Cézar Busatto
A associação entre os homens como forma de enfrentar desafios comuns é tão antiga quanto o homo sapiens das cavernas. Mas, por mais incrível que pareça, o reconhecimento do homem por si mesmo é algo novo na história da humanidade. Fomos gerando crescimento e conhecimento, sem compreender exatamente quem éramos, como vivíamos, como construíamos nossas relações. A questão filosófica de onde viemos, quem somos, para onde vamos, por que estamos aqui sempre esteve presente, mas o entendimento do que e como estamos nesse viver em sociedade, recém engatinha.
Conforme o pesquisador paraguaio, Juan Bordenave, “foi só na década de 70 que se começou a conceder uma importância concreta ao fato de o homem ser ao mesmo tempo o produto e o criador de sua sociedade e sua cultura. Tomou-se em conta que ele está rodeado pelo meio ambiente físico, mas, sobretudo, pelo meio ambiente social, composto por outras pessoas com quem ele mantém relações de interdependência”.
Hoje sabemos que é a conjugação de nações democráticas com liberdade de expressão e de associação que produz um novo elemento nas relações em sociedade, cujo papel e relevância são ainda pouco compreendidos. Este elemento é o protagonista de uma nova forma do agir social em caráter planetário: a luta pelos direitos humanos, a consciência ambiental, as associações sem fins lucrativos, o voluntariado social organizado, as organizações não-governamentais, os investimentos sociais privados introduzem novos paradigmas que estão revolucionando o viver em sociedade.
De certa forma, a reação nascida no seio da cidadania traduz o desejo de cada indivíduo de participar do processo decisório da vida de sua cidade e de sua comunidade, de interferir no que considera errado, de derrubar líderes e mudar sistemas de governo, se preciso. A necessidade de uma participação popular mais focada, mais eficiente, e maior conscientização são novos fatores que entram em jogo. A influência dos movimentos sociais foi decisiva para provocar mudanças. Sem sua pressão sobre as empresas e sobre os governos, nas diversas esferas de poder, nada teria mudado. Ao mesmo tempo em que o Estado percebe a importância deste novo ator, os próprios grupos compreendem seu poder e influência em uma arena antes exclusiva das lideranças políticas. É dessa maneira que a revolução pela responsabilidade social começa criar seus braços planetários.
A nova sociedade está oferecendo exemplos fantásticos que podem ser reproduzidos e incentivados por todos os agentes sociais que buscam a transformação do mundo atual. Ainda que cada realidade, cada cultura, cada local tenha suas características individuais, peculiares e muito próprias, diariamente os jornais, a Internet, as redes associativas estão gerando novas e interessantes idéias que contaminam e inspiram mais e mais pessoas.
Estas pessoas dão um passo além da filantropia e muitas empresas perceberam que chegava o momento de também avançar, dando um passo além do marketing e do investimento social, para ações de envolvimento e comprometimento mais complexo com seus colaboradores e com a comunidade onde estão inseridas. Fortaleceu-se este reconhecimento por parte das empresas, das instituições internacionais promotoras de desenvolvimento, das organizações não-governamentais, do terceiro setor, mas é ainda muito incipiente a absorção deste novo conceito por parte do poder público.
Impulsionados por uma sociedade organizada em redes, cada vez mais permeável à agilidade da informação, e por comunidades que buscam assegurar suas identidades, homens e mulheres de todos os cantos do mundo estão a nos sinalizar que querem e podem ser muito mais do que cidadãos que apenas reivindicam. Desenha-se assim, na dinâmica viva desta nova realidade social contemporânea, a figura do cidadão que governa, do cidadão-gestor.
São indivíduos que sofrem os impactos estressantes de um mundo cada vez mais inseguro e instável, repleto de injustiças sociais, mas que não aceitam que a gravidade e complexidade dos problemas se sobreponham as potencialidades humanas e sociais para a sua resolução. Este novo cidadão percebe que a conquista de sua felicidade só será completa numa sociedade onde haja possibilidade de vida digna e segura para todos.
Ao chamar para si a responsabilidade pela construção de um clima social e humano com maior confiança mútua, estruturado em bases éticas voltadas para a consolidação democrática, este novo cidadão rompe com a cultura do indivíduo-tutelado; arranca a venda da alienação política; assume sua maioridade. Sinaliza para os demais que já é tempo de superar a visão paternalista que limita a experiência de viver em sociedade numa relação de casa grande e senzala. Ao assumir a responsabilidade pela condução de sua vida, ao assumir que os paradoxos da sociedade brasileira são frutos e reflexos de nossas atitudes e omissões individuais, este novo cidadão se qualifica e qualificando-se oportuniza a transformação da comunidade onde vive.
