Assisti na Universidade de Stanford a uma conferencia interessante do professor W.Lance Bennet sobre “quando a imprensa falha: poder político e imprensa do Iraque a Katrina”. Sua tese é a de que os temas que não são pautados com força pelas oposições institucionais, sejam elas os Demacratas ou os Republicanos, prevalece sobre eles na mídia a versão oficial. A imprensa, por exemplo, cobriu a guerra do Iraque como uma vitória do governo Bush, num primeiro momento. Nesse caso, fez o jogo da manipulação, promovido pelo governo. As afirmações do governo vinham na página de capa, as críticas tímidas da oposição na página 18 de domingo ou 24 de segunda-feira. Pessoas que não tem poder no âmbito da democracia institucional, e que estavam contra a guerra, foram consideradas minorias. Mais tarde, o próprio editor do Washington Post reconheceu que isso foi um erro. Entretanto, apesar dessa autocrítica, o mesmo voltou a ocorrer com os prisioneiros de Abu Ghaib. Teria sido um abuso isolado, ou uma política oficial de tortura, que colocaria os Estados Unidos no mesmo nível das ditaduras? Os democratas não consideraram este um assunto maior para as eleições de 2004. Resultado: prevaleceu a versão de abuso isolado e a história termina com a prisão dos soldados responsáveis...Com essa versão, o apoio à guerra no Iraque, que havia caído, voltou a crescer. A perda de apoio à guerra foi crescendo com o tempo pela força da realidade dos fatos. A tortura volta a ser a caracterização do que ocorreu em Abu Ghaib só depois que o Congresso aprova uma lei proibindo a tortura nas prisões dos Estados Unidos. No caso do furacão Katrina, a imprensa seguiu inicialmente a alienação das autoridades sobre o tamanho do desastre e suas conseqüências humanas e materiais, até que os blogs e os cinegrafistas amadores tomaram conta da cobertura e viraram o jogo da mídia.

Conclusões E Perspectivas Para O Futuro
As conclusões que o professor Lance Bennet tira de sua na álise são as seguintes:
- quando a democracia institucional funciona bem, a imprensa funciona bem;
- se uma visão crítica institucional a do poder estabelecido não aparece, a imprensa reproduz a versão do governo;
- quando a democracia mais precisa de uma opinião independente e crítica, diante da ausência de atitude da oposição institucional, a imprensa não tem cumprido esse papel.
O professor Lance Bennet aponta para uma informação participativa e o futuro das notícias. Coloca a questão de como adaptar as novas tecnologias da informação para uma informação independente. Como a informação participativa pode influenciar os editorias da grande imprensa, trazer novos públicos para o debate público. Que modelos empresariais podem surgir para incorporar a informação da sociedade bem informada. Como assegurar a transparência e a prestação de contas a todos os públicos interessados. Como, enfim, institucionalizar que o “outro lado” de cada história seja sempre levado em conta, para o bom funcionamento da democracia. Também são destacadas iniciativas nessa direção, como as redes sociais do tipo “civic media”, como são os casos da nyc.uncivilservants.org (sobre mau uso de estacionamentos em Nova Iorque), netnums.org (sobre ajuda mútua de mães), myfairelection.com (sobre a troca de experiências de votar), globalvoicesonline.org (sobre a fiscalização das ações de governantes).
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