20 de novembro de 2008

O Paradoxo Do Sonho Americano

Reproduzo, abaixo, o artigo sobre as eleições norte-americanas que escrevi para a revista VOTO, de Porto Alegre, Brasil, do mês de novembro:

"Uma amiga comentou-me que gostaria de compreender melhor o que considera um paradoxo do sonho americano. Os eleitores que sustentam a proposta de mudança de rumos, do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, são principalmente os mais pobres, os discriminados, os imigrantes, os forasteiros. Esses, a exemplo de boa parte dos habitantes do planeta, admiram a democracia norte-americana, mas não concordam com a forma como os Estados Unidos atuam internacionalmente, interferindo seguidamente na vida de outros povos.

Nesse breve período que estou vivendo aqui, consigo já perceber que o paradoxo do sonho americano advém de graves problemas estruturais com que se defronta a sociedade norte-americana.


Nesses mais de dois séculos, foi edificada uma sociedade que se assenta em três pilares: uma democracia estável, que resultou de uma história de lutas e realização de valores inclusivos e libertários; um alto padrão de consumo para as classes médias, que se constituem na maioria da população; e um imenso complexo industrial-militar, voltado para a manutenção de poder, mercados e fontes de matérias primas estratégicas para o país, como é o petróleo. Uma sociedade aberta e uma economia forte foram decisivas para assegurar oportunidades de ascensão social para milhões de nativos e imigrantes ao longo de décadas.


No passado, a ameaça comunista legitimou a edificação dessa grande potência. Hoje, é o terrorismo, que põe em risco as liberdades e a democracia, das quais os Estados Unidos consideram-se guardiões mundiais. Sobre essas bases, o dólar transformou-se em moeda de curso universal.


A globalização das últimas três décadas, se, por um lado, derrubou todas as fronteiras para os fluxos de capital, até mesmo o antigo campo socialista, por outro, abriu caminho para a ascensão de novas potencias regionais, como a Rússia, China e União Européia. A economia norte-americana ingressou numa rota de perda de competitividade, e o dólar começou a desvalorizar-se frente ao euro e outras moedas.


Sem conseguir ajustar-se às novas realidades, os Estados Unidos começaram a viver acima dos seus meios. Preservaram um alto padrão de consumo para as classes médias, e, inclusive, continuaram a deflagrar guerras caríssimas e desnecessárias, como a do Iraque. Como resultado, os déficits fiscal e comercial explodiram, sendo financiados à base de emissão massiva de dólares. A especulação financeira exacerbada, que acaba de provocar a maior crise desde a Grande Depressão, é, nesse sentido, a manifestação aparente de uma crise estrutural mais profunda, que deverá vir à tona com ainda mais força daqui para a frente.


Percebo que a pressão por avanços democráticos no interior da sociedade norte-americana está sendo impulsionado exatamente por aqueles para quem o sonho americano de ascensão social, ou de construção de um país exemplar e admirado, ou derreteram-se, ou nunca passaram de expectativas, seja pela perda de dinamismo da economia, ou pelo militarismo e unilateralismo que tem caracterizado a política externa dos Estados Unidos.


Esses avanços foram até agora barrados pela força econômica, política e midiática do capital financeiro e do complexo industrial-militar-petrolífero. Nas eleições desse ano, a candidatura democrata de Barack Obama, e a candidatura republicana de John McCain, expressam essas duas alternativas para o futuro da sociedade norte-americana, com mais nitidez como nunca nas últimas décadas."

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