Nesse sentido, ganha uma nova dimensão a união de forças sociais para que alcancemos outros estágios de inclusão social. É reconhecendo onde acontece a vida, é reconhecendo onde as pessoas se organizam, vivem, trabalham e têm seus filhos que passamos a dar um outro valor ao poder local. Isto ocorre porque o ser humano existe para viver em sociedade e é movido por uma inesgotável fonte de criatividade, que o empurra a buscar novos e melhores patamares de sobrevivência com mais qualidade de vida e, conseqüentemente, com mais felicidade. Ainda que os avanços tecnológicos e científicos gerem paradoxos de desigualdade, de pressão psicológica e disputa, é no território onde a vida se desenrola que temos a oportunidade de construir um ambiente mais agradável, mais pacífico, mais bonito, mais feliz. A prática da solidariedade na vizinhança que se une em torno de um projeto comum exercita a capacidade do ser humano de não apenas participar, mas de criar um ambiente de menos stress.
A partir desses pressupostos, entendemos que é chegada a hora de estimular não somente a figura do cidadão que reivindica seus direitos, que participa da definição de onde serão aplicados os recursos públicos da sua cidade, mas fomentar a figura do cidadão-gestor, bem informado, ciente não só de seus direitos, como também de seus deveres, que protagonize a construção de seu próprio destino. A idéia é potencializar as aptidões natas do ser humano, por vezes sufocadas pelo ritmo de competição da sociedade moderna, para que o reconhecimento do homem social gere não apenas crescimento econômico, mas o desenvolvimento na sua verdadeira acepção.
A responsabilidade social, portanto, é fundamento basilar do que chamamos de governança solidária local. Ao promovê-la, o fazemos porque queremos ser referência em qualidade de vida, construindo um ambiente sustentável e participativo, garantindo a pluralidade, estimulando o diálogo, promovendo a cooperação e trabalhando em torno de um projeto comum.
Garantir a pluralidade significa reconhecer que a sociedade é composta por múltiplas diferenças culturais, políticas, religiosas, ideológicas. Estimular o diálogo porque é fundamental que o poder público participe e crie condições para que as múltiplas conexões de uma sociedade se tornem um sistema permanentemente aberto, facilitador do fluxo e da apropriação de informações.
Queremos, por fim, criar um clima de cooperação e empoderamento e estabelecer um contrato de co-responsabilidade social para a melhoria da vida e da convivência das pessoas porque é assim que unimos forças em torno de um projeto comum de desenvolvimento. Por outro lado, entendemos ser necessário ampliar o nível de conhecimento da cidadania sobre a realidade local através da acessibilidade e legibilidade de informações geoprocessadas por bairro, região e da cidade como um todo.
Outros dois pilares de sustentação da governança solidária local são a construção de parcerias – que articulam e agregam os esforços e os recursos humanos, sociais, materiais e de conhecimento de todos os atores da sociedade: públicos, privados e não-governamentais – e a geração do sentido de co-responsabilidade, que permite a pactuação de compromissos pelo alcance de resultados sociais entre todos os parceiros envolvidos em cada projeto.
Nossa meta é o trabalho em cooperação, articulando e somando todos os esforços, rompendo todas as barreiras para que cada dimensão da vida em sociedade seja compartilhada. Trata-se, por tanto, de uma experiência de co-gestão: governo e sociedade fazendo um pacto pelo desenvolvimento local. Afinal, se dependermos unicamente dos parcos recursos públicos constantes do orçamento do poder público municipal, se não formos abertos a novos paradigmas, será muito mais difícil, para não dizer impossível, superar tamanha desigualdade social.
Estamos, portanto, diante do desafio de construir uma nova arquitetura pública, um novo modelo de Estado. A etapa atual da humanidade, sustentada numa sociedade de informação, articulada em rede, exige um modelo de Estado descentralizado, horizontalizado, integrado, finalístico, articulado e flexível. De outro lado, a governança solidária local requer um novo fazer político, que rompa com a ação assistencialista, clientelista e parta para a cooperação, o respeito à diferença e o diálogo. Não apenas a visão das carências, mas também das potencialidades de cada cidadão e de cada comunidade.
