
Agravamento Sem Precedentes da Crise
Nos últimos dias, sinais de ainda maior aguçamento da crise: o banco de investimentos Lehman Brothers, um dos maiores e mais antigos do país, com 24.700 trabalhadores em todo o mundo, está buscando apressadamente um comprador, pois está perdendo valor em ativos e fôlego para resistir à crise do sistema hipotecário dos Estados Unidos. Nesse caso, o Tesouro Norte-Americano sinaliza que não colocará mais recursos dos contribuintes numa operação de salvamento, mas o mercado tem dúvidas de que conseguirá sustentar essa posição. Segundo o New York Times, esse final de semana foi um dos mais dramáticos da história de Wall Street. O Merrill Linch, com cerca de 60.000 trabalhadores, acaba a de ser vendido para o Bank of America por aproximadamente 50 bilhões de dólares, para evitar sua bancarrota. Já o Lehman Brothers caminha para liquidação, por não ter conseguido até agora comprador. E o American International Group busca uma ajuda de 40 bilhões de dólares do Tesouro para tentar sobreviver. Parece, entretanto, que ainda assim a crise não chegou ao fundo do poço, pois o Fundo Monetário Internacional prevê perdas globais da ordem de 1 trilhão de dólares antes da crise chegar ao fim.
Estatização e Concentração Financeira
Na verdade, no centro do capitalismo mundial, estamos testemunhando a estatização de importantes segmentos do mercado financeiro, ao lado de sua concentração ainda maior em poucos mega-bancos, de modo a evitar a proliferação da crise a ponto de atingir fortemente o sistema de crédito e, por extensão, a economia como um todo. As operações de salvamento do Tesouro Norte-Americano reproduzem a velha prática da socialização de prejuízos, quando os lucros são privados, porque quem realmente pagará essa conta são os milhões de cidadãos contribuintes, embora o governo ironicamente alegue que atuou em sua defesa. Pressionado pelos gastos bilionários no Iraque e pelo socorro ao sistema de crédito, o déficit fiscal do governo deverá ultrapassar os 400 bilhões de dólares nesse ano, mais do que o dobro do ano passado. Segundo Paul Davidson, editor do Jornal de Economia Pós-Keynesiana, “a solução do Fed representa o resultado de um sistema político que desde a era Reagan não só tem sido relutante para regulamentar as instituições financeiras, mas tem também efetivamente estimulado a liberdade de mercado que terminará resultando desastrosa”.
Efeito Contágio
Não é de estranhar que o dólar continua a enfraquecer, já não mais perdendo apenas a sua qualidade como reserva de valor, senão também a referência para transações internacionais. Brasil e Argentina, por exemplo, acabam de anunciar a troca do dólar pelo real e o peso como moedas de referência nos seus fluxos de comércio bilateral. Com o sistema financeiro em queda e o dólar enfraquecendo-se, é provável que a crise dos Estados Unidos venha a agravar-se ainda mais, inevitavelmente contagiando a Europa e repercutindo na América Latina e no Brasil. A hipótese do não-contágio é insustentável num mundo tão interligado como o de hoje. O desempenho das bolsas de valores em todo o mundo são o termômetro dessa interdependência. No seu livro, George Soros afirma categoricamente: “Os Estados Unidos estão enfrentando não só uma recessão como uma fuga do dólar”. Suas conseqüências alcançarão o mundo inteiro.
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