Estados Unidos entraram em pauta, óbvio. Ernesto dedicou um bom tempo a mostrar-me o quanto o Consenso de Washington, que nasceu no governo Reagan e pautou a política externa dos Estados Unidos durante os últimos 30 anos, foi responsável pela desmontagem de boa parte da economia industrial da Argentina nos anos 80 e 90. Com base na concepção da abertura da economia para os capitais internacionais, a privatização das empresas nacionais públicas, a associação ou venda das empresas nacionais privadas, a elevação das taxas de juros e a valorização do peso, a Argentina foi o país latino-americano que levou mais fundo o receituário do governo norte-americano, propagado pelo FMI e pelo Banco Mundial. O próprio Alan Greenspan, o idolatrado Presidente do Federal Reserve, acaba de reconhecer, perante o Congresso dos Estados Unidos, que “cometeu um erro”, ao achar que os mercados e as empresas financeiras poderiam auto-regular-se, concepção que ele seguiu à risca por 18 anos, que está na origem da atual crise financeira, e que sustentou as diretrizes do Consenso de Washington. Mas o prejuízo econômico e social que a aplicação dessa política econômica causou à Argentina e aos demais países em desenvolvimento é uma história que ainda não foi bem contada.

Obama Tem Profundos Compromissos Populares

Quanto às eleições presidenciais, no alto de sua experiência de décadas, Ernesto analisa a ascensão de Barack Obama como um fato novo na política norte-americana. Segundo sua análise, Obama é um político que se desenvolve a partir de um profundo enraizamento no movimento de luta pelos direitos dos trabalhadores desempregados e minorias raciais, como os negros e latinos, nos subúrbios de Chicago. Seu compromisso com os mais pobres e com a mudança são ainda maiores do que a campanha tem conseguido demonstrar. E, em sua opinião, se Obama chegar à presidência, o governo dos Estados Unidos liderará transformações necessárias na sociedade, na política e na economia do país, que terão repercussão em todo o mundo.

Diferenças Culturais Marcantes

Leio nos jornais do Rio Grande do Sul que setores do Movimento Tradicionalista Gaúcho estão preocupados com a influência de homossexuais em suas atividades. Leio, no mesmo dia, nos jornais da Califórnia, um extenso artigo defendendo o voto contrário na Proposição 8, uma espécie de plebiscito, que prevê a proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo, hoje autorizado na Califórnia. A Proposição 8 tem o respaldo dos setores religiosos mais conservadores, especialmente os católicos. E os argumentos do articulista Andrew Szeri, no jornal San Jose Mercury News, não são de conteúdo moral. Szeri apóia-se nas idéias de Richard Florida, para quem “uma comunidade aberta para as diferenças tem muito mais capacidade para atrair e reter a classe criativa de cientistas altamente educados, artistas e empreendedores”.

Abertura Para A Diferença Retém E Atrai Talentos

Pessoas talentosas, diz Florida, procuram ambientes abertos para a diferença. “Quando eles estão avaliando uma empresa ou comunidade, a aceitação da diversidade e de gays e lésbicas em particular é um sinal que significa`pessoas não padronizadas são bem-vindas aqui´”. Com base nessa visão, Szeri defende que a mudança na legislação da Califórnia “vai mandar embora para a Europa ou o Canadá os talentos que vem bater em nossa porta”. “Eles irão para lá fazer suas invenções, começar seus novos negócios, enriquecer a cultura, e formar opinião. Quando a competição global pelos melhores talentos está se intensificando, nós não podemos permitir que a discriminação retorne à nossa Constituição. A Califórnia tem uma responsabilidade em manter essa abertura de boas vindas para o mundo.”

26 de outubro de 2008

Barack Obama E O Mundo Muçulmano

O fato de Obama ser filho de um pai keniano, ter seu nome do meio Hussein, ter cor negra, foi motivo para os republicanos identificarem-no como Muçulmano, e simpatizante de terroristas. Tristemente, para uma parcela conservadora e iletrada da sociedade norte-americana, ser Muçulmano e simpatizante do terrorismo são sinônimos. Mas esse equívoco tem sido duramente questionado por todos os lados. Fareed Zakaria, articulista internacional da revista Newsweek, conclui sua declaração de voto por Obama assim: “Eu admito que falo em nome de meu interesse pessoal. Tenho um filho de 9 anos chamado Omar. Acredito firmemente que ele poderá fazer absolutamente o que quiser nesse país quando crescer. Mas admito que me sentirei mais confiante sobre seu futuro se um homem chamado Barack Obama tornar-se o presidente dos Estados Unidos”.

Rompimento De Colin Powell Com Os Republicanos

Entre as razões que Colin Powell enumerou para abrir seu apoio para Obama, está sua inconformidade com a campanha do Partido Republicano de “insidiosa combinação de rumores de que Barack Obama era Muçulmano, com intimidações de que ele era um simpatizante terrorista”. O equívoco de identificar os Muçulmanos e o mundo Islâmico com o terrorismo, a partir do ataque às torres gêmeas de 11 de setembro de 2001, tornou-se uma marca do governo Bush e do seu partido. O Conselho de Relações Islâmico-Americanas afirma que a expressão “terrorismo Islâmico” é um mito, porque associar a palavra “Islâmico” com “terrorismo” atinge genericamente todos os Muçulmanos. “A retórica usada contra os terroristas deve ser dirigida contra os verdadeiros terroristas, e não contra a fé islâmica que suas ações contradizem”. Perpetuar essa expressão “é uma afronta ao princípio da liberdade religiosa sobre o qual os Estados Unidos foram fundados”, conclui Saqib A. Zuberi, diretor do Conselho, em artigo para o Jornal San Jose Mercury News.

Mudança Na Relação Dos Estados Unidos com o Islã


Depois de 18 meses de trabalho examinando as causas do deterioramento das relações entre os Estados Unidos e o mundo Muçulmano durante o governo Bush, um grupo diversificado de alto nível propôs uma completa mudança da estratégia norte-americana para reverter a expansão do terrorismo e do extremismo no mundo. Em seu relatório, “Mudando o Curso: Uma Nova Direção para as Relações dos Estados Unidos com o Mundo Muçulmano”, 34 líderes de setores religiosos, empresariais, militares, diplomáticos, acadêmicos, e de fundações e organizações não-governamentais, recomendam que o próximo presidente utilize seu discurso de posse para anunciar essa mudança de orientação. As principais mudanças seriam: mais comprometimento diplomático, mesmo com o Iran e outros adversários; mais investimentos em desenvolvimento econômico nos países Muçulmanos, para gerar empregos para uma juventude ociosa; a renúncia ao uso da tortura; e a indicação de um enviado especial, dentro dos primeiros três meses do novo governo, para realizar negociações de uma solução diplomática para o conflito entre Israel e os Palestinos.

