16 de setembro de 2008

As Crises Gêmeas

Muitos analistas tem subestimado o que está ocorrendo nos Estados Unidos, mas os últimos acontecimentos já não deixam mais lugar a dúvidas: Wall Street está vivendo a maior crise financeira desde a grande depressão dos anos 30 do século passado. Suas conseqüências para a economia norte-americana e para o resto do mundo são ainda imprevisíveis, porque o agravamento da crise está ainda em pleno curso. Em seu último livro, “The New Paradigm for Financial Markets” (O Novo Paradigma para os Mercados Financeiros), George Soros demonstra que os erros que o governo Bush cometeu na guerra contra o terror, com suas consequências nefastas para os Estados Unidos e para o mundo, tem a mesma origem dos erros que comete em lidar com a atual crise financeira. Por isso estou chamando a dupla crise atual, política e econômica, de crises gêmeas .

A Explicação de Soros

Soros atribui tanto a crise política como a econômica à atitude oficial vigente de desrespeito com a verdade e com a realidade concreta, autorizando a manipulação da verdade e a criação de novas realidades como poder legítimo do império. O ideólogo dessa concepção imperial é Karl Rove, um dos principais estrategistas do governo Bush. Rove, escreve Soros, “não apenas reconhece que a verdade pode ser manipulada, ele promoveu a manipulação da verdade como um enfoque superior”. Isso ocorreu quando Bush declarou guerra contra o terror e manipulou informações para justificar a invasão do Iraque. E a atual crise financeira pode ser diretamente atribuída à falsa interpretação de que os mercados financeiros deixados em liberdade tendem ao equilíbrio, tornando desnecessário regulamentar seu funcionamento pela ação governamental.

Liberdade Versus Regulamentação dos Mercados

A liberalidade com que o governo Bush tratou o sistema financeiro da habitação nesses últimos oito anos permitiu que ele operasse com operações derivativas e colaterais em grande escala, ampliando-as muito além do que permitiam seus ativos reais e, com isso, desrespeitando as margens mínimas de segurança necessárias. O resultado desastroso está sendo colhido agora, com praticamente todas as instituições que operavam nesse sistema falidas, com custos econômicos e sociais ainda imprevisíveis para a sociedade norte-americana e inclusive para o mundo como um todo. Numa entrevista dada nessa segunda-feira, o Secretário do Tesouro Henry Paulson, parece começar a fazer uma autocrítica da orientação seguida até aqui, quando admite, ao lado da disciplina de mercado, a necessidade de maior rigor na regulamentação do sistema de crédito imobiliário.

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