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30 de setembro de 2008

Congresso Rejeita Plano e Bolsa Tem a Maior Queda da História

Por 224 votos a 205 votos, o Congresso norte-americano rejeitou o plano de socorro do governo de 700 bilhões de dólares às empresas financeiras em crise, Entre os democratas, 140 votaram a favor e 95 contra. Já entre os republicanos, uma larga maioria de 133 votaram contra e 65 a favor. Parece incrível que os republicanos derrotaram essa iniciativa decisiva do seu próprio governo. Sem ela, haverá uma quebradeira generalizada de bancos, e a repetição da Grande Depressão. Suas conseqüências, entretanto, serão muito mais generalizadas e devastadoras, pela interconexão mundial que apresentam hoje os mercados financeiros e produtivos. O impacto desse acontecimento na Bolsa de Valores de Nova York foi demolidor: uma queda nas suas operações de 777,68 pontos, a maior de toda a sua história, maior do que a da Grande Depressão e maior também do que a que ocorreu no fatídico 11 de setembro de 2001.

Perdas de 1,2 Trilhões de Dólares Em Um Dia

A queda na Bolsa de Valores hoje representa perdas da ordem de 1,2 trilhões de dólares num único dia, Não há precedente de perdas diárias dessa magnitude na história da Bolsa de Nova York. E a crise não pára de aprofundar-se. O banco Washovia acaba de ser vendido para o Citygroup por um valor simbólico de um dólar por ação e dois bancos quebraram na Europa. De fato, a figura do derretimento dos valores financeiros faz todo o sentido nessa hora. É a explosão de uma gigantesca bolha especulativa de conseqüências devastadoras, ainda imprevisíveis em toda a sua extensão e profundidade.

Porque o Congresso Rejeitou o Plano

O que levou os congressistas a rejeitarem o plano de socorro? Não há dúvida de que o plano é rejeitado pelas pessoas comuns, a esmagadora maioria dos eleitores, que não entendem e não conseguem aceitar o que está acontecendo. O dinheiro que falta para implantar o atendimento público universal à saúde, para apoiar as famílias que estão tendo suas casas confiscadas por incapacidade de pagar as prestações do financiamento, para evitar mais de 60 mil pessoas de perderem seus empregos a cada mês desde o início do ano, para estimular os pequenos negócios e empreendimentos, esse dinheiro até aqui inexistente e tão valioso para melhorar as suas vidas e aplacar seu sofrimento, apareceu de uma hora para outra em volumes nunca imaginados. E o que é pior, está sendo usado para salvar bancos e proteger magnatas de Wall Street, que faliram por praticar abusos na busca de lucros astronômicos na jogatina da especulação financeira desenfreada.

Governança da Crise Também Está em Crise

A batalha da comunicação do plano para evitar algo ainda pior, que é uma profunda recessão econômica e a perda de milhões de empregos, até agora foi perdida. Nessas circunstancias, as lideranças políticas no Congresso e o governo erraram em suas previsões e perderam o comando do processo. Os dois candidatos a presidência, que respaldaram o plano, também foram derrotados. Surgiu um novo e grave problema de governança da crise, sem a resolução do qual haverá mais dificuldades de encontrar o caminho dos próximos passos. Na verdade, os líderes subestimaram a resistência das suas bases políticas para assinar o plano, quando faltam apenas 36 dias para uma eleição que está se transformando num verdadeiro referendo sobre a economia da nação. Cada político, nessa hora, está fazendo os cálculos sobre o seu futuro. Não transparece uma compreensão mais profunda da crise, que pudesse conduzir a uma atitude de missão pela defesa da economia e das responsabilidades do país perante o mundo. Fica, uma pergunta sem resposta: como as lideranças colocaram em votação uma proposta de tamanha importância para o país sem ter uma margem de segurança sobre sua aprovação? Estarão essas lideranças preparadas para compreender o que está em jogo numa crise dessa gravidade e como enfrentá-la? As evidências indicam que essa resposta parece ser não.

Redução dos Cargos em Comissão

É digna de comemoração a posição de todos os candidatos a Prefeitura de Porto Alegre, em matéria do jornal Zero Hora, favorável à redução dos cargos em comissão. Ao contrário de uma prática para assegurar a governabilidade, que é o principal argumento em sua defesa, constitui-se, na verdade, numa maneira de viabilizar o emprego de correligionários, em geral sem experiência na administração pública, que dificilmente seriam aprovados em qualquer concurso público. Tem razão Claudio Weber Abramo, da ONG Transparência Brasil, quando afirma que a distribuição de cargos públicos é, talvez, a principal usina de corrupção no país. Para ele, a cada quatro anos um mar de gente invade o serviço público e destrói a eficácia de qualquer administração.


Profissionalização do Serviço Público


Outros especialistas reforçam os argumentos contra o excesso de CC´s, que caracteriza praticamente todos os governos no Brasil. O cientista político Paulo Moura, da ULBRA, e Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas, analisam que o papel dos cargos em comissão seria o de garantir que os funcionários de carreira coloquem em prática as políticas do candidato eleito, mas na prática trabalham com o objetivo de atender aos interesses do partido e não os do contribuinte e da sociedade. Por outro lado, a contratação desenfreada de CC´s perverte os mecanismos de valorização e ascensão profissional dos funcionários de carreira, pois o servidor concursado que não se acertar com algum partido não terá oportunidade de ascensão na carreira. Essa prática tem sido utilizada por todos os partidos do espectro ideológico brasileiro, e deita suas raízes numa cultura política patrimonialista que já não corresponde mais aos anseios da sociedade. Ela precisa urgentemente mudar, para o bem da democracia e da política no país.

29 de setembro de 2008

Fechado Acordo da Maior Intervenção Governamental na História dos Estados Unidos

Trabalho conjunto de lideranças democratas e republicanas do Congresso, junto com as autoridades econômicas do governo, alcançou um acordo nesse domingo quanto às modificações para viabilizar a aprovação do plano de socorro de 700 bilhões de dólares, a maior intervenção governamental na economia da história dos Estados Unidos. A urgência de fechar o acordo ainda no domingo resulta da necessidade de sinalizar aos investidores em mercados asiáticos, antes de começarem a operar nessa segunda-feira. O Projeto Final que será submetido à votação da Câmara e do Senado norte-americanos é um documento de 110 páginas. As principais modificações introduzidas na proposta original do governo são as seguintes:
-liberação imediata de 350 bilhões de dólares; a segunda parcela do mesmo valor será disponibilizada logo que necessário, a menos que o Congresso se oponha;

- a compra de créditos podres será realizada através de leilões invertidos, ou seja, pelo menor preço de oferta por parte das empresas financeiras apoiadas;

- foram introduzidas maiores restrições ao pagamento de compensações para os executivos das empresas financeiras que serão apoiadas;

- governo usará seu novo papel de proprietário de créditos podres para tomar inciativas visando reduzir o confisco de casas, projetado para dois milhões no próximo ano;

- governo terá participação acionária nas empresas financeiras apoiadas, possibilitando aos contribuintes lucrar caso o plano de socorro funcione e as empresas se recuperem no futuro;

- governo ficará autorizado a adquirir créditos podres em mãos de planos de pensão, governos locais e pequenos bancos, que atendem famílias pobres e de classe média;

- haverá rigorosa supervisão do plano por um Comitê Bipartidário do Congresso e pelo Escritório de Prestação de Contas do Governo, e a definição de regras para evitar conflito de interesses com relação às empresas e assessores que forem contratados pelo Tesouro para auxiliar na execução do plano;

- ficará nas mãos do próximo presidente a iniciativa de definir como será paga qualquer perda que os contribuintes venham a ter, após os créditos terem sido comprados e revendidos.

Tão logo o acordo foi fechado e divulgado, já começam as especulações sobre a eficácia do plano de socorre e surgem dúvidas se o valor de 700 bilhões de dólares será suficiente para estabilizar os mercados financeiros. Considerando o valor do mercado de “credit default swaps” (ver postagem de hoje desse blog), as dúvidas e especulações, no mínimo, são pertinentes.

Sobre as Eleições em Porto Alegre

As principais bandeiras que identificam politicamente a prefeitura de Porto Alegre são a manutençao do Orçamento Participativo e a Governança Solidária Local, compromissos que o então candidato pelo PPS a Prefeito assumiu na campanha e honrou ao longo do seu governo. O fato dessas bandeiras do PPS terem marcado a gestão Fogaça, mesmo com a sua mudança de partido, somadas ao fato de que uma parte dos quadros políticos do PPS, com visibilidade e enraizamento na vida comunitária da cidade, ter permanecido ao seu lado, vem dificultando a candidatura Manuela. Por outro lado, a manutenção do OP contribuiu para esvaziar as propostas do PT e dificultar a candidatura Maria do Rosário. Ou seja, o fato de a alma do PPS ter ficado no governo Fogaça é um fator importante da sua liderança com boa margem no primeiro turno, menos pelo que alavanca Fogaça e mais pelo que segura o crescimento das candidaturas concorrentes mais fortes.

Ausência de Debates Sobre a Democracia na Cidade

Essas duas formas inovadoras e emblemáticas de exercício da democracia na cidade, o Orçamento Participativo e a Governança Solidária Local, e que fazem de Porto Alegre uma cidade reconhecida mundialmente, tem estado praticamente ausentes do debate eleitoral. Ora, essa é a marca genuína de Porto Alegre, sua identidade para o mundo. Agora mesmo, a cidade foi escolhida para participar da Expo Shangai 2010 na China, devido a inovação que a Governança Solidária Local, conjugada com o Orçamento Participativo, significam para o aperfeiçoamento democrático da vida na cidade. Qual a explicação para essa omissão? Será que ela revela o baixo compromisso que os candidatos e suas campanhas tem com o que há de mais importante para uma cidade, que é sua identidade, aquilo que a diferencia e afirma perante as demais cidades, nesse mundo globalizado? Será que não está sendo esquecido que essa marca genuína e mundialmente reconhecida de Porto Alegre é um fator essencial que atrai visitantes e turistas, estudiosos, políticos, executivos públicos, e, inclusive, negócios e novos investimentos? Será que nossos candidatos não estão caindo na mesmice das visões provincianas, quando a sociedade do conhecimento e da globalização exigem um olhar de estadistas, estratégico, sistêmico e universal?

