6 de outubro de 2008

Os Estados Unidos e o Mundo Depois da Quebra de Wall Street

Ainda é cedo para olhar para o futuro, uma vez que a trajetória da crise está ainda em pleno desenvolvimento. Não sabemos se o plano de socorro será suficiente para estabilizar os mercados financeiros, não sabemos como o capital especulativo continuará sua busca de auto-valorização, não sabemos a magnitude do impacto da crise financeira sobre os circuitos reais, produtivo s e comerciais, da economia norte-americana e mundial, não sabemos a resposta para tantas outras questões. Mas parece claro, entretanto, que as bases do surto especulativo exacerbado, que prevaleceu na economia dos Estados Unidosnas últimas décadas, implodiram. Desapareceu a confiança nos mercados financeiros. Com base nela, se erigiu uma enorme bolha especulativa, muito lucrativa para os investidores e as instituições financeiras, através da realização de operações financeiras sofisticadas, muito além das garantias monetárias e reais existentes. Foi assim que surgiu a engenharia financeira dos “credit default swaps” (contratos de proteção de créditos não pagos), e outros tantos derivativos e colaterais, que somente poucos especialistas conhecem inteiramente.

O Fim da Ideologia Neo-Liberal

Foi igualmente desmantelada a ideologia da auto-regulamentação dos mercados, princípio basilar do neo-liberalismo, que manteve nas últimas décadas os mercados livres para exacerbar suas práticas especulativas, na suposição de que seu funcionamento tenderia ao equilíbrio, e de que qualquer regulamentação governamental seria prejudicial. Wall Street, como símbolo dessa época de ouro do capital especulativo, acabou. Outras praças financeiras, entre elas Shangai, Taiwan e Dubai, já se apresentam para ocupar o lugar de Wall Street. Esses centros financeiros tenderão a fortalecer-se, consolidando uma tendência à multi-polarização dos mercados financeiros, que vem a reforçar a tendência à multi-polarização do poder político mundial. Mas seja qual for a nova configuração geográfica, econômica e política desse mundo multi-polarizado, não há dúvida de que o crédito fácil e o financiamento abundante, viabilizados através da exacerbação especulativa, deixarão de ser um mecanismo central de expansão da economia norte-americana, como ocorreu principalmente nas últimas três décadas.

O que virá a partir de agora?

As perguntas centrais que precisam ser respondidas são as seguintes: primeiro, de onde virão as fontes de dinamismo da economia norte-americana depois dessa crise? Segundo, qual será o futuro da política norte-americana a partir de agora? É claro que uma e outra pergunta estão intimamente relacionadas. E a resposta a ambas tem muito a ver com o resultado das eleições aqui nos Estados Unidos. Pode-se visualizar dois cenários básicos. Num primeiro cenário, as forças da inovação prevaleceriam e o capitalismo norte-americano lideraria um surto de investimentos produtivos em grande escala em novas fontes de energia – solar, eólica, biomassa, nuclear – e em novas tecnologias correlacionadas, como é o caso dos carros elétricos, novos meios de transporte coletivo, novos padrões construtivos e tantas outras, que abrirão caminho para uma economia menos dependente do petróleo e mais adequada a uma época em que a humanidade precisa reduzir a tendência ao aquecimento global. Esse cenário é compatível com o avanço das práticas democráticas, um distensionamento das relações internacionais, e com a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos.

O Novo Presidente Fará a Diferença

Um segundo cenário básico reeditaria em novas formas e contextos as saídas do passado, ou seja, prevaleceriam as forças da manutenção do modelo econômico atual, que se articulam através da economia do petróleo e do complexo-industrial militar, e o capitalismo norte-americano lideraria um novo surto armamentista mundo afora. Esse cenário conduziria ao agravamento das tensões com o Oriente Médio e os demais países produtores de petróleo, tenderia a multiplicar as guerras locais e regionais, e reforçaria os mecanismos de controle autoritário. Ele é compatível com a eleição de McCain para a presidência dos Estados Unidos. É provável que a realidade concreta aponte para um terceiro cenário, intermediário, e composto por características de ambos os cenários referenciais. Mas a resultante será muito mais próxima de um ou de outro, dependendo de ser Obama ou McCain o novo Presidente dos Estados Unidos, que continuará sendo o país mais poderoso do planeta, apesar de toda essa crise, e terá ainda, evidentemente, grande influencia mundial.

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