13 de outubro de 2008

A Liderança Dos Estados Unidos Em Questão

O polêmico Francis Fukuyama faz uma análise importante na última revista Newsweek ( 13 de Outubro) . Sintetizo os principais trechos, em tradução livre. “A escolha que nós temos pela frente”, diz ele, “vai muito além do socorro aos bancos, ou da campanha presidencial”. A marca norte-americana está sendo testada, num momento em que outros modelos, como a China ou a Rússia, parecem tornar-se mais e mais atrativos. A partir do governo Roosevelt e sua política de New Deal, o intervencionismo estatal, o peso crescente do governo e sua liderança na dinâmica de crescimento da economia dominaram o cenário nos Estados Unidos e no mundo. Essa filosofia durou até o governo Reagan, quando passou a predominar uma nova visão de capitalismo, baseada no corte de impostos, desregulamentação dos mercados e redução progressiva da presença do Estado na economia. A atual crise marca o fim da era Reagan, internacionalmente conhecida como “Consenso de Washington”, que levou os países em desenvolvimento a abrir suas economias para o fluxo de capitais e mercadorias, com o apoio técnico e financeiro do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Neoliberalismo Tornou-se Uma Filosofia Dogmática

Como outros movimentos de mudança, o que se denominou neoliberalismo acaba de esfacelar-se porque se tornou uma ideologia dogmática, não mais uma resposta pragmática aos excessos do estado do bem-estar social. Os oito anos do governo Bush foram a expressão concreta desse dogmatismo. Quando a realidade econômica já indicava a necessidade de regulamentação para evitar os excessos do mercado financeiro especulativo, tanto em nível nacional como mundial, e quando a experiência exitosa do governo Clinton sinalizava para a continuidade de uma política fiscal responsável, o novo governo voltou a cortar impostos, financiar uma onda consumista e, ainda por cima, pagar por uma guerra caríssima e administrar um déficit fiscal crescente, tudo ao mesmo tempo. O resultado, como se constatou, foi o crescimento explosivo dos déficits comercial e fiscal. A queda do dólar indica que nós chegamos ao ponto em que essa política é insustentável.

Fracasso Da Política De Desregulamentação

O fracasso da política de desregulamentação estava claro muito antes do colapso de Wall Street. Na Califórnia, os preços da energia elétrica dispararam nos anos 2000 e 2001 como resultado da desregulamentação do mercado de energia no Estado, e companhias inescrupulosas como a Enron manipulando a seu favor. A própria Enron e outras companhias quebraram em 2004 porque padrões contábeis não foram adquadamente exigidos.
A desigualdade nos Estados Unidos cresceu na última década porque os ganhos do crescimento econômico beneficiaram desproporcionalmente os americanos mais ricos e letrados, enquanto os salários dos trabalhadores estagnaram. Finalmente, a desastrada ocupação do Iraque e a resposta ao furacão Katrina expuseram de cima a baixo a fraqueza di setor público, resultado de décadas de insuficiência de recursos e do desprestigiamento dos servidores públicos desde os anos Reagan. Tudo isso sugere que a era Reagan já deveria ter terminado algum tempo atrás.

É Preciso Romper Com A Era Reagan

Não importa qual seja o resultado das eleições de Novembro, uma mudança em direção a um novo ciclo na política norte-americana e mundial terá começado. Globalmente, os Estados Unidos não mais desfrutarão a posição hegemônica que ocuparam até agora. A capacidade norte-americana de moldar a economia mundial através de acordos de comércio com o apoio do FMI e Banco Mundial estará reduzida, da mesma forma que os seus recursos financeiros. Em muitas partes do mundo, as idéias norte-americanas, o assessoramento e mesmo a ajuda será menos bem-vinda do que foi até agora. Internamente, é imprescindível romper com a era Reagan com relação a impostos e regulamentação. Cortes de impostos são bons mas não necessariamente estimulam o crescimento ou são auto-financiáveis. Dado o déficit fiscal de longa duração, é preciso que os norte-americanos saibam que eles terão que pagar pelas suas próprias escolhas no futuro. Desregulamentar, com o fracasso da regulamentação dos mercados financeiros que se movimentam velozmente, pode tornar-se muito caro, como acabamos de ver. Todo o setor público norte-americano – com recursos insuficientes, desprofissionalizado e desmoralizado – precisa ser reconstruído e recuperado seu sentido de orgulho. Há certas responsabilidades que somente os governos conseguem assumir. A resposta nada edificante para a crise de Wall Street mostra que a maior mudança que precisa ser feita é na política norte-americana.

1 comentários:

Silvio Belbute disse...

Caro Busatto,

Perfeita abordagem. Apenas penso que não seja o fim do chamado "neoliberalismo" ou como muitos estão pregando, do capitalismo.
Ao contrário, vejo uma reedição em escala global do "welfare State". Talvez tadiamente, sobrando a conta, mais uma vez, para o povo pagar.

Forte e saudoso abraço.

Silvio Belbute