Bolha Especulativa de 62 Trilhões de Dólares

Reproduzo, em tradução livre, uma notícia que saiu recentemente no Wall Street Journal e que faz uma revelação, em meu entender, estarrecedora. Os chamados “credit default swaps” (contratos de proteção de créditos não-pagos), um mercado desregulamentado desde o ano 2000, cresceu a ponto de atingir o astronômico valor de 62 trilhões de dólares. Para ter-se uma idéia do que esse valor representa, ele equivale praticamente ao valor de todo o Produto Interno Bruto Anual Mundial, que é hoje da ordem de 65 trilhões de dólares. Ou então, a mais de quatro vezes o PIB anual dos Estados Unidos, que é da ordem de 15 trilhões de dólares. Diante da atual crise de confiança nos merdados financeiros, pela primeira vez os especuladores começam a avaliar que esses contratos que tem em mãos poderão não ter mais valor algum. Ou pior, esses contratos poderão representar um débito massivo, de tal magnitude que ninguém teria fundos para bancar.

A Notícia do Wall Street Journal

‘Credit Default Swaps” (Contratos de Proteção de Créditos não-Honrados) são contratos negociados entre instituições financeiras privadas, que agem como seguros, e protegem investidores contra o não pagamento de títulos e empréstimos. Compradores de “swaps” fazem pagamentos regulares aos vendedores, os quais, por sua vez, concordam em fazer grandes reposições em dinheiro caso não-pagamentos venham a ocorrer.
O Departamento de Seguros do Estado de Nova York modificou posição anterior e editou orientação declarando que alguns contratos de “credit default swaps” são “considerados uma forma de seguro e portanto sujeitos a regulação estatal”. As regras deverão entrar em vigência em Janeiro de 2009, e cobririam “swaps” comprados por investidores que também são proprietários dos títulos e empréstimos aos quais os “swaps” estão vinculados. As regras envolvem os compradores e vendedores do Estado de Nova York, mas eles representam uma grande fatia do mercado. E essa iniciativa de Nova York poderá inspirar regras semelhantes em outros estados.”

Mercado Cresceu de Forma Explosiva

“Na medida em que no ano 2000, o Departamento de Seguros do Estado de Nova York definiu que esses contratos não eram uma forma de seguro, as agências reguladoras efetivamente ignoraram esse mercado, que cresceu até atingir hoje contratos no valor de 62 trilhões de dólares, e tem sido criticado recentemente por estar contribuindo para uma massiva volatilidade dos mercados de crédito e de ações. Porque são derivativos vinculados a títulos, os compradores de “swaps” podem lucrar se a proteção que eles compraram aumenta de valor. Isso tem feito muitas pessoas começarem a ver na compra de “credit default swaps” o mesmo que fazer rápidas apostas contra empresas. Muitos comerciantes de derivativos e analistas ficaram desnorteados com a mudança nas regras da agencia reguladora de Nova York.”

28 de setembro de 2008

Sinais da Crise por Todos os Lados

Enquanto governo e Congresso não chegam a um acordo sobre uma solução global para a maior crise econômica desde a Grande Depressão, sinais de seu agravamento aparecem por todos os lados. Nessa última quinta feira à noite, o Washington Mutual, maior banco de poupança e empréstimos, com 2300 agências espalhadas pelo país, teve que ser salvo pelo governo, para evitar a maior quebra bancária da história dos Estados Unidos. As autoridades econômicas negociaram a venda da quase totalidade do banco para o JPMorgan Chase, e o que restou dele foi assumido pelo governo. Nessa sexta-feira, o Wall Street Journal anuncia que o banco Wachovia está em negociações com possíveis compradores, tendo perdido 27% no valor de suas ações nos últimos dias. Nos jornais dessa sexta-feira, aparecem anúncios desse tipo: uma chamada em destaque “Quebra da Bolsa de Valores” e o texto “Devido à quebra da bolsa de valores, eu sou forçada a vender minha casa de 3 dormitórios abaixo do seu preço. Você fixa o preço. Minha perda é seu ganho. Adquira uma casa, com seu crédito bom.” O anúncio é assinado por Jonie O´Brien e leva sua foto, para não haver dúvidas.

A Dinâmica da Quebra de Wall Street

A demanda por seguro-desemprego saltou para 493 mil nesse ano, o maior nível desde o período que se seguiu ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, devido ao impacto da desaceleração da economia, amplificado pelas vítimas dos furacões Ike e Gustav. Mesmo eliminando os efeitos dos furacões, segundo os especialistas, os números refletem um sinal de recessão. Já a venda de casas novas caiu em agosto para o seu menor nível desde 1991, 460 mil unidades por ano, enquanto o preço médio de venda de casas novas caiu para níveis nunca antes registrados, de 221.900 dólares por unidade. O mesmo está ocorrendo com o mercado de casas usadas. O crescimento do desemprego, a redução do poder de compra dos salários e a consequente incapacidade das famílias de pagarem seus financiamentos, provocou o surto de hipotecas não-pagas e de confisco de casas, num ritmo médio que chegou a 10 mil casas por dia. Seguiu-se a deterioração do mercado habitacional, com a queda tanto nas quantidades vendidas como nos preços praticados, causando perdas de bilhões de dólares às empresas financeiras. A falta de regulação e controle preventivos por parte do governo permitiu que esse círculo vicioso crescesse, a ponto de se transformar numa severa crise nos mercados financeiros do país, que acabou levando à quebra de Wall Street.

Governos Locais e Estaduais no Turbilhão da Crise

Os governos locais e estaduais também entraram no turbilhão da crise. A agência de desenvolvimento da prefeitura de San Jose, capital do Vale do Silício, teve que suspender a venda de bônus, cujos resultados seriam destinados a viabilizar vários investimentos sociais e culturais na cidade, porque o mercado de crédito do país está praticamente congelado. Por sua vez, o desemprego e as perdas salariais, somadas a queda no mercado habitacional, provocam a redução dos impostos pagos sobre as vendas e sobre a propriedade, as duas principais fontes de receita dos governos sub-nacionais, tanto os Estados como as prefeituras. Com menor receita, os governos sub-nacionais acabam tendo que reduzir seus investimentos sociais e em infra-estrutura, contribuindo para a deterioração dos serviços públicos essenciais e da qualidade de vida nas comunidades.

Seria o Plano de Socorro o Melhor Remédio para a Crise?

Na medida em que se aprofundam os debates sobre o plano de socorro de 700 bilhões de dólares proposto pelo governo Bush, com a participação de economistas, especialistas, executivos da área financeira e, inclusive, opiniões e sentimentos de pessoas comuns, começam a surgir dúvidas crescentes sobre a eficácia e, inclusive, sobre a necessidade de ser aportado tal volume de recursos públicos para salvar instituições financeiras quebradas. A pergunta recorrente entre as pessoas comuns, como Gene Thomas, um vendedor de salsichas é : “porque os contribuintes tem que pagar essa conta?”. Ou, então, “nós estamos salvando os grandes, e isso me deixa preocupado sobre meus três netos, porque serão eles os que pagarão por tudo isso”. Já os estudiosos questionam se o governo deveria comprar créditos podres das empresas financeiras, como propõe o plano, ou deixar que os mecanismos existentes de seguros de depósitos façam seu trabalho, quando assim for necessário, depois de rigorosas auditorias e investigações.

Uma Alternativa ao Plano de Socorro

Para viabilizar essa alternativa, em vez de utilizar recursos para comprar créditos podres, com todas as complicações operacionais e éticas envolvidas, o governo capitalizaria a “Federal Deposit Insurance Corporation” (Corporação Federal de Seguros de Depósitos), que daria cobertura aos depósitos quando necessário. E para realizar as auditorias e investigações, e só bancar as operações realizadas corretamente e sem fraude, o governo disponibilizaria recursos ao “Federal Bureau of Investigation” (o famoso FBI). O trabalho conjunto dessas duas agências federais, segundo James Galbraith, enfrentaria a crise de forma mais eficaz, ética e a menor custo para os contribuintes. Ao lado disso, é claro, seriam necessárias medidas estruturais para retomar o crescimento do mercado habitacional, reequilibrar os orçamentos dos governos sub-nacionais, e abrir um novo campo de investimentos produtivos e inovação no país. A área mais necessária de grandes investimentos é a da energia, que poderia impulsionar um novo surto de desenvolvimento e geração de oportunidades nos próximos anos.

27 de setembro de 2008

Impressões Sobre o Primeiro Debate Presidencial

Acompanhei o primeiro debate entre Obama e McCain junto com dezenas de pessoas no Comitê do Vale do Silício por Obama. Já fui lá várias vezes e nunca tinha visto tanta gente, comida, refrigerante, um ambiente acolhedor e animado. Por todo o país, foram milhares de reuniões desse tipo em comitês, casas, clubes, restaurantes, igrejas. Na minha opinião, Obama foi muito melhor quando o debate concentrou-se na crise econômica e nas propostas para o futuro do país. Já McCain foi melhor nas questões de política externa e segurança nacional. Ambos, no entanto, revelaram não ter ainda assimilado a gravidade e a profundidade da crise econômica que o país está vivendo, cujas consequências poderão afetar seriamente a execução de seus programas para o governo dos Estados Unidos.



O Debate Sobre a Economia do País

No debate sobre a economia e o futuro do país, MacCain não conseguiu ir além de repetir exaustivamente que sua principal política será o controle dos gastos públicos e da corrupção, que teriam tomado conta de Washington e das agências governamentais. Segundo McCain, sua diferença central é a de que ele quer cortas gastos, enquanto Obama que expandir gastos públicos. Obama explicitou os eixos de sua proposta, o corte de impostos para 95% das famílias trabalhadoras, a ampliação do sistema de atendimento à saúde, a independência energética do país em dez anos, investimentos em ciência e tecnologia para que o país possa competir globalmente e a reconstrução da infra-estrutura, sobretudo de estradas. Obama questionou a política de McCain de cortar gastos, quando defende a redução de impostos para as grandes corporações e propôs que o corte seja feito nos 10 bilhões de dólares gastos por mês no Iraque.



