15 de setembro de 2008

Crise em Dose Dupla

Os Estados Unidos estão vivendo, simultaneamente, uma dupla crise econômica e política, num nível de gravidade sem precedentes nas últimas décadas. Sobre a crise política, não há qualquer dúvida, basta considerar que o governo Bush é o mais impopular em segundo mandato em décadas. Estava em dúvida sobre a gravidade da crise econômica até ler o último livro de George Soros, “The New Paradigm for Financial Markets” (O Novo Paradigma para os Mercados Financeiros), lançado há pouco aqui. A profundidade da crise econômica é tão bem analisada que passa a impressão de que Soros sabia da iminente quebra das duas empresas gigantes do mercado hipotecário – Fanie Mae e Freddie Mac e dos novos acontecimentos que estão se seguindo. Com mais de 11 mil trabalhadores, dois-terços de todos os empréstimos habitacionais nos últimos meses e metade do total de mais de 10 trilhões de dólares de empréstimos habitacionais da nação, a operação de socorro do Tesouro Norte-Americano deverá custar cerca de 200 bilhões de dólares para o governo. Os 29 bilhões de dólares que o Tesouro teve que injetar em março desse ano para viabilizar a aquisição do banco de investimentos Bear Stearns pelo banco J.P.Morgan Chase, dão uma idéia do tamanho dessa última operação de socorro.

Agravamento Sem Precedentes da Crise

Nos últimos dias, sinais de ainda maior aguçamento da crise: o banco de investimentos Lehman Brothers, um dos maiores e mais antigos do país, com 24.700 trabalhadores em todo o mundo, está buscando apressadamente um comprador, pois está perdendo valor em ativos e fôlego para resistir à crise do sistema hipotecário dos Estados Unidos. Nesse caso, o Tesouro Norte-Americano sinaliza que não colocará mais recursos dos contribuintes numa operação de salvamento, mas o mercado tem dúvidas de que conseguirá sustentar essa posição. Segundo o New York Times, esse final de semana foi um dos mais dramáticos da história de Wall Street. O Merrill Linch, com cerca de 60.000 trabalhadores, acaba a de ser vendido para o Bank of America por aproximadamente 50 bilhões de dólares, para evitar sua bancarrota. Já o Lehman Brothers caminha para liquidação, por não ter conseguido até agora comprador. E o American International Group busca uma ajuda de 40 bilhões de dólares do Tesouro para tentar sobreviver. Parece, entretanto, que ainda assim a crise não chegou ao fundo do poço, pois o Fundo Monetário Internacional prevê perdas globais da ordem de 1 trilhão de dólares antes da crise chegar ao fim.

Estatização e Concentração Financeira

Na verdade, no centro do capitalismo mundial, estamos testemunhando a estatização de importantes segmentos do mercado financeiro, ao lado de sua concentração ainda maior em poucos mega-bancos, de modo a evitar a proliferação da crise a ponto de atingir fortemente o sistema de crédito e, por extensão, a economia como um todo. As operações de salvamento do Tesouro Norte-Americano reproduzem a velha prática da socialização de prejuízos, quando os lucros são privados, porque quem realmente pagará essa conta são os milhões de cidadãos contribuintes, embora o governo ironicamente alegue que atuou em sua defesa. Pressionado pelos gastos bilionários no Iraque e pelo socorro ao sistema de crédito, o déficit fiscal do governo deverá ultrapassar os 400 bilhões de dólares nesse ano, mais do que o dobro do ano passado. Segundo Paul Davidson, editor do Jornal de Economia Pós-Keynesiana, “a solução do Fed representa o resultado de um sistema político que desde a era Reagan não só tem sido relutante para regulamentar as instituições financeiras, mas tem também efetivamente estimulado a liberdade de mercado que terminará resultando desastrosa”.

Efeito Contágio

Não é de estranhar que o dólar continua a enfraquecer, já não mais perdendo apenas a sua qualidade como reserva de valor, senão também a referência para transações internacionais. Brasil e Argentina, por exemplo, acabam de anunciar a troca do dólar pelo real e o peso como moedas de referência nos seus fluxos de comércio bilateral. Com o sistema financeiro em queda e o dólar enfraquecendo-se, é provável que a crise dos Estados Unidos venha a agravar-se ainda mais, inevitavelmente contagiando a Europa e repercutindo na América Latina e no Brasil. A hipótese do não-contágio é insustentável num mundo tão interligado como o de hoje. O desempenho das bolsas de valores em todo o mundo são o termômetro dessa interdependência. No seu livro, George Soros afirma categoricamente: “Os Estados Unidos estão enfrentando não só uma recessão como uma fuga do dólar”. Suas conseqüências alcançarão o mundo inteiro.




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