Governança solidária local significa desenhar em conjunto um projeto de futuro para que cada comunidade possa ser a comunidade mais bonita e feliz do mundo. Por seu intermédio avançamos do exercício da participação para a prática da parceria, fomentando o empreendedorismo e a cooperação, colocando o ser humano como protagonista do desenvolvimento e seu principal beneficiário, numa nova construção histórica a partir da articulação local / global.
Nessa visão, os elementos-chave são: o senso de propósito e valores compartilhados; a agregação de valor mútuo; a compreensão de que as parcerias são alimentadas por pessoas; o forte compromisso e paixão; a confiança; a comunicação; a transparência e a mudança de modelos mentais. Esta nova postura institucional exige uma gestão compartilhada; a participação efetiva da comunidade; a flexibilidade dos programas / projetos de acordo com a realidade local; a informação socializada / comunicação; a transparência; o controle social; a parceria com base em objetivos claros e comuns; uma nova articulação de atores; a concertação de uma nova esfera pública não-estatal e a ação em rede (horizontalidade).
É possível que esta mudança de conceitos leve algum tempo para concretizar a construção de uma sociedade mais justa. Mas, uma certeza nos move: pessoas nascem para serem felizes e governos só fazem sentido se se propuserem a melhorar as condições de vida para que as pessoas possam viver e conviver com felicidade. Além do mais, por acreditar na imensa capacidade do ser humano de arregaçar as mangas e ousar buscar a felicidade individual e coletiva em outras bases, entendemos que este conceito se aplica a toda e qualquer relação social. Sua prática, efetivamente, reduz os desgastes, dá sentido de vida, melhora a convivência entre os humanos.
Com ética, equidade, equilíbrio, participação, compartilhamento, respeito, cooperação, integração, comprometimento, aperfeiçoamento contínuo, pluralidade, responsabilidade social, desenvolvimento sustentável e visão holística do ser humano, a governança solidária local se propõe a colocar em prática as teorias que poderão nos conduzir a um mundo mais feliz, mais saudável e mais pacífico. Construir espaços de governança solidária nas comunidades locais e nas organizações é o melhor caminho para uma vida saudável, seja como indivíduos, seja como sociedade.
A partir desse olhar diferenciado para antigos problemas, ressurge com vigor a esperança de que a democracia representativa torne-se cada vez mais aberta à participação cidadã e contemple as expectativas dos múltiplos poderes e saberes que compõem a sociedade, sem submetê-la apenas ao velho poder estatal ou mercadológico. O fortalecimento dessa liberdade estimula a geração de alternativas criativas, oferece caminhos de maior autonomia e, ao envolver um maior número de pessoas na busca de soluções, radicaliza o conceito de democracia em favor da cidadania plena.
Agradeço, mais uma vez, a possibilidade de estar aqui compartilhando minhas idéias e proposições e também aprendendo com vocês. Eventos como este sintetizam um pouco a riqueza das experiências que estão em andamento por todo o planeta, onde homens e mulheres se reconhecem como responsáveis pela sua própria história.
Talvez seja esta a grande oportunidade para que o século XXI inaugure uma nova etapa de nossa história, canalizando a seiva do verdadeiro espírito republicano para a construção de um poder efetivamente público, não-estatal, não mais isolado, fragmentado, hierarquizado, burocrático e instrumento de interesses privados, conectado com uma sociedade ciente de seus direitos e deveres e, acima de tudo, consciente de que a condução do destino de comunidades cada vez mais complexas depende de um novo tipo de empoderamento social.
Queremos todos viver numa sociedade onde cada indivíduo se percebe cidadão, protagonista de seu destino, responsável pela sua felicidade e solidário com a busca da felicidade do outro. O estreitamento das relações sociais em cada vizinhança, em cada bairro, em cada município, em cada lugar, concilia interesses, promove o diálogo, e, acima de tudo, faz nascer das diferentes opiniões e da pluralidade de saberes propostas capazes de superar os entraves até então estabelecidos pelas visões arcaicas. O século XXI que queremos precisa desse espírito de governança, de solidariedade e de valorização das comunidades locais.
Na governança solidária local, cada homem, cada mulher, cada criança, cada idoso torna-se sujeito ativo, partícipe da vida de sua comunidade, capaz de construir lugares saudáveis e felizes para se viver. E o cidadão que governa, enfim, tem nas mãos a oportunidade única de fazer uma Nação muito melhor.
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