Estou voando de volta ao Brasil, depois de dois meses e dezessete dias nos Estados Unidos. Quando saí do Brasil, no dia 22 de agosto, Obama ainda nem havia sido indicado candidato oficial a presidencia pelo Partido Democrata, e nenhuma palavra era ouvida sobre a iminência de uma profunda crise econômica, que logo viria e eclodir. Nesse curtíssimo período, não só tive o privilégio de ver o mundo mudar, como também, de alguma forma, fazer parte dessa mudança. Obama é o primeiro presidente afro-americano eleito, e a economia mundial afunda numa recessão talvez mais severa do que a de 1929. As experiências que vivi foram relatadas diariamente nesse blog. Elas me conduziram a uma vivência real no cotidiano das pessoas comuns da sociedade norte-americana. Conheci um pouco melhor o significado do sonho americano e o espírito desse país tão decisivo para o curso dos acontecimentos em todo o mundo.
Voluntário Na Campanha De Obama
Através de amigos da universidade, tornei-me um voluntário da campanha. Participei de atividades em comitês eleitorais, reuniões de trabalho em casas de família, conferencias e debates sobre temas da atualidade, viagens de apoio para Estados de acirrada disputa entre republicanos e democratas, como aconteceu em Nevada. Consegui realizar também o desejo de visitar o comitê central da campanha em Chicago, e, sem querer, acabei participando de uma disputa espontânea entre apoiadores de Obama e McCain, em plena Times Square, em Nova York. Não estava em meus planos, tampouco, analisar mais detidamente, testemunhar, e inclusive sentir os efeitos da mais grave crise econômica dos últimos cem anos, tema inicialmente ausente e que, com o passar dos dias, acabou dominando boa parte dos comentarios do meu blog, pela própria força dos fatos que vieram a acontecer. Os desdobramentos globais da crise, o crescimento do desemprego, as alternativas para reativar a economia, tornaram-se a principal agenda dos Estados Unidos e do mundo, e serão o maior desafio do novo presidente eleito.
Uma Escola De Vida
Esse periodo foi para mim uma verdadeira escola de vida. Vi milhões de pessoas voluntarias se juntarem a uma causa, por acreditar nela, e transformarem o país. Vi que só assim a política pode avançar, na medida em que viabiliza uma forma mais democrática e ética de realizar e financiar campanhas, sem cabos eleitorais pagos, sem necessidade de caixa dois e outros subterfúgios.Vi que é preciso valores e causas para que a política se torne um instrumento de transformação da sociedade, e não apenas uma disputa de poder entre partidos. Vi que as pessoas ainda tem idealismo e esperança em seus corações, e que eles podem ser despertados por uma liderança política que se credencie pelo exemplo, pela confiança e pela verdade. Vi também que a economia nãopode ser deixada à sua própria sorte, e que há um imperativo ético de submetê-la ao controle democrático da sociedade, para que os seus resultados sejam melhor compartilhados por todos, não só na crise, como também na prosperidade. Vi, enfim, das pessoas no país mais importante do planeta, de onde muitos talvez jamais esperassem, partir uma clara e inequívoca manifestação de que a mudança é possível e que o sonho de um mundo mais humano e pacífico não acabou.
O Privilégio De Ser Personagem Da Mudança
Decidi sair do Brasil para o que poderia chamar-se de um exílio voluntario, onde teria tempo para dedicar-me ao estudo e à reflexão. Fui honrado com um convite da Universidade de Stanford, na California, para pesquisar no Centro pela Democracia Deliberativa, e acompanhar as eleições norte-americanas. Entretanto, tornou-se impossível não viver situações inusitadas que surgiram, na medida em que o desenrolar da campanha de Obama para presidente foi fundindo-se com a efervescência e o aprofundamento da crise econômica. Parece que cumpriu-se uma sina, vim fazer pequisa e observações e acabei envolvendo-me na política. Tive o privilégio de virar personagem de um dos mais belos acontecimentos democráticos da história recente da humanidade, cujas implicações políticas, econômicas, sociais e culturais haverão de influenciar a agenda mundial nos próximos anos.
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