Mais democracia
Um amigo observou-me recentemente que é impressionante a sensação que está no ar de se caminhar ou não para uma nova política. Tenho procurado há anos compreender quais os caminhos pelos quais está passando essa necessária mudança para uma nova política, mais verdadeira e representativa da vontade e dos anseios da sociedade civil. Lembro-me do Jardineiro que Tinha Fé, de Clarissa Pinkola Estés: “Ah”, disse ele, “chegamos agora a um ponto na história dessa pequena vida no qual a única mudança que é certa é que haverá mudança. Está entendendo o que estou dizendo?” Parece-me que há um certo consenso na opinião pública de que o sistema político-eleitoral atualmente vigente exauriu sua capacidade de representar a sociedade e seus anseios, e isso é tão certo que há vários anos se fala da necessidade de uma reforma política que nunca conseguiu até hoje acontecer. O assunto volta agora mais uma vez às manchetes. Que tipo de mudança política se requer? O assunto tem sido tratado como se necessitássemos tão somente de mudanças institucionais, como a fidelidade partidária, o voto em lista fechada, o financiamento público de campanhas, entre outras. Isso é positivo, mas é importante observar que uma nova política institucional pouco avançará na democratização da sociedade se não aprofundarmos a cultura democrática na vida e na relação entre as pessoas nas comunidades onde elas vivem, trabalham, constroem suas esperanças e seus projetos de vida. Democratizar o cotidiano da vida das pessoas com base na prática dos valores da verdade, da confiança, do diálogo, do respeito às diferenças, da legitimidade do outro, da honestidade, da transparência, é a grande mudança necessária para que se possa avançar para uma mudança efetiva na nossa cultura política. Sem essa mudança de valores democráticos na vida e nas relações humanas na base da sociedade, as mudanças institucionais serão pouco mais do que uma tentativa de dar satisfação aos reclamos da opinião pública, não tendo a força de promover uma mudança efetiva no sentido de mais democracia na vida da sociedade. Mais vida democrática é, pois, a resposta para melhor enfrentar os complexos desafios do mundo em que hoje vivemos. Mais democracia na política institucional, mas, sobretudo, mais democracia no cotidiano da vida em sociedade.
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