Arte, Sobrevivência E Felicidade

Tive a oportunidade conhecer o “Nancy´s Studio”, http://www.nancyrice.com/ , uma oficina de arte dedicada à pintura, criação de sites e educação artística. Nancy Rice inaugurou sua oficina no último mês de julho. Até então, sua pintura era uma atividade complementar ao trabalho na Cysco Systems, uma das gigantes da tecnologia da informação e da comunicação, com sede aqui no Vale do Silício. A pintura até rendia-lhe alguns dólares, mas se constituía num componente de felicidade em sua vida. Agora, sem outro rendimento, passou a ser também sua única fonte de sobrevivência. E seu relato é de que isso não tem sido nada fácil. Nancy é uma das milhares de pessoas que perderam seu emprego nos últimos tempos, em conseqüência da desaceleração da economia norte-americana. A perda de empregos e a redução dos níveis salariais reduzem, num verdadeiro círculo vicioso, o poder de compra das pessoas e retrai-se o mercado para obras de arte. Nancy tem sido impelida a buscar novos mercados, inclusive fora dos Estados Unidos. Mas não desanima, tem confiança em si mesma, acredita que vai superar essa fase difícil e, acima de tudo, quer continuar a buscar a felicidade.

25 de outubro de 2008

Jovens Aprendem A Lidar Com A Polícia

Registro uma iniciativa importante de responsabilidade social da cidade de San Jose, capital do Vale do Silício, aqui na Califórnia. Acaba de sair uma edição atualizada do Guia de Práticas Policiais para Estudantes, uma iniciativa coordenada pela Auditoria Independente da Polícia. Tanto a Auditora, Barbara Attard, como o Chefe de Polícia, Rob Davis, esperam que o guia de 36 páginas ajudará os jovens a aprender como fazer as escolhas certas sobre atitudes criminosas – seja como vítima ou como um potencial perpetrador- e como lidar com os agentes policiais. “Acho que o novo guia lida com temas muito assustadores, sobre os quais é difícil falar, mas nós esperamos que ele será útil para promover uma melhor comunicação entre pais e seus filhos jovens”, disse Barbara Attard. O guia foi em grande parte elaborado por especialistas em educação, e revisado pelo departamento de polícia, pela procuradoria geral e pela defensoria pública do município, pelo gerente da cidade e por pessoas da comunidade.

Os Principais Temas Abordados

O guia está sendo editado em três líguas – inglês, espanhol e vietnamita -, tanto em papel como em CD, e será distribuído em escolas, reuniões comunitárias e centros de recuperação de jovens. O guia contem capítulos sobre relacionamento com agentes policiais, direitos e responsabilidades quando um jovem é preso, corridas de carros nas ruas da cidade, crimes passionais, atividades de gangues, namoro e abuso sexual, entre outros. Um tema enfatizado ao longo de toda a cartilha é o do respeito. “Respeito é um sinal de força e inteligência”. As últimas páginas da cartilha são dedicadas aos recursos de que o jovem pode utilizar-se, incluindo números de telefones importantes, endereços de email para casos de suicídio, programas contra drogas, programas de combate às gangues e um programa de remoção de tatuagens. A cartilha foi viabilizada por uma ampla parceria envolvendo a Auditoria Independente da Policia, o Departamento de Polícia, o Programa de Parques e Recreação e a Administração Municipal.

O Super B (De Barack) Como Agente De Mudança

A candidatura de Obama realmente transformou-se num fenômeno esparramado por todos os recantos da vida norte-americana. Boa parte da imprensa dos Estados Unidos já trata Obama praticamente como futuro presidente. Há poucos dias atrás o jornal Washington Post abriu o voto para Obama em editorial. Agora é a vez do New York Times, que afirma em editorial que Obama tem provado ser a escolha certa para essas eleições. Nas bancas de jornais e revistas, nas livrarias, nas lojas de roupas, nas casas, nos produtos dos vendedores ambulantes nas ruas, nos automóveis, por todos os lados a imagem de Obama está presente, retratada das formas mais diversas e criativas. Chamou-me a atenção, por exemplo, o desenho de capa de um jornal de distribuição gratuita nas ruas e bares de Santa Cruz, Califórnia, em que a figura do Super B (de Barack) é identificada como o agende da mudança que todos os norte-americanos, gritando socorro, aguardam.

Encontre Seus Vizinhos


Divulgo um belo exemplo do espírito comunitário que se expressa na vida cotidiana das famílias e comunidades nos Estados Unidos. O casal Marian e Dave Ferrari promoveu m encontro “venha conhecer o seu vizinho” em sua casa no bairro Rose Garden da cidade de San Jose. Eles convidaram cerca de 200 pessoas e 100 delas compareceram. Algumas recém haviam se estabelecido no bairro, outras já viviam ali há mais de 50 anos. Marian Ferrari considerou o encontro um “verdadeiro construtor de comunidade. Todas as pessoas tem as mesmas preocupações, não importa quanto jovens ou velhos nós somos”. É um exemplo que muitos vizinhos deveriam seguir, diz o articulista Sal Pizarro, do San Jose Mercury News, que participou do evento. “É tão fácil hoje em dia perder contato com as pessoas da vizinhança e é impressionante como são poucas as diferenças que temos quando nos encontramos uns com os outros, especialmente para confraternizar”. Eis aí uma boa atitude que ajuda muito a criar um ambiente de confiança e solidariedade entre as pessoas e, inclusive, de mais segurança na comunidade. Os vizinhos se encontrarem, se conhecerem melhor, ir tecendo uma rede de amizade e cooperação para o bem comum. Cada um e todos saem ganhando, a vida, a cidade e o mundo celebram o bom conviver entre nós, humanos.

24 de outubro de 2008

Transparência É Base Da Democracia

Conversei longamente com Daniel Kreiss, Diretor de Programas da ONG “Voterwatch” - http://www.voterwatch.org/ -, dedicada a divulgar para a sociedade o que ocorre no meio político, Congresso Nacional, suas Comissões Técnicas, e no interior dos governos, como as decisões nas áreas de orçamento, política internacional, segurança nacional, área social. A Voterwatch também trabalha para articular uma comunidade de ONG´s interessadas em construir maior transparência política e governamental nos Estados Unidos. Uma de suas preocupações é evitar o envolvimento com ONG´s patrocinadas por grandes empresas que, na verdade, não tem sido transparentes em suas atividades empresariais. Considera também importante que a base de dados da campanha de Obama, que já reúne mais de 3 milhões de voluntários, seja usada somente para propósitos públicos e que, após as eleições, caso saia vitorioso, essas pessoas, que se dispuseram voluntariamente a trabalhar para elegê-lo, sejam mobilizadas para participar das decisões do governo.

A Situação Política dos Estados Unidos


Sua análise da situação política do país é interessante. Daniel avalia que há um fator demográfico que fará a diferença nessas eleições: a participação massiva das pessoas com menos de 30 anos em favor dos democratas. A juventude estaria voltando a mobilizar-se pelas grandes causas sociais, depois de um período de 30 anos em que prevaleceu o interesse individual, a busca de uma profissão bem remunerada. O fracasso da filosofia republicana, baseada na liberalização dos mercados e no unilateralismo, estaria produzindo uma mudança histórica de grandes proporções. O caminho que Daniel prevê para os Estados Unidos direciona-se para uma sociedade do bem-estar e para uma política internacional diplomática e pacificista. A forte atuação política dos movimentos sociais em favor do candidato democrata nessas eleições, segundo Daniel, tem por objetivo não somente elegê-lo, como também derrotar definitivamente o conservadorismo, que prevaleceu no país durante os últimos 25 anos, desde o governo Reagan.