O Debate Sobre a Política Externa e de Segurança Nacional

Quando o debate deslocou-se para as questões do Iraque, Iran, Rússia, Paquistão e Afeganistão, McCain demonstrou mais segurança e conhecimento. Obama perdeu terreno nesse tema, porque as diferenças com McCain não são menos de substância e mais de estilo e de ênfase. Obama diverge de McCain sobre a necessidade da guerra ao Iraque. No mais, McCain quer concentrar forças no Iraque, enquanto Obama propõe deslocar forças para o Afeganistão e o Paquistão, porque o alvo deveria ser a Al Qaeda e Osama Bin Laden. Obama quer dialogar com todos, sem impor pré-condições, e melhorar as relações do país com o mundo, que se deterioraram. McCain não aceita dialogar com os inimigos dos Estados Unidos, porque seria legitimá-los e defende a atual política externa do governo. Sobre a Rússia, ambos concordaram que são inaceitáveis suas ações agressivas sobre as nações soberanas, como a Geórgia e a Ucrânia.



Estados Unidos Ainda Como Juizes do Mundo

Obama, como McCain, passam a idéia de um país que ainda continua a comportar-se como um juiz do mundo, um vigia das liberdades e da democracia, como se as demais nações fossem incapazes de cuidar de seu próprio destino, como se a auto-determinação de cada povo e de cada nação não tivesse que ser respeitada. Creio que no final do debate, Obama recuperou a iniciativa quando, de forma inteligente, conectou a segurança do país com sua prosperidade econômica. “Não há país no mundo com sua economia em declínio que conseguiu manter superioridade militar. O próximo presidente tem que ter uma visão mais ampla de segurança nacional. Parte do nosso trabalho de manter a segurança nacional será voltar a fazer os Estados Unidos serem vistos como uma terra de oportunidades, como fomos no passado.”

Norte-Americanos Desconhecem o Oriente Médio

Quando se realiza o primeiro debate nacional entre os dois principais candidatos à presidência, cujo tema central é a política exterior dos Estados Unidos, vale a pena comentar a conferência que acabo de assistir do correspondente estrangeiro e jornalista Robert Fisk. Chefe do Escritório do Oriente Médio do “The Independent”, Fisk é vencedor do Prêmio de Jornalista Internacional do Ano na Inglaterra por sete vezes, e dedicou-se a analisar a cobertura que a mídia norte-americana faz do que ocorre no Oriente Médio. A linguagem utilizada, segundo Fisk, é “semantizada”, para não mostrar os fatos tais como realmente são. E descontextualizada: a foto de um jovem palestino atirando uma pedra é utilizada para mostrar um povo violento, quando, na verdade, ele está tentando defender a terra de sua família de alguém que tenta ocupá-la. O Oriente Médio é uma tragédia humana, parece como se existisse um muro na mídia que tenta impedir os norte-americanos de compreenderem o que está acontecendo lá, quais os problemas que enfrenta. A cobertura é igual a que foi feita sobre o 11 de setembro, sempre para responder quem, ou como, nunca para responder por que se chegou a essa situação. Os jornalistas, segundo Fisk, tem que ler menos releases e mais livros de história, porque muito do anti-americanismo muçulmano resulta dos erros que cometemos na história de nosso relacionamento.

Não Há Um Conflito de Civilizações

Continuamos achando que temos que impor os padrões da democracia ocidental, nossa cultura e nosso modo de vida a um povo considerado bárbaro e atrasado. Ou, como afirmou uma alta autoridade militar dos Estados Unidos, “nós estamos aqui para libertar esse povo de séculos de tirania”. Será que vamos repetir no Afeganistão, no Iran, na Síria, os fracassos do Iraque? Fisk sugere que os norte-americanos deveriam ampliar suas relações com o mundo muçulmano em todos os níveis, econômico, social, político, cultural, religioso e inclusive turístico, para poder entendê-lo melhor. Será que o Islam é mesmo uma ameaça para nós, pergunta. É falsa a concepção de que há um conflito de civilizações entre nós e o Oriente. Na verdade, ver um homem ou uma mulher diferente, não é ver um adversário ou um inimigo, é ver um irmão, seja em religião, ou em humanidade. Fisk não consegue explicar, no entanto, porque Tony Blair, depois de ajudar a pacificar a Irlanda e transformar-se em estadista, colocou-se ao lado de Bush na invasão do Iraque, comprometendo toda a sua carreira política.

26 de setembro de 2008

Saia Justa Para os Republicanos

Das negociações políticas que se realizam em torno do plano de socorro de 700 bilhões de dólares para as instituições financeiras, está ficando claro que os republicanos são os que estão criando mais dificuldades. Não porque eles não queiram salvar os bancos e evitar um colapso na economia norte-americana e mundial. O motivo é outro. Eles sempre defenderam, em toda a sua história, um governo ausente da regulamentação da economia, que o mercado deve ser deixado livre, porque em liberdade ele se auto-regula e equilibra. Agora, estão sem discurso político para justificar uma proposta de seu próprio governo, que realiza a maior intervenção de um governo na economia desde a Grande Depressão, há cerca de 80 anos atrás. O próprio Presidente Bush e seu governo estão constrangidos e mal na foto, porque até hoje sempre defenderam a filosofia da liberalização dos mercados, cujo principal postulado é reduzir a interferência do governo na economia, que só prejudicaria o seu funcionamento. E agora José?

McCain Deu o Lance Mas Saiu Fragilizado

Outro fato inusitado está acontecendo. O candidato republicano John McCain, que propôs a suspensão da campanha e o encontro em Washington, reunindo os candidatos à presidência, líderes partidários e o Presidente Bush, com um discurso muito semelhante aos democratas, de apoio ao plano de socorro, atendidas determinadas condições, está ficando sem chão, uma vez que não está conseguindo o respaldo que imaginava de sua própria base partidária. Dada a gravidade da situação da economia, é provável que acabe ocorrendo um acordo para a aprovação do plano de socorro. Entretanto, o saldo político será um cheque-mate no histórico discurso republicano, deixando a candidatura republicana com pouco chão, e fortalecendo a filosofia democrata de maior regulação e presença do Estado na economia, abraçada por Obama . Está igualmente resultando em desgaste para McCain sua proposta de suspender o primeiro debate nacional entre os candidatos a presidente, marcado para amanhã.

A Democracia Representativa Local

Enquanto acontece a mais importante campanha eleitoral das últimas décadas, Adicionar imagemsimultanemente com a mais grave crise econômica desde a Grande Dpressão, a vida nos Estados Unidos segue seu curso normal. As pessoas trabalhando, as escolas já retomando o novo ano letivo, as milhares de vítimas do furacão Ike reconstruindo suas vidas, ainda vivas as imagens chocantes da destruição no Texas, as instituições democráticas funcionando. Acabo de assistir a uma sessão da Câmara de Vereadores de Mountain View, cidade do Vale do Silício com 70 mil habitantes, onde moro. São sete Vereadores, quatro homens e três, mulheres, eleitos diretamente para quatro anos de mandato, sendo que o Prefeito e a Vice foram eleitos indiretamente pelos colegas. Realizam-se duas sessões mensais ordinárias do Plenário e tantas extraordinárias quanto necessário, por convocação do Prefeito.


Remuneração Simbólica

Os Vereadores tem apenas uma remuneração simbólica, como em geral acontece nas cidades pequenas e médias. Só nas grandes cidades dos Estados Unidos, onde o trabalho do Vereador exige tempo integral, há remuneração integral. A Prefeitura tem 600 funcionários e um orçamento de 240 milhões de dólares. Uma cidade relativamente muito mais rica e uma prefeitura muito mais enxuta do que qualquer cidade brasileira. A cidade é administrada por um “City Manager” (Gerente de Cidade), um gestor profissional, como um CEO de uma empresa, sendo que a Câmara de Vereadores faz o papel do Conselho de Administração, que define as diretrizes e toma as decisões políticas que orientam a gestão. Tanto o Gerente da Cidade como o Procurador Geral tem que participar de todas as sessões da Câmara de Vereadores. Em todas as sessões da Câmara é garantido um espaço para manifestações do público, com tempo de 3 minutos para cada intervenção. Não há um modelo político e de gestão único para todas as cidades. Há outras em que o Prefeito é eleito diretamente junto com os Vereadores, e nesses casos assume mais diretamente a gestão da cidade, reduzindo o papel do Gerente.

25 de setembro de 2008

Crise Provoca Suspensão da Campanha

A necessidade de aprovar com urgência o plano de socorro do governo ao sistema financeiro no valor de 700 bilhões de dólares, devido à gravidade da crise econômica, levou Barack Obama e John MCain a suspender a campanha eleitoral. Ambos acordaram em encontrar-se com o Presidente Bush e líderes dos partidos democrata e republicano no Congresso nessa quinta-feira, a fim de estabelecer um grande acordo nacional para enfrentar a crise. Obama e McCain concordaram em firmar uma declaração de princípios comuns, que deveriam nortear as emendas de parlamentares dos dois partidos ao plano de socorro governamental. Suas equipes de assessoria ficaram encarregadas de negociar os termos desse entendimento, que deverá passar pela definição de mecanismos que assegurem que o dinheiro dos contribuintes retorne aos cofres públicos, formas de apoio aos compradores de moradias que estão tendo suas casas confiscadas por falta de pagamento, a constiuição de um conselho de supervisão e controle da execução do plano e a supressão dos benefícios extraordinários recebidos pelos executivos das instituições financeiras responsáveis pela crise. Não houve acordo com relação à proposta de McCain de tranferir para outra oportunidade o primeiro grande debate nacional, que está marcado para essa sexta-feira, dia 26, à noite.

Crise Econômica Favorece Obama

Acaba de ser divulgada a última pesquisa do jornal Washington Post e da ABC News. Segundo essa pesquisa, o abalo da indústria financeira e o pessimismo sobre a economia sugerem haver-se alterado o cenário da disputa eleitoral. O candidato democrata, Barack Obama, pela primeira vez, mostra uma clara vantagem de 9 pontos percentuais sobre o candidato republicano John McCain. Obama está com 52% e McCain com 43%. Duas semanas atrás, logo depois da Convenção Republicana que indicou a chapa McCain-Palin, a disputa estava praticamente empatada com 49% para McCain e 47% para Obama. A maior parte dos eleitores confia mais em Obama do que em McCain para lidar com a crise econômica e suas conseqüências na vida das pessoas. Hoje, 50% dos pesquisados consideram a economia e os empregos o tema isolado mais importante que determinará seu voto. Esse percentual era de 37% duas semanas atrás.

