15 de outubro de 2008

Europa Lidera Saídas Para a Crise

Os primeiros movimentos dos países da União Européia diante da crise financeira que eclodiu em Wall Street foram erráticos e desarticulados. Chegou-se a considerar que a dificuldade de coordenação política dos governos europeus estava em dissintonia com a forte integração econômica da União Européia. Mas em poucos dias os países europeus reverteram essa primeira impressão, demonstraram grande capacidade de cooperação, e acabaram liderando intelectual e materialmente as iniciativas políticas para enfrentar a crise. Acabou prevalecendo, pela sua objetividade e eficácia, a alternativa européia – elaborada pela Inglaterra do primeiro ministro Gordon Brown - de injeção de capital nos bancos através da compra de ações preferenciais, combinada com a garantia governamental dos empréstimos entre bancos.

Estados Unidos Seguiram O Figurino Europeu

Na verdade, uma nacionalização parcial do sistema financeiro. A alternativa norte-americana de compra de créditos podres das instituições financeiras, através de leilões invertidos, ou seja, pelo menor preço de oferta, defendida pelo Secretário do Tesouro, Henry Paulson, e pelo Presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, foi colocada em segundo plano. Contribuiu para isso a complexidade de sua operacionalização e sua ineficácia para aplacar a crise dos mercados. Depois de rejeitar essa alternativa, as autoridades norte-americanas não tiveram outra alternativa senão aderir a ela, pela sua maior aceitação por investidores, correntistas e instituições financeiras. Acabaram anunciando hoje a compra de 250 bilhões de dólares de ações dos bancos norte-americanos, somada à garantia das transações financeiras entre bancos. Os mercados reagiram positivamente e o figurino europeu anti-crise impôs-se no mundo inteiro. Foi também decisivo para estabilizar os mercados o volume de capital, da ordem de 2,3 trilhões de dólares, que os governos da União Européia decidiram disponibilizar para estabilizar o sistema financeiro europeu. Uma quantia mais de três vezes superior aos 700 bilhões de dólares disponibilizados pelos Estados Unidos.
A Europa surpreendeu o mundo, agiu com mais inteligência e mais determinação diante da crise que se originou em Wall Street, e foi decisiva para reverter o quadro de desestabilização crescente da semana que passou.

Prêmio Nobel Elogia Proposta da Inglaterra

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de economia deste ano, tem se caracterizado pelas críticas ácidas ao governo Bush e por defender uma política econômica e social mais ativa do governo dos Estados Unidos. “Pelo bem da nação”, diz ele, o futuro governo democrático “deveria seguir um corajoso programa liberal de expansão da rede de segurança social e de redução da desigualdade – um novo New Deal.”
Em sua coluna semanal no New York Times, no final da semana passada, Krugman refere-se de forma elogiosa a proposta do governo da Inglaterra e, em particular, de seu primeiro ministro, no episódio da crise econômica mais grave desde os anos 30 do século passado. Pela sua força sistêmica e seu alcance mundial, caso a crise não fosse aplacada com rapidez, atingiria de forma ainda mais profunda os setores produtivo e comercial, com desdobramentos econômicos e sociais imprevisíveis. A desaceleração econômica que já vinha em curso, entretanto, deverá de qualquer modo acentuar-se, e marcará a conjuntura econômica do mundo no próximo período.

Multi-Polarização Do Poder Mundial

Diferentemente da arquitetura mundial dominada por uma superpotência, no caso os Estados Unidos, os acontecimentos da última semana revelam com clareza que o mundo está consolidando uma arquitetura econômica e política multi-polarizada, ao mesmo tempo em que avança o processo de globalização. As instituições criadas depois da Grande Depressão, sob a liderança e o comando dos Estados Unidos, como o FMI e o Banco Mundial, deverão adequar-se a essa nova arquitetura mundial. Ficará como lembrança do passado o “consenso de Washington”, que pautou a política dos Estados Unidos, do FMI e do Banco Mundial com relação aos demais países, e especialmente os países em desenvolvimento, por pelo menos duas décadas. Os Estados Unidos continuam sendo a superpotência militar. E aí reside uma questão crucial para o futuro, cujos desdobramentos imediatos passam pela opção política que os norte-americanos farão nas eleições do próximo dia 4 de novembro.

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