Um Governo Efetivamente Democrata


Até mesmo o governo Clinton é considerado de perfil conservador pelos movimentos sociais, segundo Daniel. Obama representaria uma autêntica alternativa democrata, pela primeira vez desde Reagan. Se eleito presidente, Daniel espera de Obama uma filosofia diferente de governo, com mais transparência, mais respeito ao interesse público, e mais participação da sociedade nas decisões de governo. Obama promoveria mudanças significativas na política energética, buscando fontes alternativas de energia limpa para reduzir a dependência de petróleo importado. Daniel aposta menos fichas numa nova política social, principalmente um sistema de atendimento universal na área da saúde, pelas restrições orçamentárias que um futuro governo democrata deverá enfrentar, agravadas pelos custos da atual crise econômica. E acredita que será colocada em prática uma nova filosofia nas relações internacionais, com mais diplomacia e multilateralismo. Daniel contextualiza a mudança política em curso nos Estados Unidos com o que está acontecendo em vários outros países do mundo, especialmente na Ásia e na América Latina.

Arte E Tecnologia Na Cidade III - O Valor Do Trabalho Artístico

A proporção de artistas na população dos Estados Unidos dobrou nos últimos 25 anos. Entretanto, apenas 8% deles são autônomos e só dependem de seu trabalho artístico para sobreviver. Na era do conhecimento em que vivemos, baseada numa aceleração sem precedentes da inovação, a habilidade do artista em continuamente criar algo novo tem um valor essencial para o desenvolvimento econômico e social. Criar ambientes onde pessoas das áreas artísticas e tecnológicas trabalhem juntas tem um valor estratégico. Além do mais, a arte é uma língua universal, perfeitamente adequada ao mundo plano da rede virtual global e seu papel, portanto, deve ser compreendido no âmbito da comunidade global e não só local. Já começam a ocorrer encontros físicos e virtuais internacionais entre artistas e setores da indústria, como a automotiva, para instigar a criatividade e a inovação. Projetos de criação de novos produtos e processos já são desenvolvidos ao mesmo tempo por muitas pessoas em várias partes do mundo, criando o desafio de sua gestão, mas ao mesmo tempo gerando satisfação e prazer de criar coletivamente. Iniciativas como essas deverão multiplicar-se rapidamente em muitos outros segmentos da economia globalizada.

Retenção e Atração de Artistas Para A Cidade


Estimular de todos os modos possíveis a criação e a produção artísticas passou a ser, portanto, uma questão central da competitividade global de um território, seja ele um bairro, uma cidade, uma região, um estado ou uma nação. Fala-se muito em políticas de atração de investimentos para o território. Mas não se tem dado o valor que se requer na era do conhecimento para políticas de atração de artistas. Vejamos alguns exemplos. Promover o estudo, a prática e o incentivo às artes nas escolas é um ponto de partida imprescindível para despertar nas crianças e adolescentes a criatividade e a inovação, enriquecer seu conhecimento, desenvolver suas habilidades, elevar sua auto-estima, ampliar suas experiências de vida, estabelecer novas relações com a comunidade a sua volta. Identificar as contribuições artísticas, muitas vezes escondidas, mas que estão presentes na história do desenvolvimento territorial. Estimular as pessoas e famílias a apreciar e ter obras de arte em suas residências e locais de trabalho. Abrir os espaços públicos e privados ociosos para mostras de produção artística, dando visibilidade às artes e valorizando seus autores. Multiplicar os espaços de encontro e interação entre artistas de todas as modalidades. Abrir ainda mais espaços na mídia para a divulgação do trabalho artístico. Por último, e não menos importante, elevar a prioridade que tem sido dada até aqui aos incentivos fiscais e financeiros para a criação e a produção artísticas locais e para a retenção e atração de artistas para o território. Essa proposta é formulada e fundamentada por Richard Florida em seu livro “The Rise of the Creative Class” (A Ascensão da Classe Criativa).


Aprendizado: Mais Valor Ao Trabalho Artístico E Criativo


O desenvolvimento das artes tem que ser estimulado por múltiplas razões que se conjugam hoje, mais do que nunca antes no passado: sua importância para embelezarmos os espaços e enriquecermos a convivência, criarmos valor pela criatividade e a inovação, desenvolvermos a economia, a competitividade e novas oportunidades de trabalho e, enfim, vivermos uma vida mais exuberante, mais intensa e mais rica. Jane Jacobs, autora de um livro clássico sobre a prosperidade e a decadência das cidades norte-americanas, afirmou certa vez que o que fez de Nova York a cidade fantástica que é não foram as suas grandes avenidas, mas a diversidade e a convivência de suas vizinhanças, que se expressa nos encontros, festas, comemorações recheadas de manifestações artísticas locais. Creio que em nossas definições estratégicas, orçamentos públicos, redes de governança local, políticas públicas, não temos dado ao trabalho artístico e criativo a importância ainda maior que ele passou a ter, não só para tornar a cidade mais diversa, culturalmente rica, plena de vida e convivência, como também para impulsionar a atual sociedade do conhecimento, baseada na aceleração sem precedentes da inovação, sem a qual não há como nossos territórios competirem no mundo globalizado.

23 de outubro de 2008

Recessão Mundial A Caminho

Os indicadores começam a deixar claro que a economia mundial caminha para uma recessão. “As pessoas focaram tanto na crise financeira imediata, que elas não se deram conta do quanto a economia real está caindo”, diz Dean Baker, do Centro de Economia e Pesquisa em Políticas Públicas em Washington. A crise financeira não é o problema fundamental, mesmo sendo o mais aparente. Ela apenas amplificou as fragilidades econômicas, que agora estão intensificando-se. A queda nas vendas a varejo no último trimestre foi a maior dos últimos três anos. E o consumo é o componente isolado mais importante do dinamismo da economia norte-americana. Por sua vez, o desempenho negativo das grandes empresas multinacionais nos últimos meses são a principal causa das quedas generalizadas nas bolsas de valores de todo o mundo. “A ação mundial coordenada de socorro tem ajudado a capitalizar os bancos, mas há um doloroso ajuste a caminho que requererá algum tempo”, afirma o economista sênior do Banco de Tokyo, Derek Halpenny. Henry Paulson vai na mesma direção: “claramente, nós teremos pela frente um número de meses difíceis em termos da economia real”. O Departamento de Comércio já fala que a economia norte-americana está em recessão.

Queda Nas Vendas E Nos Lucros, Mais Desemprego

A Boeing registrou queda de 38% nos lucros no último trimestre. A empresa de medicamentos Merck teve uma queda de 28% em sua receita líquida no período e anuncia demissões. Mesmo a área de alta tecnologia não escapa da queda de atividades. A queda nas vendas leva as empresas a anunciar mais demissões, como recentemente ocorreu com a Pepsi Cola. A Yahoo anuncia um novo corte de vagas, maior do que o que já havia feito em janeiro desse ano. A indústria automobilística dos Estados Unidos aprofunda sua crise. No último ano, o preço das ações da Ford caiu 75% e o preço das ações da GM caiu 80% na Bolsa de Nova York. Já tendo cortado mais de 100 mil vagas desde 2005, analistas prevêem que pelo menos outras 50 mil vagas serão ainda cortadas até 2011, período dentro do qual deverão ocorrer novas fusões no setor automobilístico. O número de desempregados nesse ano até setembro chegou a 750 mil, com uma clara tendência a aceleração nos últimos meses. Em agosto foram 73 mil desempregados e em setembro 159 mil desempregados. O preço do petróleo está caindo sistematicamente, na esteira da recessão mundial, tendo chegado a menos de 68 dólares o barril, quando já esteve a 145 dólares o barril no último mês de julho. O impacto da crise na Europa leva o euro e a libra a perderem valor diante do dólar, enquanto o yen japonês é a única moeda que se valoriza diante do dólar, do euro e da libra, porque tornou-se uma moeda de reserva de valor, pelo fato de o Japão apresentar um grande superávit na sua conta corrente com o exterior.