Carta de Barack Obama Sobre a Crise

Reproduzo a última carta que recebi do candidato democrata. É útil conhecê-la porque expõe os princípios gerais de sua posição sobre a crise, sua posição sobre o plano de socorro às instituições financeiras e as prioridades de seu plano de recuperação econômica e social do país.

Cezar:

A era do lucro fácil e da irresponsabilidade em Wall Street e em Washington criou uma crise financeira tão profunda como nenhuma outra que nós enfrentamos desde a Grande Depressão.
O Congresso e o Presidente estão debatendo um socorro para nossas instituições financeiras que custará 700 bilhões de dólares de dinheiro dos contribuintes. Nós não podemos subestimar nossa responsabilidade em dar esse passo tão enorme.
Seja qual for a forma que nosso plano de recuperaçao tomar, ele deve ser guiado por principais essenciais como honestidade, equilíbrio e responsabilidade uns para com os outros.

Por favor assine para mostrar seu apoio a um plano de recuperação econômica baseado no seguinte:


- Não a Para-quedas Dourados : dólares dos contribuintes não devem ser usados para premiar os executivos irresponsáveis de Wall Street que promoveram esse desastre;
- “Main Street” (Rua Principal), Não Somente Wall Street – qualquer plano de socorro tem que incluir uma estratégia de devolução para os contribuintes que estão pagando a conta e ajuda a inocentes proprietários de casas que estão enfrentando confisco;
- Suepervisão Bipartidária – a assombrosa quantia de dinheiro dos contribuintes envolvida impõe um conselho bipartidário que assegure a sua supervisão e prestação de contas.


Mostre seu apoio e estimule seus amigos e familiares a juntar-se a você:
http://my.barackobama.com/ourplan


As políticas econômicas fracassadas e a mesma cultura corrupta que nos conduziu a essa bagunça não nos ajudarão a sair dela. Nós precisamos trabalhar imediatamente na reforma do governo falido – da política falida – que são as causas que permitiram que essa crise ocorresse.
E nós temos que entender que o plano de recuperação é apenas o começo. Nós temos um plano que garantirá nossa prosperidade de longo-prazo – incluindo redução de impostos para 95% das famílias, um plano de incentivos econômicos que criará milhões de novos empregos e nos conduzirá para a independência energética, e assistência à saúde viável para todos os americanos.


Não será fácil. O tipo de mudança que nós buscamos nunca é.
Mas se nós trabalharmos juntos e nos apoiarmos nesses princípios, nós podemos superar essa crise e emergir como uma nação mais forte.


Obrigado,


Barack

24 de setembro de 2008

Crise: Falta de Informações e Transparência

Acompanhei ao vivo a primeira audiência pública da Comissão de Bancos do Senado norte-americano, com a presença do Secretário do Tesouro, Henry Paulson, e do Presidente do Banco Central, Ben Bernanke. Uma sessão histórica.Testemunhei o ceticismo com que a maior parte dos Senadores, tanto democratas como republicanos, estão analisando o socorro bancário de 700 bilhões de dólares do governo. A primeira pergunta feita atingiu um tema crucial: porque o Congresso não recebeu anteriormente nenhuma informação sobre a gravidade da crise dos mercados financeiros, que permitisse ações de caráter preventivo? Porque o Congresso ficou sabendo há uma semana atrás da necessidade de 700 bilhões de dólares para enfrentar a crise? Ficou escancarada a completa falta de informações e, portanto, de transparência, nas relações do mercado financeiro, autoridades da área econômica e o Congresso. A boa prática democrática, que pressupõe boa informação e transparência, efetivamente não está ocorrendo com relação à área econômica, que é a base do funcionamento da sociedade, aqui e em todos os demais países do mundo.

Crise: Saída é a Retomada do Crescimento


Não há dúvida de que a origem imediata da crise seja o mercado de financiamento habitacional, com cerca de 10 mil famílias, diariamente, tendo suas casas confiscadas pelas instituições financeiras, por falta de pagamento dos financiamentos tomados. Por isso, resgatar os créditos podres em mãos das instituições financeiras e corrigir as distorções desse mercado são consideradas medidas necessárias e urgentes para estabilizar o sistema de crédito da economia. Os Senadores também estão exigindo provisões específicas no plano de socorro para reduzir o confisco de casas. Entretanto, o problema de fundo é outro: as famílias não estão conseguindo pagar seus financiamentos porque os salários perdem poder aquisitivo diante da inflação e, em média, mensalmente, cerca de 70 mil trabalhadores perdem seus empregos. Portanto, a recuperação do mercado habitacional é a solução estrutural para a crise dos mercados financeiros e essa só virá com a retomada do crescimento da economia norte-americana, que ninguém consegue prever quando ocorrerá.


Crise: Sem Garantias de que o Plano Funcione

Vários Senadores insistiram na pergunta: qual a garantia de que o plano vai dar certo? Nenhuma das autoridades da área econômica deu uma resposta firme. Repetiram que a única certeza que tem é de que a alternativa ao plano de socorro seria muito pior, pelas repercussões em termos de agravamento do desemprego e da perda de salários que a quebra do sistema financeiro provocaria na economia como um todo, tanto nos Estados Unidos como nos demais países do mundo. A reação dos senadores foi dura: “se vocês não estão dando nenhuma garantia de que o plano vai funcionar, como podemos apoiá-lo? Vocês não estarão aqui em janeiro de 2009 e seremos nós que teremos de explicar aos nossos eleitores o seu eventual fracasso. O que nós faremos se daqui há alguns meses for necessário ainda mais dinheiro?” Ben Bernanke foi claro: “nós não sabemos o que vai acontecer nos próximos meses”. Chegou a ser feita a proposta de envolver os Bancos Centrais dos demais países do mundo no co-financiamento do socorro ao sistema bancário.


Crise: Como Determinar o Valor dos Créditos Podres?


A pergunta que gerou maior tempo de debates: como determinar o valor de compra e de venda dos créditos podres? São inúmeros tipos de créditos, seja na forma de hipotecas habitacionais, ou de seguros vinculados a elas. É impossível nesse momento calcular seu fluxo de caixa futuro. Portanto, a sugestão das autoridades econômicas é a busca de apoio de especialistas e a realização de “reverse auctions” (leilões invertidos), ou seja, em que os créditos serão comprados ao menor preço e vendidos no futuro ao maior preço ofertado. Mas tanto Bernanke como Paulson reconheceram que ainda não há uma metodologia definida, que assegure o pagamento de preços justos para os créditos podres. Diante disso, ficou sem resposta a pergunta dos Senadores quanto a estimativa do custo total do plano de socorro para os contribuintes, no final de sua implantação. Foi revelado pelas autoridades econômicas que os recursos do plano de socorro também poderão ser utilizados para aquisição de outros créditos podres, como dívidas de cartões de crédito e empréstimos para estudantes. Vários Senadores ficaram contrariados com essa possibilidade.


Crise: Autorização do Valor em Parcelas

Cresceu ao longo da Sessão da Comissão de Bancos do Senado a proposta de autorizar os valores do plano de socorro aos bancos por tranches trimestrais. Cada uma delas teria o valor de 150 bilhões de dólares, uma vez que as autoridades econômicas previram a utilização de não mais do que 50 bilhões por mês na compra de títulos podres. Segundo os Senadores, haveria uma primeira autorização de 150 bilhões e, em janeiro, seria feito exame do que deu certo ou não e definidos os próximos passos. Tanto Bernanke como Paulson reagiram contra a proposta, afirmando que a autorização do valor global é necessária para passar confiança a um mercado de crédito instável e paralizado, que necessita voltar a funcionar para não penalizar ainda mais a economia como um todo. Essa resposta reforçou a exigência de uma rigoroso e transparente sistema de supervisão e controle, limitando os poderes e a autonomia que o Secretário do Tesouro deseja ter na implementação do plano.


Crise: Insegurança e Improvisação das Autoridades

As manifestações das autoridades econômicas do governo na Comissão de Bancos do Senado transpareceram a improvisação com que foi elaborado o plano de socorro e a insegurança com que estão sendo dados esses primeiros passos para viabilizar sua implantação. Ao mesmo tempo, ficou evidente a sua ansiedade para que uma autorização urgente do Congresso ocorra, de modo a que possam começar a agir. Para boa parte das questões dos Senadores, a resposta foi: “nunca lidamos com isso antes”; “experimentação, teremos que trabalhar nisso juntos”. Bernanke admitiu: “Não podemos engessar a legislação com muitas restrições, porque precisamos de flexibilidade para lidar com um problema novo”. Afirmações de Paulson : “um dos problemas é o excesso de complexidade de muitas dessas operações, que esconde o tamanho de sua iliquidez”; “é uma vergonha para essas instituições financeiras e para os Estados Unidos. Tem muita culpa a ser apurada. Estamos todos frustrados”; “compartilho a revolta dos senhores Senadores”. Chegou a causar constrangimento a declaração de Paulson de que ficou “chocado com a constatação de que todo o atual sistema de regulação do mercado financeiro está inadequado, porque foi feito para uma realidade do passado e não para a que temos hoje”. Um Senador questionou: “como, se durante 7 anos o senhor foi o principal executivo do Goldman Sachs?”

O Fim da Especulação Financeira Desenfreada

Após perderem a metade de seu valor de mercado ao longo desse ano, a decisão dos dois últimos bancos de investimentos privados independentes – Goldman Sachs e Morgan Stanley - de transformar-se bancos comerciais, sujeitos a regras de controle mais rigorosas por parte do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, encerra a chamada moderna Era de Ouro das finanças de Wall Street. Foi nesse longo período, de cerca de duas décadas, quando dezenas de bancos de investimentos obtiveram fabulosas taxas de rentabilidade, obtidas à base de práticas heterodoxas e altamente arriscadas de especulação financeira. Essas práticas acabaram fazendo escola em todo o mundo.

