1 de outubro de 2008

Rejeição do Plano Revela Crise do Modelo Democrático

A rejeição do plano de socorro governamental de 700 bilhões de dólares pelo Congresso dos Estados Unidos não pode ser considerado um acontecimento trivial da vida democrática de uma nação, como seria a derrota de um projeto de lei, ainda que muito importante. Trata-se de uma iniciativa decisiva para evitar uma depressão na economia de magnitude ainda maior do que a Grande Depressão, segundo praticamente todos os especialistas. Ou seja, se os mercados financeiros não forem estabilizados, seguir-se-á uma quebradeira de instituições financeiras e bancos, nos Estados Unidos e nas principais praças financeiras, afetando o sistema produtivo e comercial da economia mundial e provocando desemprego em grande escala. Ademais, os termos dessa iniciativa de importância transcendental foram negociados exaustivamente pelo próprio Presidente Bush e autoridades econômicas do governo, com os líderes dos partidos democrata e republicano, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado, tendo inclusive participado dessas negociações os dois candidatos a Presidente, Barack Obama e John McCain. Como se isso não bastasse, a grande imprensa, unanimemente, defendeu a aprovação do plano de socorro negociado, a tal ponto que a expectativa de sua aprovação era generalizada.

Novos Atores e Novas Formas de Expressão Política

Como pode, então, ter sido rejeitado pela maioria dos parlamentares, contrariando todas as expectativas? Para encontrar resposta a essa pergunta, é preciso sair do circuito tradicional da política, representado pelas autoridades governamentais, as casas legislativas e a grande mídia, e examinar o que está acontecendo nas novas formas de comunicação e expressão, como são os blogs, as cartas e sessões de comentários dos jornais, os sites na internet, as pesquisas on-line, os programas de rádio e televisão com manifestações por telefone ao vivo dos ouvintes e telespectadores. Nesses novos meios sem filtros, conforma-se uma verdadeira rede de pessoas que manifestam livremente seus sentimentos, suas verdades, suas idéias e posições políticas. Através deles, está sendo forjada uma nova democracia direta, com peso e influencia crescente na definição dos rumos do país. Pois bem, milhões de mensagens foram postadas, registradas, veiculadas, e milhares delas enviadas para os parlamentares nesses últimos dias, mostrando a inconformidade da esmagadora maioria das pessoas com o socorro de quase um trilhão de dólares às grandes instituições financeiras. As mesmas que se beneficiaram durante décadas com lucros fabulosos através da especulação financeira desenfreada e sem controles, que são as causadoras da crise e que agora querem ser socorridas com dinheiro dos contribuintes para cobrir seus prejuízos.

Dupla Crise, de Liderança e de Governança da Crise

As pessoas expressaram sua raiva de ter que pagar essa conta, denunciaram a falta de alternativas, a não ser colocar esse fardo nas costas dos contribuintes. “Porque, quando as peças do dominó caem, elas sempre caem sobre nós?” Talvez esteja nessa nova rede de expressão da vontade popular a explicação da rejeição do plano de socorro pela maioria dos Congressistas, surpreendente se olhada só pela ótica dos grandes atores da política institucional. Foi flagrado seu descolamento, tanto de suas bases parlamentares imediatas, como principalmente do sentimento e da manifestação das ruas. Revela-se, portanto, nesse episódio, a conjugação de uma dupla crise, de liderança e de governança da própria crise, que não deixa de ser reflexo de uma crise mais profunda do modelo democrático que vigora nos Estados Unidos e em muitas outras nações do mundo.

1 comentários:

Charlie Boyle disse...

Caro Cezar, olhia esto acá: http://artepolitica.com/el-rechazo-del-plan-de-socorro-revela-una-crisis-en-el-sistema-democratico/
Bom articulo, obrigado.
Artepolítica e um blog coletivo de política, meu blog e este : http://carlosboyle.blogspot.com/