Em Gestação Novo Programa “New Deal”

A configuração do quadro recessivo tem levado as autoridades norte-americanas a examinar novas alternativas de estímulo à economia. O Banco Central dos Estados Unidos estuda uma nova redução da taxa de juros, que também deverá ser adotada pelo Banco Central Europeu. E as grandes lideranças do Partido Democrata já anunciaram um novo programa New Deal, semelhante ao adotado por Roosevelt, caso Obama ganhe as eleições para a presidência dos Estados Unidos.

Krugman E A Real Situação Dos Trabalhadores

Diante da situação atual de vida dos trabalhadores norte-americanos, a figura de “Joe, the plumber” (Joe, o encanador), utilizada pelo candidato republicano McCain para demonstrar que Obama vai aumentar os impostos dos trabalhadores, ficou famosa. Paul Krugman, o novo Prêmio Nobel de economia, em um de seus artigos periódicos no jornal New York Times, fala do real encanador de Ohio. Diferentemente do encanador caracterizado por McCain, com renda acima de 250 mil dólares ano e, nesse nível de renda, tendo que pagar mais impostos num futuro governo Obama, Krugman mostra que a renda média de um encanador em Ohio é de 48 mil dólares ano. Mais, Krugman mostra que os trabalhadores norte-americanos estão com seus salários estagnados ou em queda, em termos de poder aquisitivo, mesmo nos bons anos da economia, entre 2000 e 2007. Nesse período, inclusive, milhões de trabalhadores perderam seus empregos e suas casas foram confiscadas por incapacidade de pagamento. Krugman conclui dizendo que é hora de os trabalhadores norte-americanos deixarem de votar com os republicanos, porque esse não é definitivamente o partido dos trabalhadores norte-americanos.

Arte E Tecnologia Na Cidade II - O Censo Dos Artistas

O Programa Parceiros das Artes da cidade de San Jose tomou uma iniciativa importante para poder oferecer estímulos mais efetivos à criação e produção artísticas. Com a assessoria da professora Ann Marcusen, da Universidade de Minesotta, www.hhh.umn.edu/projects/prie, foi feito um levantamento censitário completo dos artistas da cidade em todas as modalidades das artes: visuais, de performance, músicos e compositores, escritores e autores, designers, arquitetos. Foram apresentadas no seminário informações objetivas sobre os artistas da cidade, como idade, gênero, etnia, nível educacional geral e no campo específico, modalidade artística que pratica, remuneração, situação profissional (autônomo ou empregado e, nesse caso, vínculo empregatício público, privado ou não-governamental). O censo também levantou informações subjetivas como dificuldades que enfrenta para exercer sua profissão, áreas em que sugere melhorias, expectativas quanto ao futuro.

Alguns Resultados Surpreendentes


Foi constatado que, diferentemente da expectativa inicial, San Jose tem uma baixa proporção de artistas em sua população total: 0,84%, bem menor do que Los Angeles(2,99%), San Francisco(1,82%) e Nova York(2,52%). Enquanto isso, 41% dos empregos da cidade são gerados pela área de alta tecnologia, o que revela uma forte concentração e especialização econômica da cidade nesse setor. A cidade também surpreendeu-se com a informação de que a relação entre entrada e saída de artistas da cidade é de 0,81, ou seja, para cada 5 artistas que vão embora, apenas quatro ingressam na cidade. Na cidade de Los Angeles, a mais atrativa de artistas do país, essa relação é de 2,61. Foi também constatado que uma pequena proporção dos artistas são autônomos, sendo que a maior parte tem algum outro emprego, público, privado ou não governamental, para poder sobreviver. Surpreendeu também a constatação de que a maior parte dos artistas desenvolveu seus conhecimentos e habilidades artísticas através do auto-aprendizado e não pela escola convencional.


Outros Resultados Importantes


A maior parte dos artistas quer financiar-se através da venda dos seus trabalhos e uma das grandes reivindicações é que sejam criadas mais oportunidades de mostrar o que fazem para o grande público. Foi dado o exemplo da melhor utilização de espaços ociosos para mostras, como é o caso das entradas de hotéis, centros de convenções, aeroportos, sedes das grandes empresas de alta tecnologia. Os artistas sentem falta de um bom local de trabalho e de equipamentos adequados para trabalhar e reivindicam que lhes sejam oferecidas alternativas de financiamento acessíveis para resolver essas dificuldades. Eles carecem de espaços, tanto físicos como virtuais, para interagir com outros artistas, proporcionando ambientes de trocas de conhecimentos e experiências. A criação de Centros de Artes para cursos, encontros, convivência dos artistas da cidade foi recomendada. Foi também sugerida a criação de Espaços de Trabalho Artístico, onde os artistas podem alugar ou adquirir seus estúdios. Para mais informações sobre o Censo dos Artistas, ver http://www.sanjoseculture.org/ , abrir a janela “downloads” e ver em “Resources”.

22 de outubro de 2008

Olhar Atento Sobre As Eleições Nos Estados Unidos

Apresento abaixo uma observação pessoal sobre as eleições norte-americanas. Utilizo um vídeo experimental, novo modo de aproximar-me dos leitores que tem prestigiado esse blog.


video

Arte E Tecnologia Na Cidade - I


Li um interessante artigo da professora Ann Marcusen, da Universidade de Minesotta, www.hhh.umn.edu/projects/prie, “Moldando uma Cidade Diferenciada”, que anunciava sua conferência no seminário sobre Empreendedorismo Criativo, na Casa dos Artistas da Prefeitura de San Jose, capital do Vale do Silício. Decidi participar e desloquei-me para aquela que é a cidade-sede de algumas das mais importantes empresas de tecnologia da informação e da comunicação do mundo, como é o caso da Cisco Systems, só para dar um exemplo bem conhecido. San Jose equivale em tamanho a Porto Alegre. A preocupação da equipe exclusivamente dedicada à formulação da estratégia de desenvolvimento municipal – eis aí já uma inovação – é estimular todas as modalidades de artes na cidade, porque a arte é por excelência criação, inovação, além de beleza estética. O objetivo a ser alcançado é mais do que fazer a cidade ainda mais atrativa, bonita, agradável para viver. A cidade busca principalmente desenvolver ainda mais o ambiente criativo e inovador, que já está presente na economia da informação e da comunicação, conectando de modo mais orgânico e sistêmico a criação artística com a inovação tecnológica.

Economia Competitiva e Vida Melhor

Para alcançar esse propósito, a Prefeitura incorporou ao planejamento estratégico da cidade um novo programa: a articulação da economia da cidade com a arte e a sociedade, de modo que a produção artística seja incorporada transversalmente em todos os aspectos do planejamento da cidade. Os artistas estão sendo chamados a se incorporar na tomada de decisões sobre toda a política de estímulo à criação e produção artística da cidade. O nome do seminário – Empreendedorismo Criativo – mostra bem que o foco é promover artistas empreendedores, capazes de sustentar-se com os resultados de seu próprio trabalho artístico. O Prefeito Chuck Reed deixou claro na abertura do evento que a busca de conexão mais profunda entre arte, tecnologia e mudança está associada ao objetivo estratégico de fazer de San Jose um melhor lugar para viver e uma cidade ainda mais competitiva no mundo globalizado.