Surgirão Novas Modalidades de Especulação?

Na última década, o mercado habitacional foi a base dessas transações financeiras de alto risco, que se traduziam em operações colaterais, derivativas e outras tantas manobras que permitiam multiplicar os financiamentos sem garantias reais. Hoje, o Goldman Sachs tem ativos financeiros de 22 dólares para cada dólar de capital próprio. O Morgan Stanley tem 30 dólares de ativos para cada dólar de capital. Ao transformar-se em bancos comerciais, terão que transitar para uma nova posição, semelhante a do Bank of America, que tem menos de 11 dólares para cada dólar de capital. Com menos dinheiro para emprestar com relação ao seu capital próprio, tornar-se-ão instituições financeiras mais sólidas, mas isso também significará uma limitação em seus lucros. Até um ano atrás, os bancos de investimento, gigantes das finanças mundiais, consideravam a regulamentação dos mercados financeiros uma proposta a ser evitada a qualquer custo. Os bancos comerciais, no entanto, sempre estiveram sujeitos a restrições em termos de quanto dinheiro eles podem emprestar e em quais tipos de negócios eles podem envolver-se. A pergunta que não quer calar: com tanta disponibilidade de liquidez mundial, os mercados não acabarão desenvolvendo novas formas de especulação?

23 de setembro de 2008

Socorro aos Bancos e Sociedade

Na medida em que a discussão sobre a proposta de 700 bilhões de dólares de socorro ao sistema financeiro se aprofunda, começam a ser feitas perguntas críticas: porque então não é feito um plano de proteção para os mais de 600 mil trabalhadores que foram desempregados somente nesse ano? Porque não é feito um plano de proteção para as centenas de milhares de famílias que perderam suas casas por não ter condições de pagá-las nos últimos anos? Porque os contribuintes tem que pagar uma conta de quase 1 trilhão de dólares pelos abusos do mercado financeiro especulativo e pela aplicação de uma filosofia econômica equivocada de liberalização de mercado por parte do governo? Que tipo de capitalismo realmente existente está sendo construído no país referência da democracia para o mundo? Um capitalismo que privatiza lucros e socializa prejuízos? A quem realmente estamos beneficiando? Afinal, quais os valores fundamentais de nossa sociedade?

Socorro aos Bancos e Democracia

Ou seja, porque a esmagadora maioria da sociedade não foi considerada pela decisão governamental de salvar os bancos?
Fica claro que o atropelo com que o plano de salvamento dos bancos foi colocado em prática desconsiderou a prática democrática, que exige que as decisões governamentais levem em conta os interesses do conjunto da sociedade. Criou-se um fato consumado e, agora, o Congresso está buscando alternativas para legitimar o plano perante a opinião pública e a população dos Estados Unidos. Os democratas estão cumprindo esse papel, exigindo que sejam incluídas emendas ao plano que favoreçam o cidadão comum, que assegurem que as causas originais da crise sejam enfrentadas, ou seja, a redução do valor das moradias e a redução da renda das famílias que adquiriram e não conseguiram pagar suas moradias. A recuperação do mercado habitacional permanece incerta e, no entanto, é considerada a variável essencial para a recuperação financeira da nação. Os democratas estão cobrando também regras rígidas de regulação do mercado financeiro para aprovar o plano. “Nós não podemos dar um cheque em branco para Washington”, afirmou o candidato democrata Barack Obama, exigindo também o rigoroso controle e monitoramento da implementação do plano proposto pelo governo Bush.

Conversa Pessoa a Pessoa

A experiência mais interessante e inovadora em termos de campanha eleitoral que estou vivendo aqui é a participação em reuniões que se realizam nas casas das famílias, onde pessoas voluntárias se reúnem para trabalhar em favor da candidatura Obama. A última de que participei foi na casa de Elsa Schafer, num bairro de classe média alta da cidade de Belmont, aqui no Vale do Silício. A Elsa é uma voluntária da ONG http://www.moveon.com/ . Eram 18 vizinhos presentes, como sempre uma minoria de 3 homens. Fui muito bem recebido, com muita naturalidade, todos gostaram que, mesmo sendo estrangeiro, disse que estava tentando ajudar para termos um mundo mais pacífico.

Envolvimento da Vizinhança

A Elsa abriu a reunião dizendo que nunca tinha visto antes uma campanha assim, com tanta mobilização nas famílias e vizinhanças. Em seguida, as pessoas passaram a ser treinadas em como dar um telefonema efetivo para pessoas previamente identificadas em listas, convidando-as para engajar-se nas atividades da campanha em suas comunidades. O contato pessoa a pessoa por telefone, ou em visitas porta a porta, vizinho a vizinho, é considerada a forma mais efetiva de envolvimento. Uma das principais páginas da campanha pela internet – http://www.mybarackobama.com/ - acaba de lançar uma mobilização nacional vizinho a vizinho, fornecendo para a pessoa interessada a relação dos vizinhos na sua própria comunidade para entrar em contato, seja por telefone ou em visitas porta a porta.

Esforço Especial em Estados Críticos

Há um esforço especial para mobilizar voluntários para deslocar-se para os Estados onde Obama tenta reverter os resultados. Nevada é o Estado para onde os californianos estão sendo chamados a se deslocar. Após o breve treinamento, cada um vai para um lugar da casa com seu telefone celular e começa a fazer telefonemas. No final, avaliação dos resultados, comemoração dos novos voluntários conquistados e definição dos próximos encontros de trabalho. É assim, com muita dedicação, idealismo e organização, que está sendo tecida uma rede que já alcança mais de dois milhões e meio de voluntários dedicados a convencer as pessoas a tomar duas atitudes fundamentais no próximo dia 4 de novembro: ir às urnas e votar em Obama.

22 de setembro de 2008

Negociação Política do Socorro aos Bancos

O Governo Bush propôs ao Congresso o que deverá constituir-se no maior plano financeiro de ajuda da história dos Estados Unidos, dando ao Tesouro plenos poderes para comprar cerca de 700 bilhões de dólares em ativos podres da dívida hipotecária das instituições bancárias. O valor, em dinheiro dos contribuintes, equivale a tudo o que os Estados Unidos gastaram até agora na guerra do Iraque e é maior do que os gastos do Pentágono nos últimos doze meses. Se for considerado o gasto anual do governo no principal programa social de ajuda a 900 mil crianças de famílias pobres, que é de 7 bilhões de dólares, o valor proposto financiaria o programa por 100 anos. Os democratas estão anunciando que vão incluir nas negociações para aprovar a proposta a garantia de que o governo vai imediatamente colocar em prática um plano para ajudar centenas de milhares de famílias que estão ameaçadas de perder suas casas pela dificuldade de pagar seus financiamentos habitacionais.

Endividamento Público Irresponsável

Chama a atenção e desperta dúvidas a simplicidade da proposta, que contem menos de 3 páginas. É questionado igualmente o fato de que, enquanto o governo tem sido incapaz de obter os recursos necessários para pagar pela assistência à saúde e outras necessidades básicas, o mesmo governo revela-se preparado para enfrentar imediatamente a turbulência financeira de Wall Street. Fica ainda a dúvida de porque outros setores da economia em dificuldades, como o automobilístico e as empresas de transporte aéreo, não estão recebendo a proteção governamental que beneficiou o setor financeiro. Ou seja, o governo abriu um precede que deverá custar-lhe, ou um desgaste político ainda mais acentuado, em vésperas das eleições, ou novos saques a descoberto, transferindo a conta para os contribuintes no futuro. Até onde a situação econômica e política suportará esse caminho irresponsável, que, somados os 700 bilhões de dólares da mega-operação de socorro aos bancos, elevará a dívida total do Tesouro a nada menos que 11,3 trilhões de dólares?

Plataformas Colaborativas

Uma característica marcante da atual sociedade norte-americana é a presença, muito mais destacada que no Brasil, da Internet na vida das pessoas e das comunidades. A mais poderosa ferramenta já inventada até hoje para conectar pessoas umas com as outras e compartilhar seus interesses comuns, facilitou e multiplicou a interação entre as pessoas, como acontece com alguns dos sites mais visitados como http://www.myspace.com/ e http://www.facebook.com/ . Segundo especialistas, com essas novas tecnologias o custo de encontrar as pessoas e interagir com elas ficou tão baixo que facilitou enormemente sua articulação, inclusive para organizá-las em movimentos sociais e em grandes mobilizações cívicas. Tive uma conversa interessante com um especialista em tecnologia da informação, que me mostrou seu trabalho sobre um tema quente nos ambientes especializados na matéria, o desenvolvimento de plataformas colaborativas. Tratam-se de sistemas operacionais virtuais, que possibilitam a interação da inteligência e capacidade de milhares ou até milhões de pessoas, não só de especialistas como também de pessoas comuns, para trabalhar juntas em temas de interesse comum e, mais facilmente, resolver os problemas sociais comuns que enfrenta a humanidade. A possibilidade de promover a colaboração global para produzir inovações sociais impactará fortemente na vida das cidades no fuuro próximo, pois seus problemas são geralmente os mesmos no mundo inteiro, facilitando a cooperação entre cidades na busca de soluções em conjunto.

Colaboração Pelo Celular

Uma proposta de plataforma colaborativa interessante, neste caso utilizando o telefone celular, pode ser encontrada em http://citizenlogistics.com/.

21 de setembro de 2008

A Crise Econômica dos EUA Segundo Stiglitz

Reproduzo, em tradução livre, uma síntese da esclarecedora entrevista do Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, ao jornalista Gardels, do Washington Post.

Os Fundamentos Não São Fortes


Os mercados financeiros foram responsáveis por 30% dos lucros das empresas nos últimos anos. O argumento de que eles mereciam esse retorno porque estavam ajudando a administrar o risco da economia e fazer alocação eficiente de recursos provou não ser correto. Eles administraram pessimamente e isso agora se volta contra eles e o resto da economia está sofrendo porque a redução do crédito vai desacelerar o crescimento. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um sistema financeiro vibrante. Mesmo que não estivéssemos vendo esta crise financeira, mas somente o mercado habitacional e as dívidas nacional e dos estados, já teríamos um sério problema. Nós estamos afundando. Se olharmos a desigualdade, que é a maior desde a Grande Depressão, há um sério problema. Se olharmos os salários estagnados, há um problema sério. A maior parte do crescimento econômico dos últimos cinco anos sustentou-se na bolha habitacional, que agora estourou. E os frutos desse crescimento não forma compartilhados amplamente. Em resumo, os fundamentos não são fortes.
(nesse momento Stiglitz refere-se à declaração de McCain de que, apesar da crise financeira, “os fundamentos da economia são fortes”).

