7 de outubro de 2008

Os Mercados Funcionam ?

Nao posso deixar de registrar meu sentimento de uma certa revolta com o artigo do meu amigo Secretário Aod, da Fazenda do nosso Estado, no jornal Zero Hora de hoje, entitulado "Os Mercados Funcionam". Estou testemunhando e analisanodo nesse blog o dia a dia da crise dos mercados financeiros, primeiro aqui nos Estados Unidos e, agora, em todo o mundo, inclusive no Brasil. Achei revoltante que um reconhecido economista, como o Aod, analise a atual crise e afirme que os mercados funcionam, tentando inclusive demonstrar isso. Creio que essa posição não condiz com a trajetória até aqui brilhante do Secretário. Ele simplesmente omitiu o fato de que, para que os mercados funcionem, entre a curva ascendente e a curva descendente do ciclo econômico, os governos são forçados a intervir para evitar que a crise se transforme em recessão e até depressão, como aconteceu nos anos 30 do século passado e, assim, socializam prejuízos fabulosos com dinheiro público.

Os Contribuintes Pagam a Conta Nas Crises


Ou seja, os contribuintes, as pessoas comuns, os trabalhadores, as classes médias, os que mais pagam impostos, acabam sendo forçados a pagar a conta quando estouram as crises. Entretanto, nas fases ascendentes do ciclo, quando as "expectativas dos agentes econômicos são otimistas" (para usar a linguagem utilizada pelo Secretário), os lucros fabulosos obtidos pelas empresas financeiras são privados, enriquecendo principalmente seus proprietários e os grandes investidores. As pessoas comuns, trabalhadores e classes médias, não são chamados a compartilhar a repartição desses lucros. Mas são forçados a compartilhar a repartição dos prejuízos. É sobre essas bases injustas que os mercados acabam funcionando, quando deixados livres, sem regulamentação, como advoga o neo-liberalismo. Por isso é necessário sim regulamentar os mercados, para que as autoridades econômicas imponham regras que exijam, por exemplo, a formação de fundos privados de proteção nas épocas de bonança, preparados para enfrentar as épocas de crise, como a de agora. Se isso tivesse sido feito nos últimos 25 anos de exacerbação especulativa e lucros fabulosos para as empresas financeiras, não seria necessário dinheiro público dos contribuintes para aplacar a crise hoje.


As Empresas Financeiras Privatizam Lucros na Bonança


O que fizeram as empresas financeiras no mercado livre, não regulamentado? Simplesmente embolsaram os lucros, seja através de dividendos para seus acionistas, seja através de salários e compensações (como são chamadas aqui) para seus funcionários e executivos. Ontem, o principal executivo do Lehman Brothers, Richard Fuld, admitiu, em depoimento perante uma comissão de investigação da crise do Congresso norte-americano, que recebeu mais de 250 milhões de dólares de salários e compensações nos últimos sete anos, fora aumentos de participação acionária no Banco. Segundo os congressistas, na verdade, o valor recebido por Fuld é superior a 500 milhões de dólares. Enfim, é triste ver uma autoridade econômica competente como o Secretário Aod omitir algo tão sério, até porque ele pode vir a ser algum dia o responsável pela regulação dos mercados financeiros no Brasil. Espero que ele revise sua posição e compreenda porque é necessário regulamentar os mercados financeiros no Brasil e em todo o mundo, para o bem das economias e, principalmente, para uma menos injusta repartição da renda e da riqueza em nossas sociedades.

1 comentários:

Plinio Alexandre disse...

Prezado Busatto
Muito bom teu comentário. Quando li o artigo do AOD CUNHA confesso que fiquei estupefato : as palavras não traduziam a realidade.
Giovani Arrighi escreveu um excelente livro sobre o desenvolvimento do capitalismo, cujo título é O LONGO SÉCULO XX.
Nele, o autor identifica três andares nas relações econômicas : o primeiro, mais primário, expressa as relações mais primárias de troca; o segundo, o do mercado livre, expressa a selvageria e o descontrole(a tal mão invisível); e o andar de cima, o mercado regulado onde, segundo ele, sempre foi fundamental a regulação do Estado para os ciclos contínuados de desenvolvimento.
Tenho acompanhado tuas análises, BUSATTO, e cada vez mais concordo com GIOVANI ARRIGHI.
Abraço
Plinio Zalewski Vargas