21 de outubro de 2008

Roubando A América. Voto A Voto.

As informações sobre os problemas da coleta e contagem de votos nas eleições norte-americanas sempre causaram-me grande apreensão, não só porque se referem ao país tomado como exemplo da democracia e da liberdade, senão porque esse é um problema que no essencial já resolvemos bem no Brasil com a justiça eleitoral, as urnas e a contagem eletrônica. Para conhecer melhor o assunto, decidi ver um documentário muito comentado chamado “Stealing America: Vote by Vote” (Roubando a América: Voto por Voto). Durante quase duas horas, vi uma demonstração detalhada e documentada de fraudes ocorridas na coleta e contagem de votos em todas as eleições, desde que se introduziu a urna eletrônica aqui. O caso mais escandaloso foi a eleição presidencial de 2000, em que Al Gore perdeu para George W. Bush. Mas o filme mostra que situações semelhantes repetiram-se em vários estados e distritos eleitorais nas eleições de 2002, na presidencial de 2004 e novamente em 2006.


Coleta e Contagem Controlada pelos Distritos

A possibilidade de fraudes acaba ocorrendo por que cada distrito eleitoral tem seu próprio sistema autônomo de coleta e contagem de votos. Não há um sistema unificado e controlado nacionalmente, mesmo de forma federativa, como é no Brasil. Há fortes indícios de que tenham ocorrido modificações em códigos de controle dentro dos computadores das urnas eletrônicas em inúmeros distritos. Há também inúmeros casos de urnas eletrônicas que funcionavam mal e não foram repostas. Verificou-se em muitos distritos a falta proposital de urnas para gerar longas filas que desestimularam o comparecimento, já que aqui o voto não é obrigatório. Nas eleições que se avizinham, há a suspeita no ar de uma possível manipulação de votos em favor das candidaturas apoiadas pelo governo federal através das listas de votantes em trânsito ou no exterior. Como existem centenas de milhares de soldados norte-americanos servindo nas frentes de resistência e de guerra espalhadas por todo o mundo, uma fraude nessas listas pode influenciar no resultado final de uma eleição apertada.

Mobilização pela Contagem Honesta

Diante dessas constatações, desenvolveu-se aqui um forte movimento da sociedade civil para fiscalizar e assegurar a contagem honesta dos votos em cada distrito. Logo que terminou o filme, fui surpreendido por uma senhora, Charlotte Casey, que solicitou a permanência dos que desejassem, pois se iniciaria um debate sobre o filme. Trata-se de uma iniciativa da ONG “Peace and Justice Center” (Centro de Paz e Justiça) – http://www.sanjosepeace.org/ , que trabalha junto com várias outras ONG´s da região do Vale do Silício para conscientizar as pessoas a mobilizar-se para fiscalizar que seu voto não seja roubado, isto é, que não seja nem deletado ou então contado para outro candidato que não o seu, como já ocorreu em eleições passadas. Várias pessoas permaneceram por mais de uma hora debatendo principalmente como evitar que voltem a ocorrer fraudes na contagem dos votos nas eleições presidenciais desse ano. É preocupante o rumo que percebi estar sendo tomado em muitos distritos no país: diante da insegurança causada pelo voto em urna eletrônica, em vez de mudar o sistema de controle da coleta e contagem, a volta ao voto e a contagem manual, como se esse método fosse menos imune a fraudes.

Recursos Ociosos E Inovação

Tive uma conversa inteligente com Robert Fishkin, um jovem criador de novas tecnologias da informação. Sua obstinação é desenvolver uma plataforma colaborativa, ou seja, um sistema operacional virtual que reúna a inteligência de pessoas de cidades de todo o mundo capazes de encontrar resposta para a seguinte pergunta: como recursos ociosos, geralmente concentrados em áreas urbanas prósperas, podem constituir possibilidades de inovação? Para entender o que isso significa, usou uma experiência concreta que ele mesmo desenvolveu e ajudou a implementar na cidade de Baltimore.

Exemplo Da Cidade De Baltimore

Constatou-se a existência de uma média anual de 1,5 milhões de cadeiras vazias nos eventos culturais que efetivamente ocorrem na cidade. Através de um acordo construído pela Prefeitura Municipal e a Associação dos Operadores de Casas Culturais, foi acordado que 1% dessas cadeiras não-ocupadas seria liberado para que crianças e adolescentes pobres da cidade pudessem freqüentar esses eventos gratuitamente. As escolas públicas foram chamadas a ajudar na distribuição dos ingressos entre os alunos mais pobres. Eis aí uma boa iniciativa que pode ser replicada em qualquer cidade do mundo.

Eliminar o Desperdício de Recursos Ociosos

Mas promover a inovação social através da utilização mais racional dos recursos ociosos disponíveis é uma questão abrangente. Apenas como exemplos para refletir: imagine quantas pessoas aposentadas, com enorme conhecimento e experiência acumulada, estão sendo pouco ou nada aproveitadas em benefício seu e da própria sociedade; imagine quantos espaços naturais ou construídos estão utilizados muito aquém de sua capacidade e que poderiam ser de utilidade social essencial para os que não dispõem de espaço quase nenhum. Ou então, reflita sobre a seguinte informação: nos Estados Unidos, durante sua vida, uma pessoa fica em média 9 a 11 anos vendo televisão. Considerando que somente 5% dos norte-americanos fazem algum trabalho voluntário, imagine quanto o voluntariado ainda poderia crescer aqui se uma pequena parte do tempo que a pessoa dedica a ver televisão fosse canalizada para ações voluntárias em sua comunidade. Imagine que fantástico impacto social teríamos se isso ocorresse também no Brasil e nos demais países do mundo. As plataformas colaborativas da internet serão muito úteis para conectar os recursos ociosos com as suas possíveis utilizações mais racionais, gerando um novo valor social de grande impacto na mudança do mundo para melhor.

20 de outubro de 2008

Cúpula Mundial Para Reformar Sistema Financeiro

Neste sábado, o Presidente dos Estados Unidos, GeorgeW. Bush, o Presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o Presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, anunciaram a realização de uma reunião de cúpula dos países economicamente mais importantes do mundo, no próximo mês de novembro, para definir as bases de um sistema de regulamentação das finanças globais. A iniciativa pretende ter a importância história da cúpula de Bretton Woods em 1944, quando 44 países aliados na Segunda Guerra Mundial decidiram coordenar suas políticas monetárias e estabelecer um sistema monetário internacional unificado, com a constituição do FMI. No que deverá ser a cúpula de Nova York, a agenda estará voltada para um amplo conjunto de novos desafios, como aumentar a transparência dos mercados financeiros, revisar as regras que governam o fluxo mundial de capitais e investimentos, e melhorar a supervisão sobre os grandes bancos, agências de avaliação e fundos de risco.