Redesenho do Sistema de Regulamentação

Nós precisamos não só de mais regulação, mas de um redesenho do sistema de regulação. Alan Greenspan, durante sua gestão como presidente do FED, na qual essa bolha hipotecária e financeira cresceu, tinha muitos instrumentos para controlá-la, mas fracassou. Ele foi escolhido por Ronald Reagan, afinal de contas, porque suas atitudes anti-regulamentação. Nosso país tem sofrido pelas conseqüências de escolher como chefe da regulamentação da economia alguém que não acreditava em regulamentação. Assim, para corrigir o problema nós necessitamos líderes políticos e executivos públicos que acreditem em regulamentação. O mundo não desapareceria se nós expandíssemos o sistema hipotecário em 10% ao invés de 25% ao ano como ocorreu. Acima de tudo, nós precisamos uma comissão de segurança de produtos financeiros, exatamente como nós temos para os bens e serviços de consumo. Os financistas inventaram produtos voltados não exatamente para administrar risco, mas para criar risco. Se você está comprando um produto, você quer saber o risco, pura e simplesmente. Esse é o ponto.

Fim do Fundamentalismo de Mercado

A agenda da globalização tem sido estreitamente associada com os fundamentalistas de mercado, a ideologia do mercado livre e da liberalização financeira. Nessa crise, nós temos visto as instituições mais orientadas ao mercado nas economias mais orientadas ao mercado quebrando e correndo por ajuda do governo. Todos no mundo dirão agora que isso é o fim do fundamentalismo de mercado. Nesse sentido, a queda de Wall Steet é para o fundamentalismo o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo – ela revela ao mundo que essa forma de organização econômica tornou-se insustentável. No final, todos dirão que o modelo não funciona. Esse momento é um marco de que a defesa da liberalização financeira dos mercados é uma fraude. A hipocrisia entre a maneira como o Tesouro norte-americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como essa está sendo enfrentada está intensificando essa reação intelectual. Os asiáticos agora dizem: “esperem um minuto, vocês disseram para imitar vocês nos Estados Unidos. Vocês são o modelo. Tivéssemos seguido seu exemplo, nós estaríamos na mesma bagunça. Vocês podem sustentá-la. Nós não”.

20 de setembro de 2008

Governo Confirma Mega-Socorro aos Bancos

O Governo norte-americano confirmou uma mega-operação de socorro ao sistema bancário norte-americano. Seu objetivo é comprar toda a dívida podre, ou seja, de difícil liquidez, que hoje sobrecarrega o balanço dos bancos e compromete sua credibilidade. Esse socorro exigirá um desembolso de recursos públicos na casa dos 500 bilhões a 1 trilhão de dólares. A reação dos candidatos á presidência para explicar a crise mostra bem os seus diferentes perfis. McCain afirma que os contribuintes vão pagar a conta da crise pelos fracassos de Washington, devido à corrupção e manipulação dos mercados financeiros, com a conivência dos burocratas. Obama afirma que a crise é o resultado da aplicação da filosofia econômica de liberalização dos mercados financeiros, que prevaleceu durante esses últimos oito anos do Governo Bush. Ambos, entretanto, se uniram em dar o seu apoio à intervenção governamental, em nome da estabilização dos mercados.

Empresariado Pode Fazer a Diferença

A Federação das Indústrias do Paraná, presidida por Rodrigo da Rocha Loures, tomou uma iniciativa de ação política a partir da sociedade civil que merece ser divulgada e replicada em outros lugares do país. Ela se alinha com os princípios desse blog, por isso a reproduzo na íntegra:

“Neste ano de eleições municipais, estamos diante de mais uma oportunidade para mudar a política no Brasil. É preciso saber aproveitá-la mobilizando as forças da sociedade. Relato aqui um caso concreto, em que estou pessoalmente envolvido.

Neste momento milhares de pessoas no Paraná estão fazendo o que jamais foi feito em um processo eleitoral. Não com tal amplitude. Aderindo a uma proposta dos empresários da indústria, os cidadãos paranaenses resolveram intervir para valer nas eleições de 2008.

Grandes e pequenos empreendedores, profissionais liberais, lideranças comunitárias, donas de casa e trabalhadores estão se reunindo para listar as prioridades de desenvolvimento do seu município. A lista é transformada em uma carta-compromisso para ser assinada pelos candidatos a prefeito e vereador.”

Compromissos Viáveis Pactuados por Todos

“Em cada município o documento é diferente, pois atende às exigências específicas do desenvolvimento local. Mas um núcleo de propostas básicas, sugeridas por uma cartilha eleitoral chamada "Guia do Voto Responsável", comparece em todas as cartas-compromisso.

Esse núcleo de medidas estratégicas - todas factíveis e estritamente de competência municipal - para impulsionar o desenvolvimento humano e social sustentável das localidades está distribuído em quatro grandes eixos: educação básica, transparência, qualificação profissional e desburocratização. Eles se desdobram em ações efetivas, expostas a seguir.

Educação básica - Universalizar o atendimento de pré-escola para crianças a partir de 4 anos de idade até 2010; alfabetizar de forma plena todas as crianças de até 8 anos de idade até 2011; e atingir o índice 6,0 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) até o final de 2012.

Transparência - Publicar na internet e em outros meios de comunicação a prestação de contas mensal da prefeitura (ou da câmara); apoiar a criação de um observatório para o monitoramento do desenvolvimento local e da gestão pública; e propor a criação de um fórum para implementar uma estratégia de desenvolvimento integrado e sustentável, com a participação do poder público, iniciativa privada, organizações da sociedade civil e cidadãos.

Qualificação profissional e desenvolvimento - Criar, ampliar ou apoiar programas de capacitação e qualificação profissional para jovens e adultos, atendendo à demanda e à vocação do setor produtivo local; e implementar ações para atingir as metas dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da ONU, até 2010.


Desburocratização - Implantar estrutura para facilitar a obtenção de licenças e certidões municipais imprescindíveis para o funcionamento das empresas e modernizar o sistema de tributação para facilitar o recolhimento de taxas e impostos no âmbito municipal.”


Mudança na Cultura Política do País

“Os céticos retrucarão que nada disso adianta, pois candidatos em campanha prometem e assinam qualquer coisa. É verdade. Mas a diferença aqui está na continuidade da iniciativa. Para tanto, começamos a articular ainda em 2006 a Rede de Participação Política do Empresariado - http://www.redeempresarial.org.br/ - , que hoje já conta com mais de 5 mil conectados. A rede está orientando seus participantes a realizarem ações que impeçam que o termo de compromisso vá parar na gaveta depois do pleito.

Em cada localidade, milhares de assinaturas estão sendo colhidas em apoio à agenda pactuada com os candidatos. Passadas as eleições, ela ficará exposta em outdoors nas praças das cidades, ensejando a democrática pressão social sobre os eleitos.

De outra parte, o Guia do Voto Responsável - cujo subtítulo é: "Uma agenda positiva para você escolher bem seus candidatos e promover o desenvolvimento de seu município" - está sendo distribuído amplamente, em folheto impresso e por meios digitais. Espera-se alcançar a marca de 700 mil exemplares. Isso quer dizer que pelo menos um em cada dez eleitores do Paraná estará "engrossando o caldo" participativo.

Este é um relato concreto de que é possível, sim, fazer alguma coisa para que aconteça uma verdadeira reforma da política, de baixo para cima. É uma prova de que o empresariado, se assumir a sua responsabilidade política, pode fazer a diferença. Temos o direito e mesmo o dever de influir na pauta política nacional, regional e local a partir da mobilização de forças sociais. A experiência descrita mostra que a sociedade espera este protagonismo e ouvirá nosso apelo. Cabe a nós dar um bom exemplo.”

19 de setembro de 2008

Pressão por Responsabilidade Social

Chama minha atenção a pressão que a sociedade civil e os formadores de opinião fazem aqui para que as empresas e os empresários assumam sua responsabilidade social perante suas comunidades. O articulista Chris O´Brien, do San Jose Mercury News, relata a situação do Distrito Escolar de Portola Valley, com seu orçamento de 11 milhões de dólares para o presente ano escolar apresentando um déficit de 1 milhão de dólares. Parte desse déficit é explicado pela menor arrecadação do imposto sobre propriedade, devido à redução do preço dos imóveis causada pela crise do setor imobiliário. A outra parte, segundo o articulista, ocorreu pelo fato de que o executivo-chefe da empresa Oracle de informática, Larry Elison, ter conseguido junto a corte de apelação do município de San Mateo, que faz parte do distrito, uma redução do valor de avaliação, para fins tributáveis, de sua luxuosa propriedade de 173 milhões de dólares em 2007 para 69,7 milhões de dólares em 2008.

Atitude Ética

Com isso, Elison baixou o valor do imposto a pagar sobre a propriedade de 1,86 milhões de dólares em 2007 para 751 mil dólares em 2008, contribuindo desse modo para reduzir ainda mais a arrecadação do distrito. A pressão para que Elison ajude a cobrir o déficit do Distrito Escolar não resulta do fato de ele ser muito rico e um dos mais bem pagos executivos dos Estados Unidos, que só no ano de 2007 recebeu de sua empresa 84,6 milhões de dólares. A pressão ocorre sobre alguém que se beneficiou mais do que a maior parte das pessoas de tudo aquilo que a sociedade tem para oferecer - e de quem a mesma sociedade mais deveria receber em retorno.

