21 de setembro de 2008

A Crise Econômica dos EUA Segundo Stiglitz

Reproduzo, em tradução livre, uma síntese da esclarecedora entrevista do Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, ao jornalista Gardels, do Washington Post.

Os Fundamentos Não São Fortes


Os mercados financeiros foram responsáveis por 30% dos lucros das empresas nos últimos anos. O argumento de que eles mereciam esse retorno porque estavam ajudando a administrar o risco da economia e fazer alocação eficiente de recursos provou não ser correto. Eles administraram pessimamente e isso agora se volta contra eles e o resto da economia está sofrendo porque a redução do crédito vai desacelerar o crescimento. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um sistema financeiro vibrante. Mesmo que não estivéssemos vendo esta crise financeira, mas somente o mercado habitacional e as dívidas nacional e dos estados, já teríamos um sério problema. Nós estamos afundando. Se olharmos a desigualdade, que é a maior desde a Grande Depressão, há um sério problema. Se olharmos os salários estagnados, há um problema sério. A maior parte do crescimento econômico dos últimos cinco anos sustentou-se na bolha habitacional, que agora estourou. E os frutos desse crescimento não forma compartilhados amplamente. Em resumo, os fundamentos não são fortes.
(nesse momento Stiglitz refere-se à declaração de McCain de que, apesar da crise financeira, “os fundamentos da economia são fortes”).

Redesenho do Sistema de Regulamentação

Nós precisamos não só de mais regulação, mas de um redesenho do sistema de regulação. Alan Greenspan, durante sua gestão como presidente do FED, na qual essa bolha hipotecária e financeira cresceu, tinha muitos instrumentos para controlá-la, mas fracassou. Ele foi escolhido por Ronald Reagan, afinal de contas, porque suas atitudes anti-regulamentação. Nosso país tem sofrido pelas conseqüências de escolher como chefe da regulamentação da economia alguém que não acreditava em regulamentação. Assim, para corrigir o problema nós necessitamos líderes políticos e executivos públicos que acreditem em regulamentação. O mundo não desapareceria se nós expandíssemos o sistema hipotecário em 10% ao invés de 25% ao ano como ocorreu. Acima de tudo, nós precisamos uma comissão de segurança de produtos financeiros, exatamente como nós temos para os bens e serviços de consumo. Os financistas inventaram produtos voltados não exatamente para administrar risco, mas para criar risco. Se você está comprando um produto, você quer saber o risco, pura e simplesmente. Esse é o ponto.

Fim do Fundamentalismo de Mercado

A agenda da globalização tem sido estreitamente associada com os fundamentalistas de mercado, a ideologia do mercado livre e da liberalização financeira. Nessa crise, nós temos visto as instituições mais orientadas ao mercado nas economias mais orientadas ao mercado quebrando e correndo por ajuda do governo. Todos no mundo dirão agora que isso é o fim do fundamentalismo de mercado. Nesse sentido, a queda de Wall Steet é para o fundamentalismo o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo – ela revela ao mundo que essa forma de organização econômica tornou-se insustentável. No final, todos dirão que o modelo não funciona. Esse momento é um marco de que a defesa da liberalização financeira dos mercados é uma fraude. A hipocrisia entre a maneira como o Tesouro norte-americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como essa está sendo enfrentada está intensificando essa reação intelectual. Os asiáticos agora dizem: “esperem um minuto, vocês disseram para imitar vocês nos Estados Unidos. Vocês são o modelo. Tivéssemos seguido seu exemplo, nós estaríamos na mesma bagunça. Vocês podem sustentá-la. Nós não”.

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