Presença De Países Emergentes Está Assegurada

Segundo o comunicado oficial, o objetivo dessa primeira de uma série de reuniões de cúpula será “buscar um acordo de princípios da reforma necessária para evitar uma repetição da atual crise, e assegurar prosperidade no futuro”. Está previsto participar dessa cúpula não só os países que dominaram as finanças globais no último meio século, como também potências econômicas emergentes, que foram excluídas de reuniões anteriores desse tipo, como a China, Índia e Brasil. Outros países que poderão ser convidados incluem a Arábia Saudita, Coréia do Sul e Austrália. Bush enfatizou que nas respostas à crise é essencial preservar os fundamentos do capitalismo democrático, ou seja, os compromissos com mercados livres, empresas livres, e comércio livre. Sarkozy, por seu lado, afirmou que a regulamentação deverá ser aplicada a todas as empresas financeiras, e conclamou por restrições mais severas com relação ao pagamento dos executivos dessas empresas.

Democratizar As Decisões de Política Econômica

Nenhum dos dois líderes, entretanto, levantou a questão do caráter democrático da tomada de decisões de política econômica para enfrentar a crise dos mercados, esse também um dos fundamentos de um “capitalismo democrático” que mereça esse nome. Ou seja, na medida em que os recursos dos contribuintes, vale dizer, da sociedade, estão sendo utilizados, através da ação do Estado, para socorrer as empresas financeiras, de modo a evitar o colapso do sistema de crédito e o aprofundamento da recessão, o caráter mais ou menos democrático da ação governamental passa a ser uma questão política crucial. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, o plano de socorro de 700 bilhões de dólares foi inicialmente rejeitado pelo Congresso. Sua aprovação só ocorreu depois que o Congresso introduziu inúmeras modificações na proposta original, de modo a levar em conta, pelo menos em parte, os interesses da sociedade.

Agenda Democrática Na Cúpula Mundial

Entre a rejeição e a posterior aprovação do plano de socorro, o Congresso foi submetido a uma forte pressão social, através de formas novas de manifestação das pessoas, como emails, blogs, mensagens por celulares, entrevistas de populares em canais de rádio e televisão. A sociedade norte-americana acabou conseguindo, dessa forma, ser parcialmente levada em conta, mas por formas não institucionalizadas de ação política. Não tenho notícias de quais os procedimentos democráticos que a Europa e outras regiões do mundo estão utilizando para processar suas próprias decisões de política econômica anti-crise. De qualquer modo, é necessário que a agenda democrática das decisões de política econômica também faça parte da cúpula mundial de reforma do sistema financeiro. Do contrário, “capitalismo democrático” será uma expressão significativa apenas para os mercados, as empresas e os investidores, mas vazia para os que estão pagando a conta, que são as pessoas comuns, a esmagadora maioria da sociedade.


Novo Modelo De Financiamento De Campanhas Eleitorais

Não há mais dúvida de que a campanha do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos inaugura um novo modelo de financiamento de campanhas eleitorais. Nem o financiamento por empresas privadas, nem o financiamento com verbas governamentais, nem mesmo um misto de ambos. A campanha de Obama inaugurou o financiamento voluntário de pessoas comuns. Essas pessoas tornaram-se tão identificadas e motivadas, que além de fazer campanha para eleger seu candidato, passaram a contribuir com pequenas somas de seu próprio dinheiro para viabilizar a campanha. Os resultados alcançados por esse modelo mais ético e mais democrático de financiamento tem sido impressionantes.

Maior Arrecadação Da História

Segundo um balanço que acaba de ser divulgado, no último mês de setembro a campanha de Obama obteve contribuições financeiras de 632 mil norte-americanos. O valor arrecadado foi de 150 milhões de dólares, o maior da história de uma campanha num único mês, numa média de 230 dólares por pessoa. Com isso, o número total de doadores alcançou 3,1 milhões de norte-americanos, cada um tendo contribuído em média com 86 dólares. Segundo o relatório divulgado, esses recursos estão sendo prioritariamente destinados para expandir a campanha nos chamados estados críticos, onde os Republicanos venceram as últimas eleições, como é o caso de West Virginia, Colorado e Ohio. Uma segunda prioridade é pagar anúncios na mídia para responder às acusações difamatórias contra Obama. A mais recente delas se origina do próprio candidato republicano John McCain, que acusa Obama de conduzir os Estados Unidos para o socialismo.

19 de outubro de 2008

Supressão Do Registro de Votantes e Fraude Eleitoral

Está em curso uma campanha massiva de supressão de votos, orquestrada pelos Republicanos, que pode fraudar as eleições presidenciais de 4 de Novembro. Essa é a denúncia pública que o movimento de ação política Move On – http://www.moveon.org/ – está fazendo nacionalmente. O Move On é um dos maiores apoiadores da campanha de Obama, com 4,5 milhões de participantes voluntários, que militam e sustentam a coordenação do movimento através de pequenas contribuições financeiras, uma vez que não são aceitas contribuições de empresas, organizações e partidos políticos. Os Republicanos estariam tentando expurgar milhares de votos democratas das listas de registro em estados críticos como Ohio, Florida, e Colorado. Utilizando acusações falsas de registros de votos fraudados contra uma rede organizadora de comunidades chamada ACORN, os Republicanos estariam distraindo a mídia com relação à sua própria atuação desonesta.

História e Verdade Dos Fatos

Durante os últimos 25 anos, os Republicanos teriam promovido o mito da fraude do registro de votos para justificar leis eleitorais cada vez mais restritivas, dificultando aos cidadãos o direito ao voto. Para que as pessoas saibam a verdade dos fatos, diante de qualquer acusação que possa prejudicar a candidatura de Barack Obama, o movimento Move On solicita aos seus membros que enviem qualquer acusação recebida para o Centro Para Uma Política Correta – http://www.politicalaccuracy.org/ , que responderá com os fatos verdadeiros. O Centro é uma rede que empodera as pessoas a lutar contra a máquina da difamação, considerada maior do que qualquer campanha e que não termina depois de cada eleição. A rede ACORN contratou 13 mil pessoas para registrar 1,3 milhão de novos votantes. Algumas dessas pessoas preencher registros incorretos e, inclusive, falsificaram nomes para ser remunerados por trabalho não realizado. A ACORN demitiu essas pessoas e entregou-as às autoridades competentes. Em muitos lugares, foi a própria ACORN que informou sobre os registros fraudados pelas pessoas que contratou. E, ainda mais importante, isso não terá qualquer impacto na eleição, porque ninguém pode votar, ao menos que esteja corretamente registrado. E não é nenhuma evidência de registros falsos que estejam efetivamente conduzindo a uma fraude eleitoral organizada que justificasse a ação dos Republicanos pela supressão massiva de registros de votos democratas.

18 de outubro de 2008

A Escola Da Vida

De acordo com seu site, a Escola da Vida - http://www.theschooloflife.com/ - é uma nova empresa cultural localizada no centro de Londres que oferece orientação inteligente sobre como levar uma vida plena. Preciso mesmo de um relacionamento amoroso? Como aproveitar de forma mais inteligente e criativa o meu tempo livre? O trabalho precisa ser algo chato e repetitivo? De onde saem nossos conceitos sobre política? Dá para extrair mais proveito de visitas a museus, cinemas e teatro ?