Realidade e Ficção

A campanha está se encaminhando para uma situação inusitada: com a mudança do discurso republicano nos últimos dias, todos agora estão defendendo mudanças, como se as duas campanhas fossem de oposição ao governo Bush. O conteúdo dos discursos de McCain-Palin começa a ficar semelhante ao de Obama-Biden, defendendo a redução de impostos para todos os contribuintes norte-americanos, a criação de novos empregos, a mudança no jeito de Washington trabalhar, com a redução da força dos interesses privilegiados e o combate à corrupção. E agora, depois que Wall Street desabou, McCain-Palin subitamente abandonaram o seu histórico discurso do livre-mercado e passaram a defender a política intervencionista que o Banco Central e o Tesouro norte-americano tiveram que adotar. Se não víssemos McCain-Palin falando, pareceria estarmos ouvindo Obama-Biden.

Mídia e Manipulação

Será que essa estratégia de manipulação vai emplacar? Será que a ascensão de Palin para a posição de mais recente popstar pela mídia, deslocando Obama dessa posição, que sustentou durante os últimos 18 meses, terá fôlego para chegar até o dia 4 de novembro e mudar o curso da eleição? Será que a força da mídia eletrônica na criação de estrelas, mitos, legitimando formas de manipulação, será capaz de decidir essa eleição? Não tenho a resposta para essas perguntas, apenas a experiência política de campanhas eleitorais no Brasil, em que finalmente prevalece a força da vida real e o quanto ela influencia nas decisões das pessoas a favor ou contra o governo em curso. E por mais que a chapa McCain-Palin tente manipular, mudando de posição como se muda de roupa, é pouco provável que consiga desvincular-se dos erros do Governo Bush. Entre eles, inclusive, sua responsabilidade pela atual crise, resultado da política de liberalização financeira, que nos últimos anos fechou os olhos para a formação da bolha especulativa com hipotecas imobiliárias, que agora explodiu. É pouco provável que a McCain-Palin consigam transmutar-se numa chapa de mudança.

Mega-Intervenção Governamental

O Federal Reserve e mais cinco bancos centrais injetaram 180 bilhões de dólares no mercado financeiro para aumentar sua liquidez e tentar segurar a queda das bolsas de valores em todo o mundo. Investidores saúdam a injeção de liquidez, mas continuam nervosos. O sistema bancário parece ser a próxima vítima da crise de liquidez. Os bancos Washington Mutual e Morgan Stanley estão no mercado em busca de compradores. O Federal Reserve, o Tesouro Norte-americano, os principais líderes democratas e republicanos do Congresso, mantiveram reunião de emergência e já se especula sobre uma mega-operação de socorro ao sistema bancário, para ajudar os bancos a superar a crise dos mercados financeiros. Seria submetida ao congresso a constituição de uma empresa público-privada encarregada de assumir todas as dívidas podres, liberando os bancos desses encargos, para revendê-las no futuro, quando o mercado voltar à normalidade. Comenta-se que essa operação de socorro envolveria algumas centenas de milhões de dólares de recursos públicos, mais do que tudo o que já foi injetado nos últimos meses para estabilizar o mercado financeiro.

18 de setembro de 2008

Custos Astronômicos da Campanha

Nas semanas finais de uma campanha tão disputada como essa, o custo para um único candidato apresentar-se na televisão durante uma semana ultrapassa 500 mil dólares. Por isso, os esforços para levantar recursos nessa reta final intensificam-se. Obama acaba de realizar um jantar aqui na California para levantar recursos, com a presença de Bárbara Streisand, ao custo de 28.500 dólares por pessoa, com a meta de arrecadar 9 milhões ultrapassada, alcançando 11milhões de dólares no evento. Obama já contabilizou 340 milhões de dólares para a campanha. No último mês de agosto, bateu todos os recordes anteriores de uma campanha presidencial num único mês, com 66 milhões de dólares de arrecadação. 500 mil novos doadores se inscreveram como doadores para Obama em agosto, alcançando a soma de 2 milhões e 500 mil doadores voluntários até agora. Obama rejeitou a utilização de recursos públicos na campanha enquanto McCain recebeu 84 milhões de dólares da Comissão Eleitoral Federal.

Custos São Maiores nos Estados Críticos

Em estados onde a disputa é muito apertada, o custo da campanha é astronômico. Na Florida, por exemplo, onde Bush ganhou por 381 mil votos em 2004, o custo da campanha democrata deste ano está estimado em 39 milhões de dólares. Nesse momento, as informações dos comitês de campanha informam que os recursos disponíveis na campanha de McCain são da ordem de 100 milhões de dólares, um pouco maiores que os 94 milhões de dólares disponíveis nos cofres da campanha de Obama.

Avança a Estatização Financeira

O Banco Central dos Estados Unidos aportou ontem mais 85 bilhões de dólares no mercado financeiro, agora para salvar a companhia de seguros American International Group – AIG. Já estamos diante da mais radical intervenção em negócios privados na história do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos. Hoje, o Fed solicitou 408 bilhões de dólares ao Tesouro para cobrir seu déficit, causado pelos custos das intervenções no mercado financeiro. Isso está acontecendo em pleno centro do pensamento liberal no mundo. E isso está acontecendo poucos dias depois de o Fed haver negado uma operação de socorro para salvar o Banco Lehman Brothers, que acabou pedindo concordata. Porque dois pesos e duas medidas? Pelo maior impacto que a quebra da seguradora teria no sistema financeiro e no conjunto da economia, atingindo milhões de famílias e empresas seguradas, nos Estados Unidos e em todo o mundo, inclusive com importantes ramificações no Brasil. Essa repercussão mundial causaria um perigoso agravamento da crise, com o aprofundamento da recessão em curso, o que está sendo evitado a qualquer custo, inclusive pelas suas implicações políticas em pleno processo eleitoral. Diante de interesses fundamentais para os grandes negócios que estão em jogo, o governo impõe arbitrariamente mais uma socialização de prejuízos para os contribuintes e os cidadãos norte-americanos.

Incoerência Abala McCain

Ninguém arrisca a dizer que já chegamos ao fundo do poço, pois o sentimento que prevalece no mercado é de que a crise está longe de haver terminado. A bolsa de Nova York e as bolsas asiáticas fecharam com forte baixa, o que demonstra que a confiança no mercado continua abalada, que os investidores estão buscando aplicações mais seguras como letras do Tesouro e que, portanto, ainda poderão ocorrer novidades. Enquanto isso, a campanha se concentra integralmente no debate sobre a crise, suas causas e conseqüências. Para Obama, o que temos visto é a falência de uma filosofia econômica, baseada no princípio da liberdade de mercado e na liberalização financeira. Já McCain, um histórico defensor da desregulamentação dos mercados, vem a público como um recém convertido da necessidade de controle e regulamentação, mas é acusado de mudar o discurso unicamente por oportunismo eleitoral. “McCain está fazendo a campanha mais negativa e mentirosa da história recente das eleições presidenciais. Ele tem demonstrado que prefere perder a integridade do que perder essas eleições”, afirma a campanha democrata.

17 de setembro de 2008

Economia no Centro da Campanha

As pesquisas já indicavam que os temas econômicos e seus reflexos no bolso dos consumidores eram a principal preocupação dos norte-americanos. Entretanto, por mais que o candidato democrata tentasse realçar as questões que atingem a vida cotidiana das pessoas e debater as suas causas, como o aumento dos preços da gasolina e dos alimentos, o aumento do desemprego, a crise do sistema de financiamento habitacional, a dinâmica da campanha eleitoral apontava em outras direções. As manobras inteligentes feitas pelos republicanos estavam sendo bem sucedidas e a campanha girava em torno da falta de experiência executiva de Obama, de suas idéias avançadas sobre educação sexual nas escolas, da novidade de uma mulher como candidata a vice de McCain, da retomada dos valores tradicionais da família e da pátria. Inclusive ocupava grande parte da mídia o debate sobre declarações polêmicas, como aquela recente de Obama insinuando que os republicanos tentaram “put lipstick on a pig” (colocar batom num porco). O estouro da crise nos mercados financeiros de Wall Street desde o último domingo, finalmente, colocou a economia no centro da campanha.

Debate Superficial Sobre Causas da Crise

As evidências da gravidade dessa crise e suas repercussões na economia como um todo - redução da taxa de crescimento, aumento do desemprego, crescimento dos déficits comercial e fiscal, fragilização do já combalido dólar – sugerem que esse tema não só permanecerá no centro do debate eleitoral até o dia das eleições, como também deverá preencher boa parte da agenda presidencial do próximo presidente eleito. É surpreendente, entretanto, que a reação dos candidatos diante do que ocorre em Wall Street passa a impressão que ambos subestimavam a gravidade da crise financeira. Não transparece em nenhuma das duas candidaturas uma compreensão sobre as causas mais profundas da crise e como combatê-las. Fala-se que a crise tem suas origens nas operações de alto risco realizadas nos últimos anos pelas instituições que operam com financiamento habitacional. Argumenta-se que isso ocorreu devido a falta de uma regulamentação mais rigorosa desse mercado. Isso é parte da verdade. Pouco ou nada se fala, entretanto, da outra parte da verdade que é a fragilização da economia real dos Estados Unidos diante das demais economias do mundo e suas causas, que se manifesta na progressiva perda de valor do dólar. Enfrentar essa questão estrutural parece ser um tema que ficará fora do debate eleitoral desse ano.

Governança Solidária Local na Expo Shangai 2010

O Programa de Governança Solidária Local representará Porto Alegre na Expo Shanghai 2010. O anúncio da participação da cidade foi feito nesta terça-feira, 16, pela Prefeitura de Porto Alegre na Fiergs. A cerimônia teve a presença do embaixador da China no Brasil, Chen Duqing, presidente da Fiergs, Paulo Tigre, UNESCO, integrantes do secretariado municipal, e
representantes de entidades empresariais e da sociedade civil. A prefeitura promoveu em janeiro a inscrição da cidade na exposição mundial, na categoria Melhores Práticas Urbanas, tomando como referência o Programa de Governança Solidária Local. O processo seletivo ocorreu entre 106 propostas, representando 87 cidades, sendo que 55 foram selecionadas. Porto Alegre ocupa a 22ª colocação.

Porto Alegre ao Lado de Grandes Cidades do Mundo

Junto com São Paulo, a capital gaúcha será a única representante da América do Sul, mas apenas Porto Alegre apresentará proposta de desenvolvimento local, com enfoque na democracia participativa e ênfase na articulação conjunta entre poder público, sociedade e iniciativa privada. A 47ª exposição mundial ocorre entre 1º de maio e 31 de outubro de 2010 e será a primeira edição com foco nos centros urbanos e no desenvolvimento local, com o tema "Melhor Cidade, Melhor Vida". Porto Alegre terá um espaço com 206 metros quadrados no pavilhão das "Melhores Práticas Urbanas - UBPA", próximo aos estandes das cidades alemãs de Düsseldorf e Freiburg e de Moscou.

O Que é a Governança Solidária Local

Um dos 21 programas estratégicos da prefeitura, a Governança Solidária Local tem como objetivo promover o desenvolvimento das comunidades, através da articulação de redes de participação democrática dos cidadãos e da aglutinação de forças em prol da solução de problemas locais. A base do Programa de Governança Solidária Local é o estabelecimento de parcerias entre o poder público, a sociedade e a iniciativa privada, com foco na territorialidade, para a efetivação de ações que melhorem as condições de vida das comunidades. Além da resolução de problemas, a governança estimula a conscientização da responsabilidade de cada um na conquista e na preservação de direitos e a valorização do cidadão-gestor.

16 de setembro de 2008

As Crises Gêmeas

Muitos analistas tem subestimado o que está ocorrendo nos Estados Unidos, mas os últimos acontecimentos já não deixam mais lugar a dúvidas: Wall Street está vivendo a maior crise financeira desde a grande depressão dos anos 30 do século passado. Suas conseqüências para a economia norte-americana e para o resto do mundo são ainda imprevisíveis, porque o agravamento da crise está ainda em pleno curso. Em seu último livro, “The New Paradigm for Financial Markets” (O Novo Paradigma para os Mercados Financeiros), George Soros demonstra que os erros que o governo Bush cometeu na guerra contra o terror, com suas consequências nefastas para os Estados Unidos e para o mundo, tem a mesma origem dos erros que comete em lidar com a atual crise financeira. Por isso estou chamando a dupla crise atual, política e econômica, de crises gêmeas .

A Explicação de Soros

Soros atribui tanto a crise política como a econômica à atitude oficial vigente de desrespeito com a verdade e com a realidade concreta, autorizando a manipulação da verdade e a criação de novas realidades como poder legítimo do império. O ideólogo dessa concepção imperial é Karl Rove, um dos principais estrategistas do governo Bush. Rove, escreve Soros, “não apenas reconhece que a verdade pode ser manipulada, ele promoveu a manipulação da verdade como um enfoque superior”. Isso ocorreu quando Bush declarou guerra contra o terror e manipulou informações para justificar a invasão do Iraque. E a atual crise financeira pode ser diretamente atribuída à falsa interpretação de que os mercados financeiros deixados em liberdade tendem ao equilíbrio, tornando desnecessário regulamentar seu funcionamento pela ação governamental.

Liberdade Versus Regulamentação dos Mercados

A liberalidade com que o governo Bush tratou o sistema financeiro da habitação nesses últimos oito anos permitiu que ele operasse com operações derivativas e colaterais em grande escala, ampliando-as muito além do que permitiam seus ativos reais e, com isso, desrespeitando as margens mínimas de segurança necessárias. O resultado desastroso está sendo colhido agora, com praticamente todas as instituições que operavam nesse sistema falidas, com custos econômicos e sociais ainda imprevisíveis para a sociedade norte-americana e inclusive para o mundo como um todo. Numa entrevista dada nessa segunda-feira, o Secretário do Tesouro Henry Paulson, parece começar a fazer uma autocrítica da orientação seguida até aqui, quando admite, ao lado da disciplina de mercado, a necessidade de maior rigor na regulamentação do sistema de crédito imobiliário.

Imigrantes por Obama

Tive a oportunidade de participar de uma reunião de iranianos americanos por Obama, promovida pela organização voluntária Iranianos-Americanos Democratas da Área da Baía – http://www.baiad.org/ , dedicada a desenvolver uma poderosa ação política para fazer dos milhares de imigrantes iranianos que vivem nos Estados Unidos, participantes ativos e responsáveis da democracia norte-americana. Só aqui no Vale do Silício são mais de 10 mil iranianos, dos quais cerca de 500 são professores em universidades da região. Através da mobilização que a campanha de Obama está promovendo, as comunidades de imigrantes de todas as nacionalidades - vietnamitas-americanos, chineses-americanos, indianos-americanos, africanos-americanos, latinos de todas as nações – começam a ver crescer enormemente o interesse pela participação na vida política do pais. O interesse do mundo inteiro pela eleição nos Estados Unidos faz também com que pessoas de todas as nacionalidades que vivem aqui se envolvam como nunca antes politicamente.



Razões do Apoio

O que faz essa mobilização crescer é o sentimento de que os republicanos consideram os imigrantes um problema, situação que se agravou após o 11 de setembro de 2001, enquanto os democratas liderados por Obama os vêem como a base da prosperidade norte-americana. Os iranianos, de modo particular, consideram que com Obama na presidência não haverá guerra mas negociação com o Iran, não haverá discriminação contra iranianos no mercado de trabalho, haverá condenação de agressões contra os direitos humanos pelo governo iraniano. E, acima de tudo, o Iran será respeitado como nação com quem os Estados Unidos devem manter relações diplomáticas e não ser colocada no “eixo do mal”. Sobre a questão nuclear, o sentimento generalizado é que a tendência dos próximos anos será o Iran e mais uma dúzia de outras nações serem potencias nucleares, o que reforça a necessidade da eleição de Obama, que tem um perfil e uma compreensão mais adequados para lidar com um mundo tão instável e perigoso.

15 de setembro de 2008

Crise em Dose Dupla

Os Estados Unidos estão vivendo, simultaneamente, uma dupla crise econômica e política, num nível de gravidade sem precedentes nas últimas décadas. Sobre a crise política, não há qualquer dúvida, basta considerar que o governo Bush é o mais impopular em segundo mandato em décadas. Estava em dúvida sobre a gravidade da crise econômica até ler o último livro de George Soros, “The New Paradigm for Financial Markets” (O Novo Paradigma para os Mercados Financeiros), lançado há pouco aqui. A profundidade da crise econômica é tão bem analisada que passa a impressão de que Soros sabia da iminente quebra das duas empresas gigantes do mercado hipotecário – Fanie Mae e Freddie Mac e dos novos acontecimentos que estão se seguindo. Com mais de 11 mil trabalhadores, dois-terços de todos os empréstimos habitacionais nos últimos meses e metade do total de mais de 10 trilhões de dólares de empréstimos habitacionais da nação, a operação de socorro do Tesouro Norte-Americano deverá custar cerca de 200 bilhões de dólares para o governo. Os 29 bilhões de dólares que o Tesouro teve que injetar em março desse ano para viabilizar a aquisição do banco de investimentos Bear Stearns pelo banco J.P.Morgan Chase, dão uma idéia do tamanho dessa última operação de socorro.

Agravamento Sem Precedentes da Crise

Nos últimos dias, sinais de ainda maior aguçamento da crise: o banco de investimentos Lehman Brothers, um dos maiores e mais antigos do país, com 24.700 trabalhadores em todo o mundo, está buscando apressadamente um comprador, pois está perdendo valor em ativos e fôlego para resistir à crise do sistema hipotecário dos Estados Unidos. Nesse caso, o Tesouro Norte-Americano sinaliza que não colocará mais recursos dos contribuintes numa operação de salvamento, mas o mercado tem dúvidas de que conseguirá sustentar essa posição. Segundo o New York Times, esse final de semana foi um dos mais dramáticos da história de Wall Street. O Merrill Linch, com cerca de 60.000 trabalhadores, acaba a de ser vendido para o Bank of America por aproximadamente 50 bilhões de dólares, para evitar sua bancarrota. Já o Lehman Brothers caminha para liquidação, por não ter conseguido até agora comprador. E o American International Group busca uma ajuda de 40 bilhões de dólares do Tesouro para tentar sobreviver. Parece, entretanto, que ainda assim a crise não chegou ao fundo do poço, pois o Fundo Monetário Internacional prevê perdas globais da ordem de 1 trilhão de dólares antes da crise chegar ao fim.

Estatização e Concentração Financeira

Na verdade, no centro do capitalismo mundial, estamos testemunhando a estatização de importantes segmentos do mercado financeiro, ao lado de sua concentração ainda maior em poucos mega-bancos, de modo a evitar a proliferação da crise a ponto de atingir fortemente o sistema de crédito e, por extensão, a economia como um todo. As operações de salvamento do Tesouro Norte-Americano reproduzem a velha prática da socialização de prejuízos, quando os lucros são privados, porque quem realmente pagará essa conta são os milhões de cidadãos contribuintes, embora o governo ironicamente alegue que atuou em sua defesa. Pressionado pelos gastos bilionários no Iraque e pelo socorro ao sistema de crédito, o déficit fiscal do governo deverá ultrapassar os 400 bilhões de dólares nesse ano, mais do que o dobro do ano passado. Segundo Paul Davidson, editor do Jornal de Economia Pós-Keynesiana, “a solução do Fed representa o resultado de um sistema político que desde a era Reagan não só tem sido relutante para regulamentar as instituições financeiras, mas tem também efetivamente estimulado a liberdade de mercado que terminará resultando desastrosa”.

Efeito Contágio

Não é de estranhar que o dólar continua a enfraquecer, já não mais perdendo apenas a sua qualidade como reserva de valor, senão também a referência para transações internacionais. Brasil e Argentina, por exemplo, acabam de anunciar a troca do dólar pelo real e o peso como moedas de referência nos seus fluxos de comércio bilateral. Com o sistema financeiro em queda e o dólar enfraquecendo-se, é provável que a crise dos Estados Unidos venha a agravar-se ainda mais, inevitavelmente contagiando a Europa e repercutindo na América Latina e no Brasil. A hipótese do não-contágio é insustentável num mundo tão interligado como o de hoje. O desempenho das bolsas de valores em todo o mundo são o termômetro dessa interdependência. No seu livro, George Soros afirma categoricamente: “Os Estados Unidos estão enfrentando não só uma recessão como uma fuga do dólar”. Suas conseqüências alcançarão o mundo inteiro.