Grandes Pensadores e Artistas

São oferecidos cursos à noite e finais de semana, férias em locais inesperados, psicoterapia, conferências, refeições com conversas e debates, um corpo docente de especialistas e um novo tipo de consultoria literária chamada biblioterapia. O corpo docente é formado de alguns dos pensadores e artistas mais brilhantes no mundo hoje. Eles incluem Alain de Botton, Geoff Dyer, Susan Elderkin, Tom Hodgkinson, Brett Khar, Robert Macfarlane e Martin Parr. A sua sede é uma loja pequena mas espetacular, que foi organizada como uma farmácia para a mente, um lugar onde as pessoas podem experimentar uma variedade de soluções culturais para suas indisposições do dia a dia. São oferecidos livros, obras de arte, cursos, serviços terapêuticos e de ocupação do tempo livre.

Trabalho, Lazer, Família, Política e Amor

No fundo da loja, uma porta conduz para uma fantástica sala de aula criada pela artista Charlotte Mann. Ali é onde são oferecidos cursos regulares à noite e nos finais de semana, explorando os cinco temas centrais de nossas vidas: trabalho, lazer, família, política e amor. As experiências de seu corpo docente unem-se com os insights de importantes pensadores do passado para proporcionar uma combinação única de bom humor e inteligência, com relação às questões que a vida nos coloca no dia a dia. A Escola da Vida está aberta para todos aqueles que estão procurando uma aventura pessoal e intelectual. Suas audiências, como seus professores, caracterizam-se pela curiosidade, sociabilidade, abertura de espírito e apetite pela vida.

17 de outubro de 2008

Desenvolvimento Local, Diante Da Crise Global

Na medida em que o sistema financeiro mundial desmorona diante de nossos olhos, as comunidades locais tem razões ainda mais fortes para concentrar seu foco naquilo que está em seu poder mudar. E isso inclui, prioritariamente, assegurar o uso mais eficiente de seus próprios recursos humanos, sociais, naturais, políticos, culturais, financeiros e materiais no presente e no futuro. O Prefeito Chuck Reed, da cidade de San Jose, capital do Vale do Silício, aqui na Califórnia, por exemplo, elegeu-se em 2006 com o programa de fazer de San Jose uma cidade verde nos próximos 15 anos, “o centro da inovação e da tecnologia limpa”. Desafiou a cidade a liderar a implantação de altos padrões de sustentabilidade em todos os âmbitos da vida, tanto nas atividades de governo e nos serviços públicos, como nos negócios privados e no dia-a-dia das comunidades. Por isso, passou a ser conhecido como o “prefeito verde” e chegou até a conquistar o apoio de alguns de seus principais opositores.

Os Primeiros Resultados Já Começam A Aparecer

No balanço do primeiro ano da “visão verde”, os resultados alcançados mostram que a cidade está encarando com seriedade esse desafio. Há progresso na criação de empregos em “tecnologias limpas”, promoção de fontes renováveis de energia e construção de edifícios “verdes”, utilizando materiais com padrões de sustentabilidade e alta eficiência em energia. Mas há ainda um longo caminho pela frente, e fica para ser comprovado se muitas das dez metas ambiciosas, tais como abastecer toda a cidade com fontes de energia renovável, transformar todo o lixo em energia e reutilizar toda a água, podem ser alcançadas no plano de 15 anos que o Prefeito está implementando. Dos 25 mil novos postos de trabalho em tecnologias limpas a serem criados, 1.500 já foram criados no primeiro ano pelas empresas que produzem fontes alternativas de energia na cidade. Sem contar com os novos 1.000 empregos que serão criados quando iniciar suas operações na cidade a fábrica de carros elétricos da Tesla Motors em 2010. O Prefeito Reed foi bem sucedido em conseguir o apoio dos principais grupos do setor privado para sua política de “construções verdes” na cidade, que prevê a construção de 50 milhões de metros quadrados de edifícios verdes novos ou convertidos em 15 anos. Uma das estratégias bem recebidas pela iniciativa privada foi a implementação dessa política em etapas.

As Dez Metas da Visão Verde de San Jose

Meta 1: Criar 25 mil empregos em “tecnologias limpas”;
Meta 2: Reduzir o consumo per-capita de energia em 50%;
Meta 3: Abastecer 100% da energia elétrica da cidade com fontes limpas e renováveis;
Meta 4: Construir ou Converter 50 milhões de metros quadrados em “edifícios verdes”;
Meta 5: Converter 100% do lixo urbano em energia;
Meta 6: Reciclar ou reutilizar 100% da água utilizada;
Meta 7: Adotar um plano geral com medidas mensuráveis de desenvolvimento sustentável;
Meta 8: Assegurar que 100% da frota de veículos da cidade utilize combustíveis alternativos;
Mata 9: Plantar 100 mil novas árvores e renovar 100% das luminárias públicas com iluminação de emissão-zero;
Meta 10: Criar 100 milhas (cerca de 160 quilômetros) de trilhas interconectadas.

A Calculadora De Impostos De Obama

O debate sobre a crise econômica na campanha eleitoral dos Estados Unidos concentra-se nas medidas de alívio sobre a classe média e os mais pobres. Entre essas medidas, as mais comentadas são as que propõem uma redução da carga de impostos, melhorando o orçamento das pessoas e famílias. Tanto McCain como Obama disputam a melhor proposta. Para tirar as dúvidas, a campanha de Obama tomou uma iniciativa inédita e criativa: colocou no site principal da campanha – http://www.barackobama.com/ - um “tax calculator”, uma máquina calculadora que em poucos segundos calcula o quanto as propostas de Obama de alivio da carga tributária são melhores, para o bolso da pessoa, do que as propostas de McCain.

16 de outubro de 2008

McCain Foi Melhor No Último Debate

No último debate presidencial da campanha para Presidente dos Estados Unidos, McCain apresentou um desempenho melhor. Obama teve o desempenho mais fraco dos três debates realizados. No conjunto do debate foi uma diferença sutil, mais ela foi marcante nos primeiros trinta do total de noventa minutos, quando McCain foi para a ofensiva nas denúncias difamatórias, deixando Obama numa posição mais frágil e defensiva. Já na segunda parte do debate, quando prevaleceram os temas sociais, Obama foi melhor nas questões do aborto, da assistência à saúde, e da educação. Os temas econômicos concentraram-se nas diferentes propostas dos candidatos para a redução da carga tributária e da política de gastos públicos. McCain em defesa de menos governo, corte de gastos, redução generalizada de impostos para as empresas, que, segundo ele, teriam uma das mais altas cargas tributárias do mundo, como forma de estimulá-las a gerar mais empregos. Obama em defesa de mais governo e mais investimentos na área social, e corte de impostos para 95% das pessoas e empresas que recebem menos do que 250 mil dólares por ano. A conta seria paga com menos gastos militares e aumento de impostos para os 5% mais ricos. O debate na área econômica foi parelho. Mais uma vez, entretanto, mesmo com a Bolsa de Valores de Nova York tendo caído 733 pontos hoje, e com sinais crescentes de que a economia norte-americana caminha para uma recessão, a crise econômica praticamente não foi debatida, a não ser pela ótica de como aliviar suas consequências sobre a classe média, os mais pobres e as empresas. A atitude mais agressiva de McCain ao longo do debate, se, por um lado, fragilizou Obama, colocando-o na defensiva e prejudicando seu desempenho, por outro lado, não é bem vista pelo eleitor médio. Por isso, creio que o resultado do debate terá pouca influência nas próximas pesquisas eleitorais, não sendo suficiente para alterar o favoritismo do candidato democrata.

Foto: Wall Street Journal

A Cidade Da Próxima Geração

Visualizar a cidade da próxima geração é a proposta de Carol Coletta, presidente e executiva da associação “CEO´s for Cities” (Executivos para Cidades), http://www.ceosforcities.org/ , apresentadora e produtora do programa de rádio “Smart City” (Cidade Inteligente), http://www.smartcity.com/ . Assisti sua conferência no “Le Petit Trianon Theatre” da cidade de San Jose, capital do Vale do Silício, Califórnia. Sintetizo abaixo suas principais idéias.


Pressupostos Que Se Desatualizaram

As cidades e regiões metropolitanas representam 80% dos ativos, dos empregos e dos impostos gerados, portanto definir estratégias urbanas corretas é essencial para o bem-estar da nação. Não há uma nação forte sem cidades fortes. Entretanto, muitas das nossas cidades foram construídas com base em pressupostos que se desatualizaram. Sempre pensamos que a gasolina seria barata e abundante e que teríamos sempre soluções para o congestionamento. Nós assumimos o pressuposto de que os norte-americanos estavam abandonando a vida em áreas públicas, felizes em viver privativamente em suas residências suburbanas cada vez mais caras. Esses pressupostos não são mais verdadeiros.

As Novas Realidades Nas Cidades

A gasolina está cara e encarecendo mais. Nós não conseguimos construir auto-estradas com a rapidez necessária para reduzir o tempo no trânsito. E o desejo de conviver em áreas públicas está crescendo. Jovens adultos estão 33% mais propensos que outros americanos a viver num raio de 3 milhas (mais ou menos 5 quilômetros) da área central de negócios, onde a vida é vivida muito mais publicamente. As pessoas estão até mesmo aprovando em plebiscitos aumento de impostos específicos para parques e espaços públicos. Essas são as novas realidades e o problema é que nossas estratégias de desenvolvimento das cidades não conseguiram adequar-se a um mundo novo e muito diferente. O que as cidades devem fazer para serem bem sucedidas numa sociedade do conhecimento e economia globalizada?

As Quatro Novas Iniciativas Vitais

Estudos mostram que as cidades posicionam-se melhor para o sucesso quando tornam-se muito competentes em realizar quatro iniciativas fundamentais:

- desenvolver-se, através da manutenção e atração de talentos;
- conectar seus cidadãos às oportunidades, a cidade à região e a região à economia global;
- entender o que faz sua cidade peculiar, e ter a confiança de capitalizar essa identidade (ao invés de perseguir a mesma estratégia que todas as outras cidades estão seguindo);
- desenvolver a capacidade para a inovação, no governo e na comunidade.

Talento, conexões, peculiaridade e inovação. Esses são os elementos vitais da cidade, dimensões com base nas quais as cidades da nova geração serão bem sucedidas. Eles conformam o conceito de “cidade criativa”, que aposta no desenvolvimento da capacidade criativa das pessoas e das comunidades. Hoje as lideranças surgem em qualquer lugar, se existir ambiente propício e se houver estímulo adequado. As novas tecnologias da comunicação são ferramentas poderosas para isso, como mostra a campanha de Barack Obama.

Uma Área Central Forte e Vibrante

Ter uma área central da cidade forte e vibrante é um importante acelerador de cada um desses elementos vitais. Essa não é uma lista convencional de temas ou soluções urbanas. Eles não se adaptam facilmente à estrutura organizacional da Prefeitura ou á nossa estrutura convencional de participação cívica. Existe um Departamento de Talentos na Prefeitura de San Jose? Um Diretor de Peculiaridades? Alguém dedicado à Conexões? Alguém responsável por inovação, não somente na Prefeitura (embora isso colocasse sua cidade muito à frente de outras), mas no espaço público? Um grupo absolutamente apaixonado em tornar a área central da cidade vibrante, fazendo dela um acelerador de talentos, conexões, peculiaridades e inovação? É essencial estimular um engajamento mais forte das empresas privadas com o desenvolvimento da cidade, de sua região central e de seus bairros.

Centro Histórico De Porto Alegre

Fiquei entusiasmado ao saber, pelo site do Felipe Vieira, que está nascendo a Rede de Amigos de Centro Histórico de Porto Alegre – AMICHIS. Seu lançamento, de acordo com Rita Chang, coordenadora da iniciativa e Presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural – COMPAHC, será no próximo dia 3 de novembro, na Champanharia Ovelha Negra. Tudo começou com a aprovação da Lei 10.364/2008, que altera a denominação do centro da cidade de Porto Alegre para Centro Histórico da Cidade de Porto Alegre. Mais do que uma mudança de denominação, Rita Chang mostra que essa mudança significou a agregação de um novo valor, fortalecendo a região central como a verdadeira identidade urbana da cidade. Uma coisa, diz Rita, é morar ou ter um negócio no centro da cidade, outra coisa é morar ou ter um negócio no Centro Histórico da cidade. Com essa valorização, uma nova motivação tomou conta dos moradores e empresários do Centro Histórico, além de pessoas de toda a cidade que se sentem igualmente identificadas. Estão sendo formadas inúmeras redes temáticas de cooperação, voltadas a revitalizar a vida cotidiana no Centro Histórico, e quem deseja incorporar-se pode entrar em contato com centrohistoricoportoalegre@gmail.com . A AMICHIS incorpora um elemento crucial para o fortalecimento do Programa Viva o Centro, da Prefeitura de Porto Alegre, que é o engajamento cívico e voluntário de pessoas motivadas, talentosas e empreendedoras.

Desconcentração Da Estrutura Tributária

Li artigo de Fábio Araújo Santos Jr. no jornal Zero Hora cujas principais idéias repercuto pela sua relevância. A atual distribuição de todos os impostos recolhidos no Brasil, considerando as três esferas de governo, tem o seguinte perfil: 70% ficam com o governo federal, 24% com os governos estaduais e 6% com os governos municipais. Ao mesmo tempo, temos uma carga tributária total que se aproxima dos 40% do Produto Interno Bruto do país. Essa enorme concentração dos tributos arrecadados, e pagos com grande sacrifício pela população, é autocrática, abrindo caminho para a manipulação e o controle políticos dos estados e municípios pelo poder central. Nessas condições, continuamos com a velha política do “chapéu na mão” por parte de prefeitos, governadores e parlamentares, que a Constituição Cidadã de 1998 veio para acabar. Essa estrutura tributária é incompatível com uma democracia que se possa chamar por esse nome.


Avançar na Democratização

Para avançarmos na democratização do país, é preciso inverter a nossa pirâmide tributária, pois a proporção dos recursos deve crescer quanto mais próxima a esfera de governo estiver da população. Se há um lugar onde não podem faltar recursos, esse lugar é a esfera local, onde vivem as pessoas e estão as suas necessidades básicas de sobrevivência, bem- estar e bem-conviver. Esse é o princípio fundamental da subsidiariedade, basilar para uma democracia vibrante e presente na vida das pessoas. Ele determina que só deveria ser submetido a instâncias superiores de governo aquilo que não puder ser resolvido nas comunidades e instâncias administrativas locais. Ou seja, para avançarmos na nossa democracia, precisamos empoderar mais os cidadãos e as comunidades locais, criar condições para que a base da sociedade possa caminhar com suas próprias pernas. Devemos eliminar a todas as formas de tutela e dependência que aprisionam, geram passividade e destróem a cultura do voluntariado e do engajamento cívico, essenciais para uma democracia efetiva.